Arquitetura Militar

Arquitetura Militar

Thane [Taná/Tane], Área Metropolitana de Mumbai (Bombaím), Índia

Arquitetura militar

O rio que separava Salcete da terra firme, do lado leste, estreitava consideravelmente defronte de Taná e precisamente nesse local estavam situadas as estruturas portuárias que os portugueses ocuparam e desenvolveram. No início da presença portuguesa, a defesa de Taná foi descurada, mas acabaria por evoluir, tornando ‑se uma considerável rede de pequenas estruturas e incluir ainda, nos derradeiros anos da Província do Norte, um imponente forte de traçado regular. As várias ações militares dos portugueses e outros inimigos tinham destruído as defesas de Taná. Mas já em 1539 surgia o primeiro alarme de invasão da Ilha de Salcete por forças indianas. Na ocasião os moradores portugueses estavam praticamente indefesos, existindo talvez apenas uma fortificação, localizada cerca de dois quilómetros a norte do centro de Taná e que consistia numa casa fortificada provida de artilharia ligeira - o Baluarte do Passo Cansado. Edificou ‑se então um outro reduto num ilhéu no meio do rio, mais próximo da cidade, que foi apetrechado com quatro peças de artilharia - o Baluarte do Passo Seco ou do Meio. Este reduto resistiu ao ataque em questão, mas a situação de Taná continuava precária. Consequentemente, edificou ‑se uma terceira fortificação também num ilhéu do rio, imediatamente a sul da posição anterior - o Baluarte do Mar ou dos Reis Magos. Esta estrutura era maior e mais sólida que o baluarte anterior. Durante largos anos, as três edificações constituíram as defesas de Taná. Figuram no desenho de Pedro Barreto Resende (c. 1635) e encontram ‑se referidas na correspondência do Estado da Índia, ao mesmo tempo que se aludia à fragilidade militar da cidade e, por consequência, de toda a Ilha de Salcete. As duas posições no rio constituíam também marcos para auxiliar a navegação, sujeita aos baixios perigosos do rio de Taná, sendo sinalizadas à noite com candeias. Em 1654 surge a referência ao Baluarte de São Jerónimo que, provavelmente, seria uma refundação do Baluarte do Passo Cansado. Também é provável que já existisse, por esta altura, uma torre defensiva na aldeia de Colvale, do outro lado do rio de Taná. Com a fixação dos ingleses em Bombaim, o rio de Taná tornou ‑se alvo de contendas entre as duas potências europeias. Em causa estavam impostos de passagem que os portugueses cobravam às embarcações com destino a Bombaim. Esta medida surgia ao mesmo tempo que os ingleses atraíam para o seu território a indústria têxtil de Taná. Em 1683 teve início uma guerra com os maratas, então em franca expansão territorial por toda a costa indiana entre Goa e a Província do Norte. Nesse contexto repararam ‑se as fortificações e é provável que se tenham edificado três pequenos baluartes adicionais ao longo do rio - São João, Santo António e São José - entre o Baluarte do Passo Seco e o Baluarte de São Jerónimo. Também se fortificou com dois baluartes uma montanha a cerca de quatro quilómetros a leste de Taná, conhecida como Pareica. Apesar de a Província do Norte ter resistido à guerra de 1683 ‑1685, a situação militar era preocupante. A partir de 1720 instalou ‑se uma guerrilha nas zonas fronteiriças do distrito de Baçaim, com repetidas incursões, pilhagens e emboscadas. As ações dos barcos de Angriá, sedeados no Forte de Culabo (Alibhag, trinta quilómetros a sul de Bombaim) e dos marinheiros árabes de Omã e Mascate enfraqueciam o poderio militar português. Em simultâneo, o crescimento de Bombaim diminuía a produtividade da Ilha de Salcete. Após nova tentativa de invasão da Ilha de Salcete em 1730, o Estado da Índia optou por construir uma sólida fortificação em Taná, obra há muito reclamada pelos portugueses da Província do Norte. Em 1733 o engenheiro André Ribeiro Coutinho delineou a nova estrutura defensiva, que incluía um forte pentagonal - a cidadela - inserido no canto nordeste de um amplo perímetro abaluartado que cercava a zona central da cidade - a linha. Dentro da cidadela ficavam o convento dominicano e a casa do capitão, enquanto a linha abraçava uma grande zona urbana incluindo a Igreja Matriz, a Misericórdia e a casa jesuíta. Aproveitavam‑ ‑se ainda algumas estruturas da frente ribeirinha de Taná para fechar a linha do lado leste. As obras tiveram início em 1735, começando pelos três baluartes da cidadela voltados para ocidente e as respectivas cortinas. Para acudir às despesas foi lançado um imposto geral sobre todos os habitantes da Ilha de Salcete, tendo convergido para o estaleiro uma hoste de trabalhadores oriundos de vários locais da Província do Norte. A planta do forte, pentagonal com baluartes pronunciados, incluía a porta do campo - dotada de ponte levadiça - e a porta do rio. O seu traçado refletia as inovações da arquitetura face à generalização do uso de artilharia e das espingardas. O perfil das muralhas, baixo e atarracado, incluía um amplo parapeito e ainda uma contra ‑escarpa. Todo o forte deveria ficar rodeado por um fosso alagável. Originalmente, previram ‑se os cinco baluartes com dimensões semelhantes, mas face aos custos os dois baluartes voltados ao rio foram atrofiados, segundo solução do engenheiro José Lopes de Sá, que substituíra Ribeiro Coutinho à frente do estaleiro. Com a grande invasão marata iminente, as obras corriam a bom ritmo, sendo frequentemente inspecionadas pelo general do norte, Luís Botelho. Ainda assim, faltava terminar a frente ribeirinha e o fosso. A linha ou perímetro abaluartado da cidade estava apenas começada, próximo da casa jesuíta. Na madrugada de 6 de abril de 1737, o general do norte estava entrincheirado no forte inacabado de Taná, com um considerável destacamento de tropas nativas e europeias. A invasão marata começou pelo Baluarte de São Jerónimo e depois prosseguiu para cercar o novo Forte de Taná, enquanto outras forças ocupavam sem resistência a Ilha de Salcete. A rapidez com que o general do norte e as forças portuguesas abandonaram o forte, escapando pelo rio até Caranjá, faz pressupor uma sublevação das tropas de origem indiana ou, pelo menos, da população local, concertada com a força atacante. Os maratas concluíram as obras do forte, tendo construído dois baluartes redondos nos vértices dos baluartes ribeirinhos. Após servir como quartel ‑general da campanha que levaria à queda de Baçaim, em maio de 1739, o Forte de Taná permaneceu nas mãos dos maratas até 1774, data em que foi conquistado pelos ingleses após renhido cerco. Estes, por seu turno, restauraram os baluartes e artilharam o forte com cerca de cem canhões. Em redor, arrasaram as casas e jardins que ainda restavam desde a ocupação marata. Em 1838, transformaram a fortificação em prisão. Uma visita ao interior do forte, em maio de 2008, revelou não restar praticamente nenhum vestígio do tempo dos portugueses. As outras fortificações desapareceram completamente, com a exceção dos dois baluartes da montanha de Pareica.

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