Catedral de Nossa Senhora da Vitória, Antiga Igreja de Nossa Senhora da Luz

Catedral de Nossa Senhora da Vitória, Antiga Igreja de Nossa Senhora da Luz

São Luís, Maranhão, Brasil

Arquitetura religiosa

A antiga igreja jesuíta de Nossa Senhora da Luz, na casa do mesmo nome, foi - como em tantos outros casos - transformada em Sé Catedral após a expulsão dos jesuítas do Maranhão e sequestro de seus bens (1761). A Igreja da Luz, a melhor do estado, fechava a quadra do colégio pelo lado sul e abria a fachada ao mar, ou antes, às traseiras da Sé antiga, que dominava do alto. Era a segunda igreja que os jesuítas erguiam no local, a definitiva, substituindo a capelinha feita em 1627. Em 1687, obtinham da câmara licença para "fazer a nova igreja", obtendo quatro palmos de terreno para construção de uma torre e 23 braças e seis palmos para alargar a nave, ocupando parte da rua, o que mostra como a anterior era pequena em contraste com o colégio, que tinha já uma livraria de mais de 3.000 volumes. A obra teve a primeira pedra lançada em 1690 (na sacristia, um relevo ostenta a inscrição IHS e a data de 1697) pelo engenheiro‐mor Pedro Carneiro de Azevedo, e foi inaugurada a 30 de julho de 1699. Era um vasto edifício de aspecto majestoso, traçado pelo artista luxemburguês padre João Filipe Bettendorf, S. J. - chegado em 1688 de Lisboa - o qual a concebeu, segundo as suas próprias palavras, "segundo as prescrições de Vitrúvio, mestre dos Arquitetos, e à imitação de Nossa Senhora do Loreto, de Lisboa". Além da referência erudita a Vitrúvio, que deve ter lido, é extremamente curioso que afirme ter tomado por modelo a Igreja do Loreto, ao Chiado. Esta - a igreja da colónia italiana lisboeta - era, naqueles precisos anos 80, a coqueluche da cidade. Reconstruída em 1651‐1676 por Marcos de Magalhães, teve o seu interior totalmente renovado em novo estilo pela fortuna do mercador genovês Ghersi: revestimento em placas de mármore colorido de Génova, esculturas de Filippo Parodi (1680), estátuas em mármore de Carrara, teto em painéis com passos do Antigo Testamento (Della Ponte, 1684) e outros em que se introduz a pintura em perspectiva (Bacchereli, 1700), as primeiras colunas salomónicas do país, em pedra verde (1671) - enfim, o barroco romano‐genovês. É claro que não podemos esperar ver em São Luís estátuas de Carrara por Parodi, o maior escultor genovês do seu tempo; mas é a inspiração geral que interessa. A Igreja da Luz era um templo barroco, de proporções idênticas às do Loreto lisboeta na sua nave única com quatro capelas laterais pouco fundas e vasta capela-mor, varanda com janelas deitando para o interior segundo o "modo nostro" jesuítico, cobertura em abóbada de berço pintada (em cenas da Vida da Virgem, certamente refeitas a branco no século XX) e um magnífico retábulo‐mor em talha dourada - a sua obra‐prima - felizmente intacto até hoje. Ocupa toda a parede do fundo com duas ordens de colunas torsas revestidas de folhagem, definindo quatro painéis de belíssimas imagens de santos jesuítas (hoje no Museu de Arte Sacra) e um alto ático com cinco quartelões simples, sendo o fundo recoberto na totalidade por enrolamentos vegetais também folheados a ouro: um típico retábulo em "estilo nacional", mas que tem o mérito de ser o primeiro integral no Brasil. Apenas o sacrário foi substituído no século XVIII por outro joanino em talha dourada e madeira polida, de insólita reminiscência com os sacrários de Goa. Por rara felicidade, conhecemos o retabulista: o entalhador do reino Manuel Manços, que já o teria pronto em 1693, segundo debuxo do padre Bettendorf. Foi também o autor dos retábulos laterais, perdidos. O que mostra que os jesuítas não se pouparam a despesas na ornamentação da sua igreja: contando entre si diversos entalhadores de boa qualidade, preferiram chamar um do reino. A igreja era alta e estreita (o que Bettendorf defende com as "prescrições de Vitrúvio" e a largura à imitação da abóbada do Loreto...), pintada com os Mistérios da Virgem, rebocada e branqueada pelo irmão Marcos Vieira. A fachada, ao modo jesuítico, era simples e desadornada: de proporção 2:3, tinha três ordens de pilastras quase lisas e sem capitéis, com uma alta janela em cada espaço, frontão curvilíneo interrompido com um óculo ao centro e cúspide semicircular sobrepujada por uma cruz. Igual estrutura repete‐se na única torre, à esquerda, recuada, de cúpula ovóide e um balaústre por ângulo. A transferência da Sé de Nossa Senhora da Vitória (a diocese fora criada em 1677 - no mesmo ano que a do Rio de Janeiro - e o edifício demolido em 1763) a 11 de junho de 1761, e na prática a 17 de janeiro de 1762, não parece ter trazido grandes alterações. Houve remodelações, cujas datas se ignoram, mas a estrutura permaneceu a mesma. Somente em 1922, dentro da vaga de "modernismos" que varreu a cidade, a fachada foi muito alterada: construiu‐se outra torre, pilastras colossais com grandes capitéis compósitos, janelas de verga curva e arquitrave, e frontão triangular encimado por uma estátua de Nossa Senhora da Vitória, o que lhe deu uma aparência mais catedralícia e neo‐barroca. É a que possui hoje. Com a mudança da Sé, recebeu as alfaias e ornamentos desta: um crucifixo indo‐português, dádiva decerto do primeiro bispo, D. Gregório dos Anjos, bispo de Malaca que veio diretamente para São Luís em 1679; dois vasos dos santos óleos em prata maciça, cada um pesando mais de treze quilos, inteiramente lisos à exceção de uma cruz de Cristo em alto relevo no bojo e a data de 1683, oferta do rei significativa por só os possuírem maiores as sés de Lisboa e Porto; uma Virgem em marfim feita em Goa, presente de Bettendorf, que a recebera em 1688 em Lisboa. Na sacristia, o túmulo de D. Gregório em xisto polido. Muito deve ter "perdido" ao longo dos tempos a Catedral do Maranhão.

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