Forte

Forte

Seinal, Norte de África, Marrocos

Arquitetura militar

A dispersão territorial, elevados custos financeiros de manutenção e dificuldades de abastecimento obrigaram a que se ponderasse, pelo menos desde finais dos anos 20 do século XVI, a estratégia mais adequada para as praças portuguesas em Marrocos. Se a situação, tal como na altura se colocou, aconselhava a que se concentrassem forças e se abandonassem as posições mais frágeis e problemáticas, esse plano, por razões diversas, não foi levado à prática. A queda de Santa Cruz do Cabo de Guer, em 1541, forçaria, contudo, a tomada de decisões. O abandono das praças do sul de Safim e de Azamor, nesse mesmo ano, e o lançamento da construção da moderna Fortaleza de Mazagão, espaço através do qual se procurou manter viva a aspiração de conquista do Reino de Marrocos, foram reflexos imediatos daquele acontecimento. No norte, o momento chave surgiria alguns anos depois, em inícios de 1549, com a tomada de Fez pelo xerife Moulay Ahmed, que motivou, ato imediato, uma reflexão política e militar sobre a manutenção das praças portuguesas do Estreito. É nesta nova conjuntura que se consuma o abandono de Arzila e de Alcácer Ceguer, em julho e agosto de 1550, decisão que esteve longe, contudo, de gerar consenso. No caso desta última, o abandono foi precedido de uma derradeira tentativa de garantir militarmente a sua manutenção, que passava pela fortificação do morro que lhe estava fronteiro, dito do Seinal, iniciativa que envolveria um grande número de soldados (estimados em 4.000) e de trabalhadores (cerca de 1.200, entre serventes e cabouqueiros) e a participação dos mais experimentados arquitetos e engenheiros do reino. Este plano de ação foi posto em marcha em fevereiro de 1549, mas os resultados alcançados não foram os esperados.
Alcácer Ceguer, apesar das obras de modernização introduzidas na época manuelina, não possuía condições defensivas que permitissem responder e contrariar os avanços que se tinham verificado na pirobalística. O seu pequeno recinto, por outro lado, não facilitava a ação de um número elevado de soldados e de artilheiros e a sua localização, num plano baixo, era‐lhe extremamente desfavorável em caso de cerco. Este conjunto de circunstâncias esteve na base da decisão de D. João III, tomada em fevereiro de 1549, de fortificar o monte sobranceiro do Seinal, que permitiria a defesa simultânea da vila e do seu porto.
À semelhança do que sucedeu noutras ocupações levadas a cabo no litoral marroquino, como as de Mamora e de Aguz, a do Seinal, como referencia o próprio D. João III em carta que dirige a D. Afonso de Noronha, capitão de Ceuta, a quem cumpriria dirigir as obras, deveria iniciar‐se com um "forte de terra, madeira e rama", a coberto do qual se lançaria, depois, a construção de um forte em pedra e cal. O programa e os planos construtivos ficaram a cargo do arquiteto Miguel Arruda, escolhido pelo monarca "pela muita experiência e industria que tem", que chegou ao local a 4 de abril de 1549, na armada que transportou materiais e mantimentos diversos, a soldadesca, pedreiros, carpinteiros e artífices, bem como dois engenheiros: o francês Claude de Granval e o português António de Arruda.
Em Maio desse mesmo ano, o forte de madeira já se encontrava concluído. O local da fortificação perene suscitou, contudo, diferentes opiniões e pareceres: se no topo do monte, a meia encosta ou no ligeiro cabo que avançava sobre o mar. Se a primeira hipótese foi a que prevaleceu, as dificuldades que o sítio suscitava, bem espelhadas nas palavras do capitão D. Afonso de Noronha, em carta que dirige ao rei, de como era "aspera a vida d’este Seinal", a falta de dinheiro para financiar a empresa, que motivou deserções e problemas vários no recrutamento de homens de armas e de artífices (em Portugal e na Andaluzia), somadas à ausência de Miguel Arruda, que fora forçado a partir sem deixar "este lugar arruado", condicionaram o ritmo e a execução da obra planeada. Não se dispõe de informações, aliás, que permitam caracterizar o tipo de fortificação que este arquiteto havia traçado.
Após o seu abandono, como sucedeu com a praça de Alcácer Ceguer, o local não voltou a conhecer nova ocupação. Se a ruína depressa tomou conta das estruturas levantadas, a construção de instalações militares no Seinal durante o protetorado espanhol terá apagado os vestígios que ainda existiriam da fortificação portuguesa.

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