Edifício Tonelli

Edifício Tonelli

Maputo [Lourenço Marques], Maputo, Moçambique

Habitação

O eclectismo é um factor marcante na vasta obra de Amâncio d’Alpoim Miranda Guedes (1925-2015), que afirma ter trabalhado vários estilos em simultâneo. Conjunto revelador das influências directas do Movimento Moderno, o edifício Tonelli insere-se no décimo quinto livro "Caixas Habitáveis e Prateleiras para Muita Gente" inserido em Vitruvius Mozambicanus: as Vinte e Cinco Arquitecturas do Excelente, Bizarro e Extraordinário Amâncio Guedes (1985). Segundo o autor "estas caixas e prateleiras têm como inspiração as primeiras obras do Movimento Moderno que são como enormes máquinas cúbicas, machines à habiter, mas são na sua maior parte pintadas de branco. Nalgumas identifiquei cada apartamento, expressando-o como uma unidade nas fachadas celulares. Em todos, os acessos e circulações são esquemáticos e directos."

O edifício responde à encomenda privada do engenheiro Franco Tonelli, de nacionalidade italiana, para um terreno no Maxaquene em Maputo, situado junto ao Jardim Botânico Tunduru, o único jardim público de grandes dimensões existente no centro da capital, e no cruzamento entre duas avenidas estruturantes da cidade de Maputo, a Avenida Vladimir Lenine, já presente no Plano Araújo (1887), e a Avenida Patrice Lumumba, no topo do aterro do Maxaquene que desenha o limite curvilíneo da barreira topográfica.

O programa previa a construção de um edifício misto de habitação colectiva e comércio.

Do edifício, que se ergue com grande presença urbana num ponto alto da cidade, destacam-se dois momentos, o do embasamento de três pisos destinado a comércio, armazéns e garagens e o do bloco de nove pisos destinado a habitação colectiva. Esta dinâmica é acentuada pelo mural esgrafitado que ocupa a faixa lateral da empena do terceiro piso e pela própria volumetria, uma vez que o pano de fachada do bloco balança ligeiramente sobre o do embasamento. Fortemente marcado pela horizontalidade implantado segundo um eixo noroeste-sudeste assume-se como um longo bloco, as circulações assumem um papel determinante na composição volumétrica do edifício. Existe um jogo entre o carácter horizontal das galerias de distribuição, os seus rasgos a diferentes alturas e a verticalidade do volume saliente a sul e recuado a norte, da caixa de escadas e elevadores, e que secciona o edifício em dois corpos simétricos. É através deste recuo, e da enorme lâmina que secciona o embasamento do edifício, que Pancho Guedes desenha a entrada principal do edifício, com acesso pela Avenida Patrice Lumumba. Desta avenida não é perceptível o piso inferior. Pancho Guedes tira partido do desnível para criar um pátio interior e inserir o piso de armazéns e garagens. Reforça, deste modo, o contraste entre o peso e verticalidade dos dois corpos simétricos em oposição à horizontalidade do embasamento. Os outros dois pisos estão afectos às lojas e sobre-lojas, as primeiras com duplo pé-direito.

As fachadas respondem a uma estética moderna e, deixam transparecer o conceito de prateleira, com as suas lajes salientes e os panos de parede que nelas assentam a um ritmo constante, obedecendo a uma estrutura modular, com 5.30 m de eixo a eixo. Dentro destes eixos inserem-se as "caixas habitáveis". Estas têm 5.20m de largura por 10.30 m de comprimento, com uma proporção aproximadamente de 1:2. Podemos encontrar um paralelo nestas relações com a Unité d´Habitation de Marseille, de Le Corbusier, em que cada unidade era descrita como uma garrafa que poderia ser construída isoladamente e inserida no seu contentor. Também em algumas células da Unité a proporção é de 1:2, sendo que a construção destas é baseada no quadrado duplo do Modulor. Num constante jogo de cheio-vazio/ positivo-negativo a laje saliente dos blocos de apartamentos liga-se aos vãos do volume da caixa de escadas.

Actualmente o edifício tem 56 apartamentos, 40 T1’s (bachelor - para solteiros e jovens casais) 26 com 52.00 m2, e 16 apartamentos T4 (duplex) com 104.00 m2.

A organização funcional do apartamento T1 é muito simples, com um hall de entrada para a galeria, uma cozinha, copa, casa de banho, quarto-sala e varanda. O piso inferior dos apartamentos T4 (duplex) tem uma sala comum, varanda, copa, cozinha, arrumo, despensa, zona de lavagem, varanda de acesso e estendal e no piso superior, um hall com entrada em meio piso, dois quartos, um compartimento destinado à costura, casa de banho e varanda.

Os espaços mais vividos como os quartos e salas, orientados a Nordeste, são bem iluminados e recebem a brisa de direcção predominante Nordeste e Este. As zonas de serviço, orientadas a Sudoeste, têm menor exposição solar e é através de vãos de dimensões mais reduzidas e janelas beta que regulam a iluminação e a brisa que recebem de Sudeste. Nos apartamentos T4 encontra-se uma excepção no piso superior, em que um dos quartos tem também esta orientação. De modo a captar mais luz, o vão deste espaço é de dimensões superiores aos das cozinhas. As casas-de-banho são interiores e têm ventilação forcada.

Pancho Guedes privilegia a correta orientação solar em relação à vista norte sobre o mar. Apenas os acessos horizontais protagonizados pelas longas galerias abertas gozam desta vista desafogada.

Um dos aspectos importantes na definição da imagem deste edifício é a variação de pé-direito. Na fachada posterior observamos galerias diferenciadas que correspondem à hierarquização social e tipológica: com 3.00 m (galerias de acesso aos apartamentos T1); os apartamentos T4 são servidos por duas galerias diferentes: de serviço com 2.10 m; nobre com 4.00 m permitindo criar um hall de entrada com duplo pé-direito que distribui para o piso inferior, área comum e superior dos quartos. Para os apartamentos T4 existe uma total separação da circulação entre europeus e "indígenas" e o acesso é feito através de um patamar intermédio. Esta diferença é absorvida no interior do duplex e as alturas da fachada nordeste, composta por varandas, são constantes.

Os espaços são separados por paredes com bandeiras transparentes junto ao tecto que permitem que a luz atravesse toda a área. A cozinha é iluminada através de dois rasgos horizontais, um junto ao tecto e outro entre o armário e a bancada. A ventilação é feita por quatro janelas basculantes além da ventilação forçada da chaminé do fogão. A sala interior e iluminada pelos rasgos superiores nas paredes divisórias da cozinha, casa de banho e corredor. Apesar de ser possível fazer ventilação cruzada, foi prevista ventilação mecânica para a sala e para a casa de banho, cabendo ressaltar a qualidade dos materiais e desenho de pormenor.

É de salientar que dez anos mais tarde, o mesmo arquitecto altera a organização espacial dentro da mesma tipologia. No projecto inicial, a planta desenvolve-se em cruz e, em 1968, em sequência. O desenho dos vãos da entrada e das varandas na fachada principal vão sofrer também alterações ao nível da forma e da materialidade, continuando este piso a ser excepção na simetria do conjunto. No entanto, algumas alterações já efectuadas pelos moradores quebram esta percepção, nomeadamente, através da construção de marquises nalguns dos apartamentos.

Fortemente ligado a diversas formas de expressão artística, Pancho Guedes fala diversas vezes dos seus murais como a possibilidade de expressão, projecção e integração do seu universo gráfico. No caso do edifício Tonelli, os padrões geométricos, gravados e pintados no reboco, podem ser comparados aos desenhos da tribo Mapogga, ou a alguns motivos das portas dos "caniços" fotografados pelo arquitecto. Analisando a obra de Pancho Guedes, o mural da fachada do Leão que Ri (1958) será o que mais directamente se relaciona com os murais desenhados para o Tonelli. Infelizmente, o impacto dos murais foi posto em causa pelas alterações sofridas ao longo dos anos.

A importância desta obra reside na sua interpretação da arquitectura do Movimento Moderno. Seguindo uma objectiva racionalidade e funcionalidade, que decorrem da filiação a vários aspectos do léxico do Movimento Moderno, o edifício Tonelli revela subtilezas várias que rejeitam o formalismo canónico do Estilo Internacional.

Em todos as fachadas podem ser encontradas pistas para distinguir as diferentes funções que se escondem por trás dos panos de fachada. A modulação dos vãos na fachada frontal, as diferenças de pé-direito nas galerias da fachada sudoeste e a composição plástica da fachada lateral com os vãos salientes de diferentes dimensões capturando vistas do Jardim Botânico Tunduru, que revelam subtilmente a diferença de tipologias e hierarquias presentes no edifício.

O volume saliente das escadas e dos depósitos de água constitui mais um gesto de intensidade plástica que interrompe a aparente racionalidade das formas.

Estas pequenas variações que quebram a monotonia, não pondo em causa a coerência e homogeneidade do conjunto, concorrem para a força desta obra.

Original de Ana Tostões e Ana Braga

(FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

Adaptação de Ana Tostões e Daniela Arnaut.

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