Escola Primária e pré-primária do 1º grau - Nyoxani – Educação, Arte e Recreação (antes Jardim Infantil Piramidal)

Escola Primária e pré-primária do 1º grau - Nyoxani – Educação, Arte e Recreação (antes Jardim Infantil Piramidal)

Maputo [Lourenço Marques], Maputo, Moçambique

Equipamentos e infraestruturas

O Jardim Infantil Piramidal foi projectado para uma população de 180 crianças. Actualmente integra a Escola Primária e pré-primária do 1º grau Nyoxani - Educação, Arte e Recreação. Localiza-se no bairro de Sommershield, num terreno amplo limitado pela Rua João de Barros a Nordeste, pela Rua Geração 8 de Março a Sudoeste, e pela Rua Isaac Zitha a Sudeste.

O bairro de Sommershield é, juntamente com o bairro da Polana e a Baixa, a área de Maputo onde se sente com mais evidência a presença do legado arquitectónico de Amâncio d’Alpoim Miranda Guedes (1925-2015). Designado pelo próprio como o "subúrbio rico de Lourenço Marques", constituído por lotes generosos de habitações para classes altas locais e estrangeiras. Apesar de ser um bairro maioritariamente habitacional, a zona onde o projecto se insere é marcada por um conjunto significativo de equipamentos escolares e religiosos, nomeadamente Lar para padres, Lar para freiras, Colégio Kitabu, Escolinha Santo António, Escola Secundária da Polana (1970) de José Forjaz (1936-) e João José Tinoco (1924-1983), a Escola Primária A Luta Continua e, ainda mais a Sul, a homónima Igreja da Polana (1959), de Nuno Craveiro Lopes (1921-1972).

Projectado em 1958, e inaugurado em 1961,o Infantário Piramidal é o primeiro projecto inserido no designado estilo "Américo-Egípcio", uma das famílias inseridas em "Vitruvius Mozambicanus: as Vinte e Cinco Arquitecturas do Excelente, Bizarro e Extraordinário Amâncio Guedes" (1985). Inicialmente fundamentada no manifesto The American Egyptian Style, em 1965, esta família integra, para além do Piramidal, os projectos da Yeshouse (1960), da Estacão de Serviço (1960) e da Casa Desirello/Moslein (1965).

A admiração pela obra de Louis Kahn é imediatamente visível na analogia patente entre o Infantário e os Banhos de Trenton (1959). Já a referência ao Egipto estabelece a continuidade da ancestralidade das formas puras das pirâmides com a modernidade, exaltadas na obra de Kahn e repercutidas no tom jocoso de Pancho Guedes: "Hoje em dia não podemos ter pirâmides, por isso fazemo-las no telhado - não somos tão sortudos como os egípcios".

Com uma escala cúmplice com a dos utilizadores, o infantário relaciona-se com a envolvente, o lote e a rua integrada e diversificada. Ocupando os limites da totalidade do lote onde se insere, o projecto desenvolve-se de forma longitudinal por todo o espaço disponível, confinando com as três ruas que o cercam, ainda que de forma discreta. Formando um recinto encerrado pelos muros e pela vegetação que o envolvem, o edifício deixa-se ver nas intermitências da pontualidade das árvores e nas situações que, de forma marcada, convidam as pessoas a entrar.

Esses momentos são coincidentes com as duas entradas no jardim infantil que, estrategicamente colocadas em cada topo do lote rectangular seguem o sentido de hierarquia presente em todo o projecto. Assim, a entrada principal é definida pelo espaço de articulação entre os dois principais volumes do edifício: a antiga capela, hoje ginásio, encabeçada pela secção piramidal kahniana mais marcante de todo o projecto, e o corpo longitudinal de dois pisos que lhe é transversal, por onde se distribui todo o restante programa. Para além de espaço de chegada, e assim também espaço de articulação e como tal de passagem; no entanto, coberto e exterior, é também de estadia; tratando-se de um infantário a estadia rapidamente se converte em recreio e de imediato nos apercebemos de que este é o único momento do projecto em que espaço servido e espaço servidor se unem no mesmo lugar. Já a entrada secundária não deixa lugar a indefinições: marcada por um telhado piramidal assente em quatro "perninhas finas", localiza-se no enfiamento da galeria de circulação interior de todo o edifício.

No piso térreo, o programa funcional distribui-se criteriosamente ao longo da galeria, virada a Noroeste, garantindo o acesso imediato às salas de aula, interrompidas apenas por conjuntos de instalações sanitárias. No piso superior os espaços servidos passam a ser contornados por duas galerias a todo o comprimento, dando origem à saliência volumétrica visível na fachada Sudeste.

No exterior, é notável a dialéctica que se forma entre o espaço do recreio privado e do colectivo: ao recreio privado que funciona como extensão da sala de aula sucede outro espaço que faz a ligação com o recreio aberto e público. Esta sucessão de espaços, da sala de aula, passando pelos pequenos recreios, até ao grande recinto público, é realizada por meio de uma hierarquização de espaços exteriores que, definidos por muretes, criam uma diversidade espacial crescente. Por outras palavras, os espaços exteriores são qualificados a partir de uma hierarquia e adjectivação de que resulta uma estimulante perspectiva visual do eixo da entrada principal.

A fronteira definida pelo conjunto desses espaços e ainda marcada pela presença de três corpos que se destacam pela sua volumetria. Com uma implantação de 4.00 ×4.00 m, afirmam-se como prismas quadrangulares encabeçados pelos já referidos telhados piramidais. Tratando-se de espaços destinados a arrumos, definem o espaço exterior, estimulando as crianças na observação das formas mais elementares de um modo lúdico e pedagógico.

Pelo exterior, o edifício surge como um volume cerrado por filtros ou por muros de intensidade tectónica. Pelo interior os espaços são moldados por luz, intencionalmente dirigida, quer se trate do longo corredor de distribuição das salas de aula, percorrido por uma grelha recortada nas secções das pequenas pirâmides que filtram uma luz coada, quer se trate do foco de luz dirigido e concentrado que, ao longo do dia, se movimenta com o Sol pelo espaço da antiga capela.

Passados 50 anos sobre a sua construção, o Jardim Infantil Piramidal apresenta diversas transformações relativas ao uso dos espaços, construção de novos edifícios, demolição de pátios, compartimentação de espaços de circulação, e introdução de diversos sistemas de segurança contra intrusão, apesar disso, mantêm-se as principais características do projecto original.

Original de Ana Tostões e Zara Ferreira

(FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

Adaptação de Ana Tostões e Daniela Arnaut.

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