Igreja de Santana

Igreja de Santana

Talaulim, Goa, Índia

Arquitetura religiosa

A Igreja de Santana de Talaulim é um dos mais importantes monumentos de Goa, da Índia e do mundo onde se fala ou falou português. Começou como uma fundação jesuíta de 1577 - a igreja de uma quinta de recreio dos pensionistas do Colégio de São Paulo de Velha Goa - mas foi reconstruída completamente entre 1682 e 1689, sob a direção do padre Francisco do Rego (1638‐1689), natural de Goa, sendo talvez a primeira igreja da história da arquitetura a poder ser descrita como goesa. O facto de servir um sítio de recreação de noviços explica as dimensões pouco habituais, a vantagem paisagística que os construtores tentaram extrair do isolamento, situando o edifício, de fachada virada a nascente, sobre uma vasta extensão de várzea e águas fluviais. Até há cerca de meio século existiam ainda a sul da igreja os vestígios de uma povoação de dimensões consideráveis, com bastantes casas nobres, onde hoje se vê apenas uma pequena aldeia. Passava ali a estrada real vinda de Velha Goa para Agaçaim, ou seja, para a passagem conduzindo a Salcete. Arquiteturalmente, Santana constitui um momento‐chave na evolução da arquitetura sacra católica em Goa desde finais do século XVI e uma síntese nova e original: encontramos no edifício os nichos semicirculares da arquitetura jesuíta, o tipo de fachada principal com torres da igreja dos agostinhos de Velha Goa, e o novo sistema de abóbadas introduzido em Velha Goa na década de 1650 por jesuítas, teatinos e franciscanos, um tipo completamente novo de composição parietal e de concepção de molduras e ornatos. A igreja tem uma nave única de cinco tramos interrompida por transepto. A capela‐mor tem três tramos. Está coberta por abóbadas de canhão com penetrações laterais entre arcos, do tipo da igreja jesuíta de Margão, decoradas com caixotões de estuque. O cruzeiro apresenta uma abóbada de arestas e o santuário uma abóbada de canhão com penetrações, mas sem arcos divisórios. As paredes da nave estão divididas em três níveis: em baixo, correm nichos semicirculares concheados (que também existem na capela‐mor). Sobre estes nichos passa uma galeria que volta janelas de sacada ao interior, um tema tradicional jesuíta que a Companhia talvez tenha utilizado em igrejas goesas que desapareceram entretanto (vemos o tema em Diu, mas não existe em qualquer das que subsistem anteriores a Santana) e que o arquiteto também pode ter visto nas igrejas dos teatinos e dos franciscanos em Velha Goa. Sobre esse trifório passa uma segunda galeria, esta inédita em Goa, que liga as janelas por entre as penetrações das abóbadas. As paredes de Santana estão portanto escavadas por duas galerias sobrepostas com vistas para o interior e o exterior, autênticos miradouros sobre a várzea de arroz, os coqueirais e as colinas dos arredores. A capela‐mor e os nichos, abóbadas e alçados, incluindo o exterior principal, são articulados e ornamentados por temas arquitetónicos e decorativos, nunca usados até então de uma maneira tão sistemática. A ordem de pilastras interior apresenta um ritmo nervoso articulando os nichos, estes muito mais estreitos do que aqueles que vemos em Margão ou Diu e com molduras muito mais expressivas. As superfícies estão completamente preenchidas por pilastras com fuste duplo, encimadas por capitéis largos e floridos. Na ordem intermédia entre os nichos e a galeria de topo, o arquiteto como que comprimiu a ordem inferior: volta a apresentar um sistema de pilastras jónicas‐compósitas de duplo fuste a separar aberturas, mas agora com proporções alheias à tradição arquitetural europeia. As aberturas são em forma de tabernáculo, com pares de colunas pseudo‐salomónicas que enquadram arcos cobertos de frontões - uma espécie de citação livre de fragmentos arquitetónicos. A fachada principal da igreja refere diretamente o prestigiado modelo de Nossa Senhora da Graça dos agostinhos, mas torna muito mais complexa a sua articulação ornamental: as pilastras aparecem duplicadas e comprimidas, os fustes ganham caneluras, as superfícies são dotadas de ornatos do tipo da chacra como em Bom Jesus, mas multiplicados, os motivos de coroamento sobrepõem‐se uns sobre os outros. A evidente estranheza destes temas tem levado muito observadores a concluir que não se trata de uma igreja europeia. Francisco do Rego estudou teologia em Portugal - não sabemos exatamente onde - e regressou a Goa cerca de 1675 para se tornar pároco de São Brás, Ilhas. Em 1682 foi encarregado da igreja de Santana em circunstâncias não clarificadas, porque Santana pertencia aos jesuítas e só se tornou uma paróquia autónoma em 1695. Rego era brâmane e um letrado ativo. Escreveu o Tratado Apologético contra varias Calumnias impostas pela malevolência contra a sua nação Bracmana, que ficou manuscrito. De acordo com Barbosa Machado, era também um poeta de mérito em português e latim. Tendo vivido em Lisboa na década de 1670 e pertencido, como evidentemente pertenceu, a academias literárias da capital do reino, familiarizou‐se com o ambiente artístico e cultural designado de transição para o barroco. Terá conhecido as novas tendências de desenho da talha dourada com colunas torsas, largos capitéis, caprichosas mísulas e volutas, azulejos com motivos vegetais nas cercaduras, mármores esculpidos e embutidos. Mas não foi isto exatamente que fez em Santana de Talaulim, porque estava noutro sítio, perante outra cultura, outros materiais, outro clima, outros artífices, e ele próprio desejava certamente outra coisa. No entanto, o que fez não pode ser entendido sem ter isso presente. Tão pouco Santana pode ser compreendida sem se atender ao facto de que Francisco do Rego era natural de Goa, defensor articulado dos méritos da sua casta numa época em que o clero goês das castas brâmane e chardó começava pouco a pouco a tomar conta do seu próprio destino cultural. A Igreja de Santana de Talaulim resulta provavelmente da necessidade de afirmação do clero de origem goesa e dos seus paroquianos, ou seja, de uma cultura católica goesa.

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