A casa senhorial brâmane e chardó

A casa senhorial brâmane e chardó

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Habitação

No domínio da arquitetura civil de raiz erudita, todo o território de Goa é pontuado, até às mais pequenas aldeias do interior, por luxuriantes casas de campo exibindo belas varandas e rodeadas de exuberantes palmeiras e campos verdejantes.

Construídas, na sua grande maioria, num período tardio, entre a segunda metade do século XVIII e o século XIX, estas casas correspondem, porém, a um modelo de casa promovido pelas famílias brâmanes e chardós. A quase generalidade dos grandes palácios construídos pela nobreza portuguesa desapareceu com o declínio económico português no Oriente, sendo hoje o Palácio dos Arcebispos um caso isolado no panorama do património da arquitetura civil goesa. Cabe salientar que, se este período corresponde a uma época de declínio económico português, afirma-se, em oposição, como uma época de hegemonia e consolidação, tanto económica como social, das classes privilegiadas goesas.

Na sua evolução, este modelo de casa brâmane-chardó goesa vai-se conformando por um lento cruzamento entre estruturas espaciais da tradição hindu e valores da cultura arquitetónica portuguesa. O modelo de casa nobre de dois andares promovido pelas grandes famílias da nobreza portuguesa ao longo dos séculos XVI e XVII é progressivamente abandonado em favor de edifícios com apenas um piso estruturados à volta dum pátio, evidenciando um retorno aos antigos cânones da tradição hindu. É adotado o esquema de composição de fachada principal que tende a desenvolver-se longitudinalmente (e a sequência de salas a ela ligadas), marcada por vastas varandas que, percorrendo-a, se tornam o seu elemento preponderante. Numa progressiva adaptação ao clima e a uma cultura de maior participação da casa na vida social, estas largas varandas afirmam-se como zona de estar, funcionando ainda como proteção solar e de circulação de ar fresco.

Como elemento privilegiado de representação, é na fachada principal que se concentra todo o esforço decorativo e a tradição indiana de fabricação de estuques rijos dá lugar às mais variadas formas. A gramática decorativa do tardo-barroco vai perdurar, nela se introduzindo, pouco a pouco, variações formais de claro exotismo indiano.

À estrutura de salões articulados com a varanda, interliga-se um núcleo de espaços, de clara tradição hindu, que, voltados para dentro e polarizados à volta do pátio, organizam a zona doméstica e mais íntima da casa.

Este pátio, que nos séculos XVII e XVIII aparece muitas vezes como um espaço semiaberto nas traseiras da casa, tende a fechar-se ao longo do século XIX, assumindo-se como elemento central e gerador da estrutura dos interiores. Se raramente chega a tomar a forma inicial do rag angan da casa tradicional hindu, em certos casos, como na casa dos Miranda de Revorá ou dos Loyola, aproxima-se muito da sua forma tradicional com colunas. Uma das características deste espaço na cultura indiana era a formação de uma galeria circundante: o chouki. Na casa dos Miranda de Revorá, esta colunata encontra-se nitidamente presente, afastando-se ligeiramente do modelo tradicional hindu apenas pela introdução de um murete em forma de banco que une as bases das colunas.

Em qualquer caso, o pátio mantém-se sempre como elemento polarizador do interior doméstico, gerando à sua volta um conjunto de espaços de quartos e serviços de apoio à vida doméstica, que se constituem como uma unidade independente em relação ao corpo da fachada principal, onde os grandes salões debruçados sobre a varanda, na sua função de representação, por sua vez se autonomizam numa segunda unidade arquitetónica. A partir da entrada, um estreito corredor une o alpendre à casa de jantar, antigo vasary da casa hindu, estabelecendo um eixo de ligação entre estes dois corpos. Conformado por uma sala estreita e comprida, o vasary acaba por funcionar como elemento de transição entre a zona dos salões, que se desenvolvem ao longo da fachada principal, e a zona privada da casa, voltada sobre o pátio e as traseiras.

Mas o elemento mais característico do modelo de casa brâmane e chardó é sem dúvida o alpendre de entrada, ou balcão, como é denominado em Goa. De origem portuguesa, o balcão goês vai ganhando significado e importância, acabando por se estender à casa da média e pequena burguesia, tornando-se um elemento peculiar e caracterizador de toda a arquitetura goesa.

Facto historicamente documentado, é sabido que os palácios dos vice-reis e dos arcebispos eram dotados de alpendres com largas escadarias. Já o palácio-fortaleza, por exemplo, conservou, até ao século XIX, um alpendre com grandes colunas. O Palácio dos Arcebispos em Goa, junto à Sé, mantém ainda dois alpendres de acesso ao andar nobre, um com ligação à capela do paço, outro à antecâmara e salão de audiência. Na sua estrutura formal quadrada, coroada por uma cobertura em telhado de quatro águas de forte inclinação, na tradição dos telhados em tesoura, o balcão, salientando-se da morfologia exterior, aparece aqui numa última evocação de clara conotação aristocrática.

Se estes alpendres do século XVI e XVII cumpriam uma função social de enquadramento cenográfico aos aparatosos rituais desenvolvidos pelos portugueses na Índia, o balcão goês vai adquirir particular significado ao associar a estes valores de carácter simbólico uma função de sala, vivida como uma antecâmara de proteção à privacidade interior. Numa sociedade marcada por preocupações de pureza de sangue e com uma certa fobia ao contacto entre castas, o balcão, como espaço semi-exterior, vai estabelecer-se como importante lugar de encontro, permitindo por outro lado preservar a intimidade e pureza do interior da casa.

Introduzido, em termos tipológicos, pelos portugueses, o balcão goês acaba por cumprir um papel significativo numa maior sociabilidade da casa goesa. Como novo elemento não codificado pela tradição hindu, foi capaz de gerar e desenvolver novos contactos entre castas, acabando por tornar-se uma influência humanista inovadora e propiciadora de sociabilização entre diferentes estratos sociais.

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