Arquitetura Militar

Arquitetura Militar

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Arquitetura militar

O território de Goa, a exemplo do da Província do Norte e de parte da Ilha de Sri Lanka, constitui uma das três regiões do Império Português do Oriente onde se estabeleceu um sistema defensivo abrangente, vocacionado para a ocupação efetiva de regiões com dimensão e continuidade territorial. Pode-se dividir a sua história em quatro fases, atendendo não apenas às características arquitetônicas intrínsecas das suas fortificações, mas também ao modo como estas estruturas foram concebidas, ou apenas adaptadas, em função das transformações do território goês e das diferentes estratégias defensivas que procuraram fazer frente à sucessão de ameaças e conflitos ocorridas naquele espaço. 1510-1595 A conquista da cidade de Goa, iniciada pelas forças de Afonso de Albuquerque em fevereiro de 1510, só viria a tornar-se efetiva para a totalidade da Ilha de Tiswadi dois anos mais tarde, quando, após uma sucessão de campanhas militares, os portugueses se apossaram da fortaleza de Benasterim, aí edificando uma fortaleza que integrou a estrutura defensiva muçulmana preexistente. Por essa altura o sistema defensivo do território sob domínio português consistia basicamente em duas zonas fortificadas: por um lado, o perímetro amuralhado da cidade e a fortaleza local, que foram reconstruídos e posteriormente reforçados; por outro, as muralhas e baluartes da Ilha de Tiswadi, que procuravam defender os passos das incursões das forças de Adil Khân, o sultão de Bijapur que os portugueses designavam por Hidalcão. O complexo defensivo da Ilha de Tiswadi, que logo nos primeiros anos constava, no dizer de António Real, capitão de Cochim, de um total de cinco fortalezas, guarnecidas com um efetivo de cerca de seiscentos homens, apoiados por mil peões da terra e cem homens a cavalo, haveria ainda de crescer ao longo dos anos que se seguiram. Por outro lado, foram ainda construídas em Salcete e Bardez duas fortalezas com o intuito de formarem uma primeira linha defensiva contra os ataques da terra firme. Com efeito, por volta de 1535 foi edificada a Fortaleza de São João de Rachol e, mais tarde, em 1551, iniciada a dos Reis Magos, o que permitiu aos portugueses consolidarem a sua presença tanto nas terras de Salcete como em Bardez. A partir da década de 1560, em resultado do agravamento da situação político-militar no planalto do Decão - que haveria de culminar com a destruição de Vijayanagar e consequente esfacelamento do império hindu pelas forças muçulmanas - os responsáveis pelo Estado de Goa, em especial o vice-rei Antão de Noronha (1564-1568), procederam a um reforço das estruturas defensivas da Ilha de Tiswadi e da cidade de Goa. Foram então efetuadas obras com o objetivo de amuralhar toda a ilha ao longo do canal de Cumbarjua desde Benastarim ao Passo de Daugim, e dali ao Passo de Agaçaim. Embora essas obras não estivessem ainda concluídas em 1570 - data da grande ofensiva muçulmana contra a generalidade das fortalezas do Estado da Índia - Goa pôde então resistir ao cerco das forças de Bijapur. Aquela tarefa seria retomada por Luís de Ataíde durante o seu segundo governo (1578-1581), vindo mais tarde, em 1596, o senado de Goa a aprovar o seu prolongamento até Nossa Senhora do Cabo. O objetivo principal dos seus responsáveis passava então pelo reforço das defesas dos passos, ao invés das da cidade, que, segundo Pyrard de Laval e Jan Huygen van Linschoten, eram, no seu conjunto, fáceis de acometer. Todavia, aquele desiderato viria a revelar-se impossível de concretizar por se tratar de uma despesa incomportável para o Estado, razão pela qual foram lançados apenas alguns troços da muralha. 1596-1666 A entrada em cena dos holandeses no Índico obrigou as autoridades portuguesas a repensar a sua estratégia defensiva relativamente à cidade de Goa e à Ilha de Tiswadi. O principal perigo para os interesses da coroa portuguesa vinha agora do mar e não da terra firme, razão pela qual se afigurava prioritário assegurar a defesa das barras do Zuari e do Mandovi, bem como da costa de Bardez que, pela sua configuração, se revelava mais atreita a ataques anfíbios. Por outro lado, as relações com o sultão de Bijapur, que até aí haviam sido marcadas por conflitos sucessivos, viriam durante o século xvii a pautar-se por um relacionamento mais pacífico. Na verdade, com exceção de dois momentos ocorridos em 1654 e 1659, em queas forças de Bijapur invadiram os territórios de Bardez e Salcete, a centúria ficou marcada por uma menor conflitualidade entre as duas potências. As suas preocupações estavam agora centradas numa nova e muito mais perigosa ameaça, dada a emergência dos novos potentados militares no Decão, a saber, os mogóis e, mais tarde, a partir da segunda metade do século XVII, os maratas. Em resultado da mudança do quadro político-militar ocorrida em torno do território de Goa, as embocaduras do Mandovi e do Zuari foram amplamente fortificadas, assistindo-se à construção de novas estruturas e à reforma de outras já existentes. Assim, na costa de Bardez foi construído o Forte de Aguada e reforçou-se o dos Reis Magos, enquanto na margem fronteira se melhorou o Passo de Pangim e se iniciou a construção do Forte de Gaspar Dias, com o objetivo de cruzar fogos com a posição dos Reis Magos. De acordo com António Bocarro, existia ainda um baluarte para defesa de Ribandar, no qual foram feitos significativos trabalhos de reparação durante o governo do conde de Linhares. Na barra do Zuari, não só foi iniciada a construção do Forte de Mor- mugão, mas também foram construídos dois baluartes na base do morro, junto do Convento de Nossa Senhora do Cabo. Próximo destes baluartes, concluídos em 1626, foi depois construída uma plataforma junto à água, para aí ser colocada uma bateria de artilharia. Estas estruturas defensivas viriam a revelar-se decisivas para impedir a entrada das inúmeras esquadras holandesas que, sobretudo no primeiro terço de Seiscentos, procuraram, através do bloqueio das suas barras, conquistar a capital do Estado da Índia. Igualmente decisiva para a evolução dos sistemas defensivos do território de Goa foi a alteração do xadrez político-militar de toda essa vasta região em resultado da expansão para sul do império mogol. Com efeito, a partir da década de 1530, a zona do Decão ocidental entrou num longo e complexo período de conflitos bélicos, de que resultou, em 1636, a conquista e integração no império do sultanato de Ahmednagar e, em 1686, a submissão do sultanato de Bijapur. Em simultâneo ocorreu a emergência da nação marata, que não só procurava expandir-se para os territórios do enfraquecido sultanato de Bijapur, mas também começava a ameaçar as terras firmes de Goa, valendo por ora o estado de guerra permanente que a opunha ao império mogol. Por volta de finais do século XVII assistiu-se ainda à galvanização dos clãs maratas mais próximos das fronteiras de Goa, nomeadamente os desais de Kudal, Perném e Bicholim. Nesta conjuntura particularmente turbulenta e muito volátil, os portugueses voltaram a reforçar as suas posições defensivas, quer na Província do Norte, quer em Goa. Na Ilha de Tiswadi procurou-se, uma vez mais, retomar a construção da antiga muralha, que, embora arruinada em muitos pontos do seu percurso, viria, em 1660, a atingir o arco de Panelim, situado muito próximo da entrada oeste da cidade. 1667-1790 A ascensão do reino marata sob Shivaji Maharaj (1630-1680) causou grande impacto por todo o subcontinente indiano. Pela primeira vez após a destruição de Vijayanagar (1565), um soberano hindu impunha-se ao domínio islâmico, estabelecendo o seu poder sobre uma ampla base territorial. O epicentro do poder marata localizava-se perto da Província do Norte, mas bem cedo os seus exércitos alcançaram as fronteiras de Goa, seguindo-se um longo período de conflitos. Este teve dois momentos fulcrais: as invasões de Goa de 1683 e de 1739-1741. Durante estas duas campanhas, a presença portuguesa em Goa esteve muito perto de ser aniquilada. Contudo, as autoridades do Estado da Índia beneficiaram da guerra entre os maratas e o império mogol, conflito que sabiamente alimentaram e geriram. Os portugueses apoiaram ainda a sublevação dos clãs maratas dos bhonsles, nas fronteiras de Goa. As primeiras incursões maratas na província de Bardez, ocorridas em 1667-1668, tiveram como consequência imediata a edificação do Forte de São Francisco Xavier na zona mais elevada da Ilha de Juá (Santo Estevão). No contexto da campanha de Sambhaji, de 1683, o vice-rei Francisco de Távora ordenou o reforço das defesas da zona nordeste de Bardez, tendo sido edificado o Forte do Meio, entre as posições de Colvale e Tivim, e ainda a fortificação de Assunção, a sul de Tivim. Todas estas posições foram unidas por uma muralha com fosso, procurando assim completar artificialmente a insularidade da província de Bardez, projeto que datava de inícios do século XVII. Também se reformou a Fortaleza de Rachol, em Salcete. A derrota dos maratas pelo império mogol, ocorrida em 1689, não diminuiu a conflitualidade nas fronteiras de Goa, embora tenha favorecido temporariamente os portugueses. Neste contexto, o vice-rei Caetano de Mello e Castro tomou de assalto a fortificação de Bicholim, que mandou arrasar, e ocupou a Ilha de Corjuém, a leste de Bardez, onde ergueu uma fortificação (1706). Alguns anos mais tarde, edificaram-se fortificações na Ilha de Quitula e em Aldoná (cerca de 1715). Fortificou-se ainda a posição de Chaporá (1717), na barra do rio do mesmo nome; e construiu-se o Forte de São Bartolomeu na Ilha de Divar (1720). Em Salcete, procedeu-se à plantação de um bambual na área de Assolna, barreira considerada eficaz para defender uma das zonas mais expostas do território. Em 1739-1741, ocorreu novo ataque dos maratas e dos bhonsles a Goa, colocando o território português - reduzido praticamente à Ilha de Tiswadi - numa situação muito precária. Contudo, a partir de 1741, os portugueses responderam com um movimento militar de consolidação e expansão territorial, começando pela reconquista das províncias de Bardez e Salcete. Lentamente, conseguiram expandir o território de Goa até aos Gates, numa série de campanhas e batalhas entre 1741 e cerca de 1790. A história dessas campanhas é longa e complexa, mas pode-se traçar os seus momentos cruciais: a batalha de Alorna, em 1746, consolidou a segurança das terras de Bardez e levou à rápida conquista de Bicholim e Tiracol, para além de outras posições, algumas das quais foram mais tarde perdidas; a batalha de Madraganor, em 1763, conduziu à incorporação definitiva da cidade e terras de Pondá; finalmente, o tratado de 1788 cedeu aos portugueses a província de Perném. Especialmente no último quartel do século xviii, com o enfraquecimento dos maratas e dos clãs de bhonsles, as fronteiras de Goa estabilizaram ao longo da cordilheira dos Gates e entre Tiracol e Canácona ao longo da costa - apesar de os portugueses terem ocupado locais estratégicos mais a norte e a sul dessas posições. Consequentemente, o território goês triplicou em extensão com a inclusão das denominadas Novas Conquistas. Algumas das fortificações tomadas pelos portugueses durante este período - tanto aos maratas como aos bhonsles, como ainda ao rei de Sunda - foram reaproveitadas com maiores ou menores alterações. Tanto em Alorna como em Tiracol e Cabo de Rama, permanecem importantes vestígios deste período. A maior parte das fortificações, no entanto, foi demolida ou desapareceu. 1791-1961 A consolidação do território goês após as campanhas das Novas Conquistas coincidiu com o fim da ameaça marata e a imposição da Pax Britannica na Índia. Estes dois factos, e ainda a situação estagnada da economia de Goa, levaram a que a maior parte das posições defensivas do seu território fossem abandonadas ou descuradas. A presença de tropas inglesas no contexto das guerras napoleónicas veio reavivar os fortes de Aguada, Mormugão e de Nossa Senhora do Cabo. Posteriormente, estas três posições fortificadas permaneceram praticamente como as únicas com guarnições e artilharia efetivas, sendo que a partir delas se efetuava sinalização luminosa para as embarcações e comunicações através do sistema de telégrafos de bandeiras. Um reduzido número de outras fortificações foi salvo do abandono e ruína para efeitos de instrução ou fiscalização aduaneira, como sucedeu com Corjuém, reformada em meados do século xix, ou Tiracol. Paralelamente, edificaram-se alguns quartéis em núcleos urbanos, como o Quartel de Artilharia de Pangim e os quartéis de Pondá e Mapuçá e, ainda, noutros locais estratégicos, como Bicholim ou Quepém. Durante a primeira metade do século xx, as únicas iniciativas com impacto na defesa do território relacionaram-se com infraestruturas viárias e comunicações. Com a independência da Índia em 1947, a defesa de Goa voltou a preocupar a administração portuguesa. Contudo, as medidas tomadas entre esta data e 1961 - entre as quais a construção de um aeroporto em 1955 - não tiveram nenhuma relevância aquando da anexação do território pela União Indiana.

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