Fortificação

Fortificação

Mormugão, Goa, Índia

Arquitetura militar

Os vestígios do sistema fortificado de Mormugão situam‐se num istmo no lado sul da barra do Rio Zuari, em redor de um amplo planalto a partir do qual se domina uma extensa área circundante. Em vários aspectos, a praça de Mormugão é equiparável à de Aguada. Contudo, salientam‐se duas diferenças fundamentais: o facto de se ter intentado edificar uma cidade no recinto de Mormugão, e as profundas alterações nele ocorridas, dada a construção de um porto de mar em finais do século XIX.
Com a chegada dos holandeses às costas goesas, tornou‐se indispensável defender as barras dos rios Mandovi e Zuari. Este último, para além de conduzir a passos importantes na Ilha de Tiswadi e nas terras de Salcete, permitia o abrigo a embarcações de grande tonelagem durante o período da monção. Assim, e após os primeiros bloqueios por parte dos holandeses às referidas barras, surgiu uma ordem régia para a edificação de uma fortificação em 1620, tendo sido colocada a primeira pedra da obra quatro anos mais tarde. O essencial do primeiro período de obras no sistema de Mormugão deve‐se ao engenheiro Júlio Simão. Como em Aguada, o núcleo central deste sistema com‐ preendia um forte numa zona ribeirinha, unido a um cais através de uma estrada coberta pontuada por baluartes e ligado também a um forte situado a uma cota mais elevada através de duas cortinas ou couraças que acompanhavam o declive do terreno. Esta posição sobranceira foi edificada após o forte ribeirinho, não figurando na vista das terras de Salcete desenhadas por Pedro Barreto Resende para o Livro das Plantas de todas as Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental...

Nesse relatório, concluído em 1635, António Bocarro, o respectivo cronista, refere a porta principal da fortificação à cota inferior, realçando as pedras lavradas do frontispício e também as casas largas e de boa traça pertencentes ao capitão, no interior dorecinto. Estes dois elementos ainda permanecem em Mormugão, inseridos na estrutura portuária que veio a ser edificada no século XIX. No piso térreo das casas do capitão ficavam os aquartelamentos dos soldados e os armazéns de munições. Defronte deste edifício existia uma ampla plataforma com canhoeiras.
O forte à cota superior, comparável à cidadela de Aguada, foi iniciado em 1638, conforme uma lápide que existia na porta principal. Dada a ruína do setor nordeste, e a falta de uma intervenção arqueológica no local, apenas com a ajuda da cartografia oitocentista é possível apurar que a sua forma seria irregular e triangular, contando com três baluartes robustos de traça apurada. No centro dos vestígios do forte permanece um cruzeiro.
As campanhas posteriores de obras resultaram da decisão de mudança de capital de Velha Goa para o planalto de Mormugão. Esta decisão, proposta pelo vice‐rei Rui de Távora, foi aprovada pelos principais representantes da cidade de Velha Goa em janeiro de 1684 e sancionada pela metrópole. Contudo, desenvolveu‐se uma tenaz resistência ao projeto. Os principais argumentos a favor da mudança radicavam na defensibilidade da península de Mormugão e na salubridade do local comparativamente à situação de Velha Goa. Contra alegava‐se a falta de recursos para a edificação de uma nova cidade e de novas casas religiosas. Apesar da resistência, realizaram‐se ou iniciaram‐se uma série de estruturas militares, urbanas e residenciais entre 1687 e 1707. Este estaleiro esteve a cargo dos jesuítas Teotónio Rebelo e, mais tarde, Manuel Carvalho.
É difícil descrever a sua forma ou cronologia, dado o facto de as estruturas terem sido quase todas demolidas durante a construção do porto de Mormugão e subsequente desenvolvimento urbano da cidade de Vasco da Gama. Contudo, através de documentação coeva e cartografia oitocentista, compreendemos que as obras principais ocorreram no lado leste e nordeste da península, onde foi levantada uma extensa muralha com aproximadamente dois mil e duzentos metros, intercalada por baluartes, que ia terminar perto do cais principal, ligado à fortaleza ribeirinha. Junto a esta muralha edificaram‐se vários equipamentos. Aparentemente não se efetuaram obras ou arruamentos à cota do planalto, questão que só o desaparecido projeto de nova cidade para Mormugão poderia vir a esclarecer.
Uma série de outros baluartes pontuava as zonas mais expostas e estratégicas da restante orla da península, a sul e oeste. Segundo Pedro Dias, todo o conjunto totalizava vinte baluartes, entre estruturas isoladas ou integradas no sistema de cortinas. Dos equipamentos urbanos, a maior parte terá sido apenas iniciada e, posteriormente, servido de fonte de material para outras construções.
Em 1878, os governos de Portugal e Reino Unido celebraram um tratado que previa a construção de um porto marítimo mecanizado em Mormugão e de uma via férrea que o ligasse ao território britânico de Hubli, atravessando a barreira montanhosa do Gates. Esta ini‐ ciativa teve consequências superlativas para o desenvolvimento de Goa. As obras, iniciadas três anos mais tarde, permitiram a acostagem do primeiro vapor a Mormugão em 1885 e culminaram com a inauguração da linha ferroviária em 1888. Apesar de a nova cidade de Vasco da Gama ter sido começada apenas trinta anos mais tarde, todo o processo continuado de desenvolvimento portuário e urbano de Mormugão até os dias de hoje levou à profunda descaracterização do sistema defensivo dos séculos XVII e XVIII.

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