Forte e Igreja de Santiago

Forte e Igreja de Santiago

Thanlyin [Sirião/Syriam], Yangon, Myanmar/Birmânia

Arquitetura militar

A história do estabelecimento português do Sirião, desde a construção à queda, decorreu numa conjuntura extraoficial favorável à interculturalidade birmano‐portuguesa. Em finais do século XVII a Birmânia, étnica e geograficamente diversa, encontrava‐se fragmentada em vários reinos. Filipe de Brito de Nicote, aproveitando a falta de autoridade do poder central, logrou dominar o reino mon de Pegu, embora teoricamente subordinado ao rei supremo, o qual era de etnia birmanesa. Pela força das armas e da diplomacia, estabeleceu‐se no Sirião. Conseguiu obter do rei de Pegu autorização para construir um entreposto comercial. Extravasando os termos da concessão, da feitoria fez fortaleza. A Puteguê Yazawin, "Crónica de Portugal", extenso relato birmanês, regista (tal como a documentação portuguesa coeva) o alargamento abusivo do território concedido ao aventureiro, bem como a igualmente abusiva construção de uma fortaleza de pedra e cal. A mesma crónica aponta João Tharyino como arquiteto português da fortaleza, frisando que o topónimo Thanlyin (Sirião) evoca o nome desse presumível arquiteto. A alegação é controversa: ainda que outras fontes locais registem similarmente que a localidade tomou o nome do arquiteto, não referem a sua nacionalidade e remontam a época muito anterior à edificação da fortaleza. Quanto a Nicote, alcançou o reconhecimento da fortaleza e da sua autoridade sobre ela, quer pela população mon (autonomista e rival do rei birmanês) quer pelo vice‐rei de Goa, a quem nunca obedecera. Obteve do Estado da Índia sanção oficial desta situação no Sirião, ajuda militar para a manter, e regimento próprio, com obrigatoriedade de colocar a fortaleza sob a dependência da coroa.
A Igreja, ciente de que encontraria espaço de pregação num país budista de difícil penetração cristã, apoiou o aventureiro. Foi assim que em redor da fortaleza se desenvolveu um estabelecimento que, consoante as fontes, integraria entre onze e quinze mil almas. Para assistir a comunidade haveria outras igrejas, mencionadas em fontes narrativas que não explicitam os materiais usados na sua edificação, os quais provavelmente seriam a madeira e o bambu, tradicionais na região. No tocante à fortaleza e à cidadela, subsistem fontes narrativas e iconográficas indicando a existência de quatro portas correspondentes aos quatro pontos cardeais, resistentes muralhas com canhoneiras, guaritas, vigias e fosso circundante.
Porém, o estabelecimento seria efémero. Encetando uma política de alianças e de traições, Nicote nunca observou as diretivas de Goa nem respeitou compromissos assumidos com reis da Birmânia ou de Portugal. Instalado no Sirião com a sua descendência portugueso‐birmanesa, procurou alargar o seu domínio pessoal a toda a Baixa Birmânia e a outros reinos do país. Alcançou poder e reputação, foi considerado rei e como tal registado por cronistas birmaneses, título e soberania que na circular concepção budista de reis e subreis não encontra equivalência no sistema europeu. Delegou tal soberania em Filipe II, que chegou a auto‐denominar‐se "rei dos reinos de Pegu". Sitiado em 1607, acabou por ser morto em 1613 após um novo cerco e consequente queda da fortaleza às mãos do rei birmanês Anauk‐hpet‐lun, no decurso de ofensivas militares enquadradas num bem sucedido processo de reunificação do país.
O forte português do Sirião - Thanlyin em birmanês - porto do reino mon de Pegu (na Birmânia, atual Myanmar), foi construído no início do século XVII por Filipe de Brito de Nicote, o Nga Zinga dos relatos do país. A planta do forte figura num roteiro de navegação de Goa a Pegu manuscrito por Gaspar Pereira dos Reis em 1634. Fontes coevas portuguesas e birmanesas atestam a construção e sustento da Igreja de Santiago do Sirião. De tal igreja, infelizmente, nunca se encontraram vestígios.
As ruínas a que impropriamente alguns autores chamam "igreja e fortaleza de Brito de Nicote" não são mais do que os vestígios de uma igreja católica erigida em tijolo em 1750 por missionários barnabitas italianos, sob a superintendência do padre Paolo Maria Nerini. É esta igreja italiana que tem sido divulgada como sendo construção seiscentista portuguesa de Santiago do Sirião. Não é verdade: por um lado, as imagens mostram tratar‐se não de fortaleza, mas de nave de igreja; por outro lado, tal nave corresponde aos pormenorizados relatos italianos da edificação e da estrutura da igreja barnabita. O monumento foi inventariado e classificado em 1908 pelo Departamento de Arqueologia da Birmânia. Esclareça‐se que os barnabitas foram enviados para a Birmânia pela Propaganda Fide, dependendo assim diretamente de Roma, onde tinham estudado birmanês (língua ignorada pelos missionários portugueses) com o propósito de superar o Padroado, cuja fragilidade linguístico‐cultural entravava a eficácia das missões e descontentava a Santa Sé.
O que resta da igreja pretensamente portuguesa corresponde a parte da abside e das paredes laterais, estrutura que abriga pedras tumulares confundidas com as lápides de Nicote e seus companheiros, embora exibam inscrições bilingues, em português e birmanês, alusivas a portugueso‐descendentes falecidos em meados do século XVIII. As inscrições, interessantes dos pontos de vista histórico e linguístico, testemunham a permanência na Birmânia não só da língua portuguesa, como também de uma comunidade de portugueso‐descendentes, mais de um século passado sobre a morte de Nicote. São também testemunhos datados e, portanto, inequivocamente posteriores à queda da fortaleza portuguesa e da igreja que esta aquartelava. Mas ainda que não bastasse o estudo da igreja barnabita, seria conclusiva a tradução de uma inscrição em latim conservada no mesmo recinto que refere a doação feita à Propaganda Fide por um casal que financiou a edificação da igreja no ano de 1749.
Na Birmânia procura‐se preservar os vestígios da presença portuguesa: no caso da igreja barnabita, embora posterior à fortaleza serviu a comunidade portugueso‐descendente do Sirião, encontra‐se uma placa assinalando "Antiga Igreja Portuguesa/Era cristã (1749‐1750)".

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