Fortaleza Manuelina

Fortaleza Manuelina

Ksar Sghir [Alcácer Ceguer, Ksar Masmuda, Ksar al-Madjaz], Norte de África, Marrocos

Arquitetura militar

Em inícios do século XVI desenvolveu‐se um plano alargado de obras de modernização da estrutura fortificada de Alcácer Ceguer. A primeira iniciativa foi a construção de uma extensa e robusta couraça marítima, mandada erguer em 1502, que prolongou até ao mar uma estrutura já existente, por vezes interpretada como fase inicial e inacabada do projeto que então adquire forma. Não parece ser esse, todavia, o caso. A instrução dada a Fernão Gomes, mestre pedreiro, e a Pêro Vaz, vedor das obras (fazia‐se acompanhar de um desenho esquemático, documento iconográfico sobejamente conhecido, um dos poucos da época manuelina que se conservaram), é clara: deveria reformar‐se a couraça que já existia e prolongá‐la até ao mar. Reformar equivalia, mais precisamente, a tornar os muros mais fortes e dotá‐los de ameias largas, como as do "tipo de França", diz‐se. Prolongar, por seu turno, significava que a estrutura devia atingir a beira‐mar, recomendando-se, nesse sentido, a construção de dois possantes talhamares de pedraria, que defenderiam a estrutura dos embates das águas (não chegaram a ser executados). Mais do que uma reforma, o que estava verdadeiramente em causa era a necessidade de garantir o acesso ao mar, mantendo aberta e segura uma porta de comunicação com o exterior, e de defender eficazmente a couraça, elemento que passava a estar demasiado exposto, pelas suas próprias dimensões, a ataques inimigos.
A construção da couraça marítima manuelina é um indicador claro de que os níveis de assoreamento do rio e da barra de Alcácer Ceguer tinham tornado impraticável a sua navegação e que a couraça fluvial afonsina já se encontrava, então, obsoleta.
O estrangulamento da barra e a formação de uma extensa praia forçaram uma alteração decisiva no paradigma histórico de Alcácer Ceguer: a passagem de vila fluvio‐portuária a vila marítima. Começada a desenhar‐se em finais do século XV e encontrando‐se consolidada em inícios da centúria seguinte, originou transformações profundas na organização funcional e espacial da vila e do conjunto fortificado. A referida couraça marítima de 1502 e um castelo, projetado em 1508, foram as marcas fundamentais deste processo.
Foi em torno da velha porta de mar islâmica, que se tornara, a partir da época afonsina, com a presença do capitão da praça, o espaço nobre e de poder da urbe, que tiveram lugar as principais obras de fortificação manuelinas. Desconhece‐se, uma vez mais, quem as projetou. Sabe‐se, contudo, quem as dirigiu: Diogo Barbudo, um enviado do rei, com o apoio do vedor e do capitão da vila, respectivamente Pêro Vaz e D. Rodrigo de Sousa.
Entre 1509 e 1510, ergueu‐se, na frente marítima de Alcácer Ceguer, um castelo de planta aproximadamente quadrangular, transversal aos muros da vila, com duas unidades espaciais distintas, uma avançada sobre a praia e outra para o interior da urbe. Para a banda do mar, as muralhas do castelo envolveram a estrutura da antiga porta merinída e uniram‐se às da couraça, com dois torreões, dotados de bombardeiras baixas, a defender os ângulos de cruzamento com a cerca da vila (o torreão do lado do rio, ainda inacabado em 1515, não subsistiu). A criação deste novo espaço, que integrava e se cruzava com estruturas preexistentes, obrigou ao estabelecimento de novos eixos de comunicação com o exterior e o interior da praça. Assim, a ligação com a foz do rio e a praia adjacente passou a fazer‐se por uma nova porta, situada sensivelmente no alinhamento da velha porta islâmica, que perdeu a sua função. Por uma outra, interior, acedia‐se ao corredor da couraça e, através deste, à beira‐mar. Foi junto a esta porta, na projeção dos muros ameados da couraça, que se programou a construção de uma torre de menagem, que comunicaria, através de uma ponte levadiça, com as robustas câmaras da porta islâmica, anteriormente adaptadas a paço do capitão. A torre, que seria formalmente semelhante à que se ergueu, na mesma época, em Arzila, e emprestaria ao castelejo uma perspectiva monumental, não chegou, contudo, a ser concluída, nem deixou vestígios aparentes. O pouco espaço disponível e a necessidade de manter desafogada a passagem para a couraça terão forçado a opção, desenvolvida posteriormente, de construir uma pequena torre sineira sobre a porta de mar islâmica, que ainda se conserva. Para o lado da vila, os muros do castelejo desenharam um corpo retangular, munido de caminho de ronda e de bombardeiras. Ao centro, uma porta abria para um possante baluarte circular, estabelecendo-se a comunicação com a urbe através de uma segunda porta, em cotovelo. Uma ponte levadiça e uma cava completavam o sistema defensivo do castelo, o último reduto de resistência ao inimigo, caso este penetrasse ou se apoderasse da praça.
Em 1511 é lançada uma nova campanha de obras, sob a direção do mestre biscainho Francisco Danzilho, com o objetivo de abaluartar as portas da vila e o castelo. Neste esforço de modernização, a empresa mais significativa foi a construção de um baluarte na frente marítima do castelo e a criação, proporcionada pelo avanço sobre a praia, de uma razoável praça de armas (terá sido a reconfiguração do sistema defensivo junto à porta de mar e da couraça que obrigou, provavelmente, a repensar a existência da torre de menagem). Na face mais longa e exposta do baluarte, voltada a leste, dispuseram‐se seis canhoneiras, distribuídas por dois andares e, na face norte, transversal ao muro da couraça, outras três, dispositivo que proporcionou uma capacidade de tiro notável e é emblemático da fortificação manuelina de Alcácer Ceguer.
Em relação às portas de Ceuta e de Fez, os vestígios arqueológicos e a documentação da época permitem caracterizar a obra desenvolvida por Danzilho. O objetivo era claro: criar dispositivos de defesa avançada, dotados de frentes largas e planas, que funcionassem como barreira tranversal às portas, dificultando o seu acesso, e, sobretudo, como plataforma regular para o uso de artilharia, multiplicando a capacidade de tiro sobre a campina, através de bombardeiras alinhadas. No caso da Porta de Ceuta (Bab Septa), trata‐se de um corpo de perfil retangular, disposto lateralmente, com entrada em cotovelo e desenvolvido para levante, solução que permitiu proteger, igualmente, o troço da muralha da vila que se estendia até ao novo baluarte da praia. Quanto à Porta de Fez, a intervenção de Danzilho confirma que esta já perdera a sua função original, tornando‐se uma mera referência topográfica da vila, que a documentação continuou a assinalar. De facto, o local onde se situava foi bloqueado pela construção de um baluarte, com uma frente ampla, dotado de peitoris e ameias.
Numa avaliação conjunta às intervenções de Danzilho, parece claro que a construção dos baluartes das portas de Ceuta, de Fez e da praia, para lá da defesa desses pontos sensíveis da praça, visou criar um dispositivo combinado de proteção da muralha circular da vila, reduzindo os ângulos mortos e a possibilidade de manobras de flanqueamento por parte do inimigo.
Em junho de 1514, quando o mestre Boytac, acompanhado pelo escrivão Bastião Luiz, inspecionou e fez o relato dos trabalhos de fortificação de Alcácer Ceguer, era ainda muito o que estava por concluir e reparar, nomeadamente fossos e cavas, pontes levadiças, guaritas e as armas portuguesas que sobrepujariam as novas portas. Em 1516, Danzilho permanecia ainda à frente das obras, mas no essencial estas já estariam realizadas. O complexo fortificado manuelino, que o arquiteto João de Castilho inspecionou em 1529, sem resultados práticos, ao que tudo indica, já estava obsoleto em meados do século XVI e dificilmente resistiria aos ataques e assédios de forças inimigas, que estavam então iminentes. A decisão de ocupar e fortificar o monte fronteiro do Seinal, em 1549, é a antecâmara do anunciado abandono português de Alcácer Ceguer, que se consumaria em inícios de julho de 1550.

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