Forte

Forte

Solor [Lohajong/ Lowayong], Nusa Tenggara do Leste , Indonésia

Arquitetura militar

Não existe acordo entre os cronistas quanto à data da fundação do forte português na Ilha de Solor. António Bocarro, seguindo Diogo do Couto, afirma que o mesmo foi mandado erguer pelo governador da Índia, Manuel de Sousa Coutinho, em 1588. Contudo, a sua existência remonta a 1566, quando o dominicano Frei António da Cruz deu início, no lugar de Lawayong (Lohayong), a ocidente de Lamakera (Lamalera), à construção de um forte de pedra e cal, para substituir uma anterior tranqueira que ele mesmo havia construído dois anos antes, para proteger o recém‐fundado convento dos ataques de frotas vindas de Java.
Este estabelecimento possuía características sui generis, na medida em que cabia aos dominicanos nomear o seu capitão, a ser escolhido entre os casados da cidade de Malaca. Só em 1585 a coroa passou a nomear diretamente o capitão, continuando a escolha a recair em casados daquela cidade, embora Solor só venha a ser considerado um forte aquando da nomeação do seu segundo capitão, António de Andria, em 1593, possivelmente no âmbito da reclassificação oficial dos fortes na Insulíndia, que abrangeu também pela mesma época o Forte de Amboino.
Erguido sobre uma íngreme elevação, o forte possuía cinco baluartes, três virados ao interior da ilha e dois ao mar, dominando o porto onde podiam ancorar navios de alto bordo. Intramuros existia ainda um dormitório para os religiosos, uma igreja da invocação de Nossa Senhora da Piedade, uma casa de armas e outra para a pólvora. Num torreão com porta para o exterior residia o capitão.
Sofreu diversas vicissitudes, que produziram danos consideráveis na estrutura. Em 1598, durante a chamada Revolta dos Lamaqueiros, ardeu parcialmente, o que se repetiu acidentalmente em 1603. Para prevenir futuros incêndios, Frei Simão Pacheco cometeu a reconstrução dos telhados a um mestre chinês. Uma década mais tarde o forte caiu nas mãos dos holandeses, sob o comando de Pietr Both. Este, estando ocupado na construção do Forte Barnevelt em Bachão, nas Molucas, recebeu uma solicitação do rei de Buton para que o ajudasse a capturar o Forte de Solor.
Em 9 de novembro de 1612, Both mandou a Buton e Solor o navio der Veer, que tinha como capitão Apollonius Scotte, por cuja cabeça os espanhóis ofereciam um prémio de 2.500 reales. O cerco durou de 27 de janeiro a 18 de abril de 1613, quando o capitão Manuel Álvares, cem soldados, trinta casados portugueses e mil nativos se renderam aos holandeses, que rebatizaram a praça com o nome de Fort Henricus. O governador‐geral Pietr Both remeteu para a Holanda cinco desenhos ou vistas do forte, um dos quais, de acordo com R. H. Barnes, serviu de modelo à gravura publicada por Isaac Commelin em 1646.
Achando a posição sem préstimo para os seus objetivos comerciais, os holandeses abandonaram Solor em 1615, tendo o comandante do forte, van der Velde, mandado demolir a igreja matriz e a da Misericórdia. Reocuparam‐na em 1618, ficando por comandante Crijn van Raemburch, para ser de novo abandonada em 1629, depois de efetuadas demolições consideráveis com recurso a barris de pólvora.
Segundo o bispo de Cochim, Frei Miguel Rangel, os holandeses "derribarão tambem o baluarte, que chamão de S. Domingos, e o dormitorio dos Padres [...] mas nem por isso deixou a fortaleza de ficar em pé com quatro baluartes, e todo muro em roda". Este prelado reconstruiu a fortaleza em 1631, com dinheiros angariados junto dos mercadores de Macau. Ele próprio a descreve, em 1634, nos seguintes termos: "fortaleza de Solor munto fermosa, e forte com sinco baluartes, três da banda do mar, e dous da banda da terra: de baluarte, a baluarte, onze braças de muro, também mui forte, e grosso, quasi de quatro braças de altura com seu parapeito, e couraça posta em sitio forte, íngreme, aprasivel, sadio de bons ares, e boas agoas, muitos poços junto da fortaleza; dentro nella hum poço fer moso de muito boa agoa, boa horta fora dos muros, e boas frutas; muita, e boa caça do mar, e terra; o mar abrigado das tempestades com huma enseada defronte, em que muitas naos possão estar seguras, e fazer suas agoadas debaixo da fortaleza, cuja artilharia quando he boa, e grossa, passa todo o mar alem, e chega à outra banda da terra, a qual também he fresca e com ribei ras. Em hum lanço da fortaleza, o dormitório dos fra des, em outro o Capitão, em outro o Seminario, outro livre. No vão da fortaleza, huma mui fermosa Igreja da Senhora, toda de pedra, e cal, e telha, com suas capellas fermosas de mui ricos retabolos, e ornamentos e muita prata, a qual Igreja era a matriz das Christandades; o seu titulo nossa Senhora da piedade, padroeira, e Senhora dellas. Abaixo da fortaleza, no campo della, para o mar, de huma parte a Igreja da santa Misericórdia, que os Portuguezes (os quaes em breves tempos erão já aly muitos casados) avião feito. Da outra parte, a Igreja de S. João Baptista, que com a matriz servião aquella gente".
Contudo, seria definitivamente abandonada em 1636, por imposição de uma armada holandesa com posta por seis navios e duzentos soldados. Foi reocupada pelos holandeses em 1646 e uma vez mais aban donada, em 1653, quando eles se transferiram para Fort Concordia, em Cupão (Kupang), na Ilha de Timor, recentemente capturado aos portugueses. Para trás os holandeses deixaram um forte profundamente destruído pelo terramoto de 1648, que arruinou algumas das suas estruturas mais solidamente construídas, como por exemplo a porta de armas.
Meio século mais tarde já só se podiam ver ruínas, subsistindo ainda atualmente alguns lanços arruina dos das muralhas. Na povoação vizinha das ruínas do forte subsiste também uma dezena de canhões de fabrico português. Com efeito, aquando da sua reconstrução, em 1630-1631, ele foi dotado de um conjunto de quinze peças de artilharia, das quais Frei Miguel Rangel descreve duas de ferro, atribuindolhes um significado particular: "As duas mayores destas peças, que são fermosas, estão na couraça huma das quaes foi a primeira peça de ferro, que na China se fundio: a qual o fundidor Manuel Tavares offereceo a nossa Senhora de Solor, tomandoa por advogada daquella nova fundição de ferro, tam necessária ao estado".

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