Instituto Industrial e Comercial de Nampula (antiga Escola Técnica de Nampula)

Instituto Industrial e Comercial de Nampula (antiga Escola Técnica de Nampula)

Nampula, Nampula, Moçambique

Equipamentos e infraestruturas

Para melhor entender o projecto para a Escola Técnica de Nampula, projectada em 1959, por Fernando Mesquita, leia-se a entrada "Escola Técnica de Quelimane". Os projectos são em quase tudo idêntico, desde as questões funcionais, às construtivas; das dimensionais às formais. A excepção está na implantação: mantendo o rigor Norte-Sul na orientação da galeria principal, estão 180º invertidas uma em relação à outra.

Para se compreender esta questão, é necessário relembrar que no caso do clima Moçambicano, as duas principais condições com que a arquitectura tem de trabalhar são o Sol e o vento. "Em sentido figurativo poderia apresentar-se como arquétipo de habitação dos climas quentes e húmidos a árvore de copa frondosa: dá sombra, permite a ampla ventilação; absorve, mas elimina, a radiação solar" (Ruy Gomes - O Problema do Conforto Térmico em Climas Tropicais e Subtropicais. Lisboa: LNEC, 1967, p. 44).No entanto, nem sempre estes dois elementos vitais podem estar em consonância na definição de uma orientação perfeita.

A situação de compromisso entre insolação e circulação permanente do ar dá origem a duas abordagens distintas na implantação das escolas de Fernando Mesquita. As escolas das cidades de Nampula e de Quelimane representam o paradigma das duas situações: enquanto nas escolas de Quelimane (em que os ventos predominantes vêm do Sul) a circulação do ar e a protecção solar são factores articulados perfeitamente, nas escolas de Nampula (em que os ventos dominantes vêm do Norte) apenas a circulação do ar (e a protecção das chuvas) desempenham a sua função com rigor. Analisando todo o programa escolar construído de Fernando Mesquita, podemos constatar que em todos os casos em que foi necessária uma implantação de compromisso, o privilégio foi dado à direcção dos ventos e não à protecção solar.

A situação periclitante em termos de protecção solar nas escolas de Nampula induz-nos a considerar que o conceito de Fernando Mesquita tenha sido desenvolvido para as situações em que os ventos vinham de Sul e que em caso contrário, a opção tomada tenha sido inverter 180º o modelo, sem se proceder a adaptações a essa situação em termos de protecção solar, uma vez que os dispositivos de sombreamento horizontais deixam de servir a sua função em fachadas viradas a Sul e os verticais nas fachadas orientadas a Norte.

Muitos são os estudos que dizem que, em situação de dúvida, em climas quentes e húmidos a ventilação deverá ser sempre o princípio privilegiado, em detrimento da insolação ideal. Tendo em conta que é a única forma de atenuar o desconforto provocado pela humidade excessiva, incrementada consideravelmente por estrarmos a lidar com salas de aula com uma elevada taxa de ocupação, não está em causa a importância primordial dada a este factor. A acrescentar a esse fenómeno, facilmente se compreende que a movimentação do ar constitua um processo determinante na prevenção da picada do insecto responsável por doenças como a malária. O que fica, no entanto, por desvendar é a ausência de explicação para que, tendo-se dado primazia a um factor - os ventos - se tenha negligenciado o outro - a protecção solar. Sem terem restado dúvidas quanto ao privilégio que Fernando Mesquita atribuiu à circulação do ar para a definição das condições de conforto das salas de aula, ficam, no entanto, em aberto, as questões acerca das razões que terão estado na origem da concepção do programa de Fernando Mesquita, nas cidades em que os ventos sopram de Norte na estação quente.

Zara Ferreira

(Referência FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

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