Casas

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Rassaim [Raçaim], Goa, Índia

Habitação

A zona de Raçaim enquadra‐se num conjunto de aldeias ribeirinhas implantadas na margem sul do Rio Zuari, que antes de terminar num imenso estuário liberta uma península reentrante, junto a Curtalim, rica em várzeas e arrozais, emoldurada por densos palmares. Uma estrada muito movimentada vai bordejando o rio, em cuja margem sul se agrupam pequenos estaleiros com extensas rampas laterais para construção e reparação dos tradicionais barcos de madeira, mas também para barcos e graneleiros de aço. Encostados a alguns destes estaleiros, implantam‐se pequenos e precários bairros de trabalhadores, em tudo idênticos aos do porto de Mormugão. A arquitetura tradicional desta região ribeirinha é diversa nas tipologias e recorre à taipa e à alvenaria de laterite na elevação das casas. De um modo geral as tipologias são elementares, distinguindo‐se a casa de duas águas, com alpendre de três águas de telha cerâmica ou de folha de coqueiro, e entrada pela empena, como o exemplo visitável de Conceição Siqueira em Curtalim. A porta é o único vão de uma casa mínima, composta por dois compartimentos divididos por uma parede estrutural sensivelmente a meio. A cozinha localiza‐se no primeiro compartimento ou, nalguns casos, acomoda‐se lateralmente num "corredor" reduzido sob o prolongamento de uma das águas da cobertura. O alpendre é o centro da vida, com um murete alto que integra um banco corrido, onde pousam os prumos de madeira e a armação precária de bambu, para fixação das olas (esteiras de folha de coqueiro). A entrada deste alpendre é lateral, e entre o cunhal da casa e a coluna do alpendre integra‐se no muro uma pequena construção para abrigo das galinhas. A roupa fica pendurada na armação da cobertura para melhor conservação e enquanto arrumo possível, já que o escasso espaço disponível não tem capacidade para incorporar móveis, sendo ocupado por diversos utensílios, incluindo o moinho manual, e por koddos para guardar o bat, ou seja, os ceirões para o arroz. Em frente e em redor da casa estende‐se com regularidade o bat ao sol, limpando‐o de qualquer impureza e secando‐o para o manter arejado e estável todo o ano. Para este fim utilizam‐se grandes esteiras sobre o terreno limpo, ou em eiras de terra argamassada, onde as mulheres e crianças varrem o arroz com a ajuda da zani, uma tradicional vassoura de folhas de coqueiro, amarrada numa espécie de cabo de corda de casca de coco. Alguns dos alpendres são executados com a fixação de agulhas de folhas do coqueiro desfibradas manualmente do caule central, ligando‐as às varas de árvore ou canas de bambu, que formam a armação dominada sampllo. Em quase todas as pequenas aldeias observam‐se pequenos edifícios, também de empena, com alpendre igualmente de duas águas ao correr da cobertura. Trata‐se de uma tipologia de loja ou oficina. Curiosamente, algumas pequenas capelas deste lugar aparentam uma galilé com a mesma configuração. A tipologia de casa‐pátio hindu surge também nesta região, embora com pouca frequência, distinguindo‐se a casa da família Prashant Nails. Integralmente em taipa, implanta‐se num terreno com diferentes altimetrias, tirando partido do mesmo ao nivelar a cota do pátio pela zona mais favorável à disposição de um segundo piso num dos ângulos. Seguramente uma casa muito antiga com o pátio construído em madeira, com colunas de laterite mas apoios, lintéis e varandim em madeira, unidos por cuidadas assemblagens. Também as colunas do alpendre da entrada, integralmente em madeira trabalhada, revelam a qualidade destas carpintarias. Exteriormente, a casa hindu de alguns ângulos induz a leitura de edifício "fortificado", pelos diminutos e quase ausentes vãos. A casa vive para dentro, para um solarengo pátio com o tulssi no centro. Organiza‐se em deambulatório quase integral, contudo a sul, a circulação encontra‐se interceptada por um compartimento. Quartos e sala a norte/nascente formam um núcleo, enquanto a cozinha, as zonas de lavagens e arrumos localizam‐se a sul/poente e formam outra unidade. Devido à sua largura, o grande alpendre em redor do pátio funciona como um espaço social, onde em noites quentes se dorme em "camas de baloiço" suspensas das traves da armação de madeira. O sótão, com uma discreta escada, utiliza‐se quotidianamente apenas para arrumos e por vezes para dormir. Esta casa constitui um exemplo de tipologia de referência pela sua antiguidade e originalidade, tendo sido reproduzida noutros lugares em períodos mais recentes.

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