Escola Técnica Elementar Governador Joaquim Araújo (atual Escola Secundária Estrela Vermelha)

Escola Técnica Elementar Governador Joaquim Araújo (atual Escola Secundária Estrela Vermelha)

Maputo [Lourenço Marques], Maputo, Moçambique

Equipamentos e infraestruturas

A Escola Técnica Elementar de Lourenço Marques (1961) – também conhecida por Escola Técnica Elementar Governador Joaquim Araújo, e actualmente designada Escola Secundária Estrela Vermelha – é o projecto de maior dimensão e complexidade programática de todas as tipologias escolares projectadas por Fernando Mesquita (1916, Vila Real-1990s, Maputo) em Moçambique, entre 1955 e 1975.

O programa de Fernando Mesquita surgiu, nos anos 50, no contexto dos Serviços de Obras Públicas de Moçambique, da necessidade de construção de edifícios escolares, em larga escala e num curto período de tempo, por todo o território moçambicano, para diversos tipos de ensino. A execução rápida e o mínimo custo por unidade escolar eram exigências básicas. Por outro lado, o ensino em Moçambique estava simultânea e continuamente ainda a ser definido. Face à incerteza do programa funcional, da quantidade de população escolar e respectiva frequência, um dos interesses primários a ter em conta na concepção arquitectónica dos edifícios escolares terá sido a capacidade de adaptação a futuras utilizações, considerando principalmente a ampliação. Paralelamente a estas exigências, foi na resposta aos desafios colocados pela adaptação das construções ao clima local, que residiu a chave do desenvolvimento conceptual deste programa arquitectónico.

Face ao exposto, desenvolve-se um programa-tipo que elege a sala de aula como a unidade básica da sua organização espacial. De planta sensivelmente quadrada e inicialmente destinada ao ensino em classe, é concebida em compartimento único, sempre com pelo menos duas fachadas em contacto com o exterior, à qual se agrega a uma delas uma galeria de circulação coberta.

Tendo começado por se desenvolver para as escolas primárias, com base na agregação continuada de salas lado a lado conforme as necessidades programáticas, evoluiu até às escolas de ensino profissional e secundário (escolas técnicas, preparatórias, comerciais, industriais e liceus), onde a unidade básica da organização espacial passou a ser o pavilhão, resultado do agrupamento de salas de aula. Estes, integrando as diferentes necessidades funcionais, distribuem-se, regra geral, ao longo de uma galeria de circulação coberta que os articula perpendicularmente. Continuando a desenvolver-se, adquire na Escola Técnica Elementar de Lourenço Marques duas galerias de circulação principal, enquanto caso excepcional de todo o programa Mesquitano construído. Contrariamente à linearidade e à horizontalidade que as restantes escolas apresentam, a Escola Técnica Elementar de Lourenço Marques estrutura-se sobre uma grelha ortogonal de circulação que, assente num terreno com declive acentuado, assume uma organização em vários níveis. Esta diferença na implantação permitiu a criação de uma maior variedade de espaços exteriores, adquirindo uma diversidade não atingida em nenhuma outra escola, na sua maioria construídas em superfícies planas. Exuberantemente envolvida de variadíssimas espécies vegetais, é exemplar no contributo da vegetação na retenção da poluição, da poeira, do ruído e da visibilidade para o exterior.

Todas as escolas de Fernando Mesquita dividem-se em três sectores básicos de exigências de natureza distinta: a administração, o sector escolar e o sector de jogos e desportos. Na Escola Técnica Elementar de Lourenço Marques o pavilhão destinado à função administrativa complexifica-se, quando comparada com as restantes escolas Mesquitanas, ao ser inserida num pavilhão que adquire as mesmas características de dimensionamento e distribuição dos pavilhões destinados à função educativa, e numa posição previlegiada que encabeça as duas galerias de circulação, ao invés do pavilhão de dimensões reduzidas, commumente projectado numa posição periférica. Para além das funções administrativas, este núcleo apresenta nesta escola também a existência de uma biblioteca e de um museu, de necessária integração directa com a comunidade estudantil, e por isso numa posição de charneira entre interior e exterior da escola e marcando a sua entrada.

O sector escolar divide-se entre pavilhões destinados ao ensino em classe, para disciplinas que não exigem disposições ou equipamentos especiais, de três pisos, e pavilhões de um só piso, de dimensões mais generosas, destinados ao ensino experimental. Com a volatilidade que marcava o ensino e o programa a que cada escola se destinava, estas salas foram assumidamente projectadas com vista a satisfazerem toda a possível variedade de utilizações e frequências que o futuro delas pudesse exigir.

O sector desportivo é constituído pelo ginásio que, mais uma vez, se distingue nesta escola pela galeria de acesso que adquire a função de varanda para o público assistir aos espectáculos de ginástica ao ar livre, que em continuidade com as salas de ginástica, possam decorrer sobre o relvado. De resto, a educação física assume um papel muito significativo, visível na percentagem de espaços exteriores destinados à sua prática que, de um modo autónomo dos restantes espaços lectivos, se distribuem pelo espaço disponível.

Relativamente à concepção arquitectónica em função das características climáticas, importa referir que os principais desafios que são colocados à criação arquitectónica, perante o clima em Moçambique – caracterizado por apresentar altas temperaturas, em média acima dos 22º C na estação quente, conjugadas com chuvas torrenciais que transmitem ao ar um elevado teor de humidade –, são a promoção da protecção da radiação solar e da chuva e a potencialização ao máximo da movimentação do ar como combate aos malefícios da humidade.

O maior desempenho da protecção solar exige uma implantação longitudinal, em que as fachadas de maior desenvolvimento estejam orientadas no sentido Este-Oeste, de modo a proteger do Sol as suas duas maiores paredes. O rigor dessa orientação é verificável na maioria das escolas de Fernando Mesquita, sendo que em caso de excepção se orientam mais para o sentido Este, como é o caso da Escola Técnica Elementar de Lourenço Marques, uma vez que o Sol da manhã é menos nocivo. Complementarmente à implantação, os vãos das fachadas Norte – onde os raios incidem a maior parte do dia e verticalmente – assumem proporções reduzidas e encontram-se devidamente protegidos por dispositivos de sombreamento horizontal; as referidas galerias de circulação coberta e as próprias coberturas, localizadas a Norte, desempenham eficientemente essa função.

Nas fachadas Sul – onde os raios incidem horizontalmente e apenas no início e no fim de alguns dias do ano – os vãos adquirem maiores dimensões e estão protegidos por dispositivos de sombreamento verticais, em continuidade com a estrutura.

O incremento da ventilação natural exige que os vãos das construções sejam orientados perpendicularmente (ou até 45º) à direcção de onde vêm os ventos, o que se verifica na perfeição no caso da Escola Técnica Elementar de Lourenço Marques, uma vez que, em Maputo, os ventos frescos vêm predominantemente do Sul na estação quente, onde se encontram os vãos de maior dimensão, aumentando a velocidade de saída do ar. Esta é também a condição ideal para a protecção das chuvas, uma vez que os vãos de maior dimensão se encontram na fachada oposta à da galeria de circulação coberta, garantindo a circulação protegida dos utilizadores em dias de chuva.

Tanto a ventilação como a iluminação natural são ainda beneficiadas com o recuso às janelas beta, um tipo de caixilharia constituído por um sistema de persianas de vidro orientáveis. Permitindo simultaneamente a orientação da luz natural e da direcção do ar para o nível dos utilizadores e do plano de trabalho, garante a ventilação natural permanente da sala de aula, mesmo sob a acção das chuvas. A amenização das temperaturas e o controle da direcção dos ventos do exterior para o interior dos espaços é também devidamente influenciada pela presença exuberante de vegetação diversa na envolvente dos edifícios.

A concepção estrutural baseia-se naturalmente numa ossatura em betão armado, com todo o seu significado técnico e económico – com base num sistema cartesiano de pilar-viga, completado por lajes aligeiradas ou maciças formadas por elementos pré-fabricados. As galerias de circulação secundárias, formadas pela continuação dos pisos das salas de aula e suportadas por pórticos na continuação das paredes que marcam a separação entre aulas, tornam clara a leitura do sistema estrutural dos pavilhões de ensino em classe das escolas secundárias. O mesmo se verifica nas fachadas opostas, em que lajes e vigas se mostram para incorporarem os dispositivos de sombreamento, numa integração exemplar. A estrutura à vista permite em todos os casos uma leitura escrupulosa da ossatura das construções.

Em termos de construção é notória a fusão que o arquitecto faz entre uma resolução funcional e material moderna, cujos materiais e técnicas não lhe são renegadas, assente no uso do betão armado e no recurso à pré-fabricação, e a utilização de materiais e técnicas locais conjugadas até com preocupações de reutilização. Em ambos os casos as opções tomadas representam uma resposta exemplar às condições a que a estrutura e os materiais estão sujeitos: elevados valores e variações de temperatura, humidade e precipitação, conjugadas com as preocupações de conforto acústico e comportamento mecânico a que os materiais estão sujeitos no contexto de um edifício escolar.

Com um desenho rigoroso e essencial, representativo do condicionado a uma construção de baixo custo, que se pretendia rápida, durável e adaptável a futuras exigências, a relação entre o Moderno e o clima patente neste singular legado arquitectónico não está apenas presente nas opções de desenho feito com o clima e com o lugar, mas também na hierarquia das intenções que o arquitecto assumiu em termos construtivos, formais e programáticos.

 

Zara Ferreira

(Referência FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

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