Fortaleza de São Caetano

Fortaleza de São Caetano

Sofala [São Caetano de, Sofala Nova], Sofala, Moçambique

Arquitetura militar

A tranqueira de madeira, primitiva fortificação mandada fazer por Pêro de Anaia, iniciou-se em 21 de setembro de 1505; foi, juntamente com Quíloa, a primeira edificação militar portuguesa no Índico. Estava pronta em janeiro do ano seguinte. As obras de alvenaria, que o capitão Manuel Fernandes mandou fazer, começaram em agosto de 1506, sendo os materiais - pedra e cal - trazidos de Quíloa, e prolongaram-se até cerca de 1512; consistiram na construção das muralhas e da torre de menagem. Ainda no governo de António Saldanha (1509-1512), fez-se "em derredor da fortaleza uma barbacã, e entre ela e a fortaleza, se fizeram as casas para a gente e se tiraram de dentro dela, porque dentro se fez uma cisterna" (Montez, A Fortaleza...). Segundo Caetano Montez, a concepção que presidiu à construção da torre era em tudo semelhante à da primeira fortificação da Ilha de Moçambique, a Torre de São Gabriel, em 1507: de forma quadrada, com dois sobrados e uma muralha em cerca envolvendo a praça de armas. Na torre da Ilha, porém, nos ângulos das cortinas levantavam-se "outras torres no andar das ameias", enquanto em Sofala existiam apenas "baluartes redondos", ou seja torreões cilíndricos, segundo o modelo habitual das fortificações manuelinas. A essa torre viria a ser acrescentado, em 1750, um elemento de ornamento arquitetónico, composto de duas janelas, que, no entender de Montez, eram "obrinha frustre e pretensiosa, delambidamente - perdoe-se-nos a expressão - encravadas na robustez e severidade da muralha". Frei João dos Santos (1586-1590) deixou-nos uma primeira descrição da fortificação: "É a fortaleza de Sofala quadrada e cercada de muro de vinte e cinco palmos de altura. Tem quatro baluartes redondos nos quatro cantos, guarnecidos de artilharia grossa e miúda. Em uma quadra da banda do mar, tem uma larga e formosa torre de dois sobrados, e ao pé dela uma sala formosíssima, as quais casas são aposentos do capitão da fortaleza. Nos baixos desta sala tem o capitão suas dispensas, e no vão da torre do chão até ao primeiro sobrado, uma mui formosa e boa cisterna de água da chuva, de que bebe ordinariamente a mais gente de Sofala, por ser muito melhor que a dos poços, e não bebem do rio, porque ali é toda sua água muito salgada. Dentro desta fortaleza está a igreja matriz, que é freguesia de toda a gente da terra. Na quadra do muro que vai para a banda da povoação, está uma formosa casa, que serve de feitoria, onde se recolhem todas as fazendas, assim roupas e contas, que vêm de Moçambique, como marfim, que se compra e junta por todas estas terras". A partir do século XVII, a manutenção da fortaleza foi longamente questionada pelo vice-rei da Índia e pelas autoridades locais, que procuravam abandoná-la ou mesmo desmantelá-la. Contra este projeto se levantou a autoridade real, que decidiu mantê-la em bom estado de conservação, chegando em 1635 a propor-se o seu reforço, com a construção de um novo forte na Ilha de Luiz Pereira (trata-se provavelmente de Chiloane, pertença deste morador), com o objetivo de defender a entrada do Porto de Sofala. Historicamente, a sua importância residiu no facto de guardar "a boca de um dos escoadoiros de ouro", como testa da linha Búzi-Revué que levava ao Quiteve, Bandire e Manica, dificultando assim o acesso dos potenciais concorrentes europeus à região mineira. A Fortaleza de Sofala não sofreu modificação alguma na sua estrutura, parecendo no entanto ter-se modificado apreciavelmente nas instalações interiores. Curiosamente, o governador de Sofala, Alfredo Brandão Cró de Castro Ferreri, dava notícia da localização da artilharia na fortaleza, em resultado das obras ali efetuadas: "Dentro da praça acham-se construídas diferentes casernas, e nos terraços destas é onde está assente a artilharia. É devido ao peso desta que os tectos estão todos arruinados e carecem de amiudadas reparações. Até 1750 a artilharia estava colocada nos pavimentos inferiores, sendo as casas cobertas de palha; mas tendo por ocasião da salva dada em sábado de Aleluia pegado fogo a essas coberturas, o Governador Pedro da Costa Soares mandou construir os terraços aproveitando três mil lajes que em 1736 o capitão general de Moçambique, Francisco de Melo e Castro enviara para as obras da praça". Ao longo dos anos foi-se acentuando a ruína da fortaleza. Em 1635 encontrava-se já em mau estado, sem gente e com a artilharia apeada. Em 1650 pensava-se na sua demolição, por se julgar não poder resistir aos ataques dos holandeses. Em 1758 a erosão provocada pelas águas na estrutura era elevada, atingindo a igreja no seu interior. Ao longo de todo o século XVIII, temos informações de que o mar batia nas suas muralhas, "correndo o risco de demolir-se totalmente". Finalmente, em 1826, ruiu um dos tambores e o mar abriu "uma escavação no alicerce da torre" (Apontamentos..., p. 8 e segs.). Nessa altura já não existiam vestígios da capela. Em 1885 o governador Augusto de Castilho recomendava o seu restauro, com a reconstrução parcial do conjunto, nomeadamente dos dois baluartes de noroeste e sudoeste. Seguiu-se o abatimento de parte da muralha (1900), e a ruína parcial da torre de menagem (1903), que haveria de abater totalmente dois anos depois, em março de 1905. Segundo os entendidos, a ação destruidora do mar fez-se sentir com mais intensidade após ter sido arrasada a faixa de mangal vermelho que começava a duzentos metros a leste da fortaleza, que solidificava a duna que a contornava a sul e a oeste. Em 30 de março de 1905, já após a derrocada da torre, o Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar autorizou a entrega da fortaleza à Companhia de Moçambique, com a condição de ser conservada como monumento histórico. Mas a reconstrução da torre no mesmo local era excessivamente dispendiosa e obrigava a construir um paredão de defesa. Propôs-se então a construção de um "padrão de 4 faces", em terreno seguro, tão próximo quanto possível da antiga fortaleza. Em 7 de Dezembro de 1905 apresentava-se ao governador-geral o projeto do monumento, "simples e de estilo severo", com "pedra tirada das ruínas do forte de Sofala e o escudo que figura no projecto é o que encimava a porta do forte". Em volta deste seriam cravadas no chão as velhas peças de ferro, ligadas por uma corrente. Das pedras da antiga fortaleza, que vieram já aparelhadas de Portugal, algumas foram levadas para a Beira, tendo sido usadas na construção da Catedral (na sua capela-mor) e nas obras da muralha de defesa. Outras vieram para a Fortaleza de Lourenço Marques (a partir de 1952), onde atualmente ainda se encontram. O resto foi apressadamente abandonado - canhões, material doméstico e a imagem de São Caetano, o orago da fortaleza - sendo levados pelos turistas para fora da antiga colónia. Dois canhões do século XVI, que tinham pertencido ao sistema de defesa da fortaleza, foram oferecidos pelos Serviços de Marinha ao Museu Municipal da Beira em abril de 1966. Em fotografias do início do século XX, é possível ver as ruínas, com a torre, e, no corpo ao lado desta, uma janela mainelada com dois arcos redondos, de feição manuelina. O famoso álbum de Santos Rufino (1929), ainda apresentava imagens da fortaleza. Atualmente, os vestígios das fundações da antiga construção aparecem apenas na maré baixa.

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