Fortaleza Afonsina

Fortaleza Afonsina

Ksar Sghir [Alcácer Ceguer, Ksar Masmuda, Ksar al-Madjaz], Norte de África, Marrocos

Arquitetura militar

Definindo uma circunferência quase perfeita, as muralhas de Alcácer Ceguer não têm paralelo no amplo quadro das realizações da arquitetura militar almorávida, almóada e merínida, nem se inscrevem nos princípios construtivos castrenses do mundo islâmico. Tendo em conta esta premissa, o desenho das muralhas seria forçosamente obra portuguesa, posterior a 1458. Atendendo à regularidade que apresenta, a sua construção faz mesmo supor a existência de um projeto, que seria executado quando o domínio da praça se tornou seguro. Existem, contudo, indicadores que colocam sérias reservas a esta leitura. De facto, alguns troços da muralha inscrevem‐se, claramente, em níveis estratigráficos islâmicos e o posicionamento das portas principais da vila não sofreu qualquer alteração, com as implicações que daí decorrem na definição do traçado da fortificação. Sendo a muralha portuguesa, a sua construção obrigaria, necessariamente, à reorganização da malha urbana de Ksar Seghir, processo que deixaria diversos vestígios na estratigrafia da vila, situação que a arqueologia não confirma. Nesta perspectiva, o traçado circular das muralhas poderia remontar ao período merinída, fazendo de Ksar Seghir um caso excepcional no quadro da arquitetura militar islâmica. Em qualquer dos casos, as muralhas e os torreões que pontuam a circunferência de contorno foram sucessivas vezes intervencionados nas épocas afonsina e joanina.
Construção de origem merinída, aperfeiçoada e regularizada pelas sucessivas intervenções realizadas após 1458, ou obra integralmente portuguesa (a utilização de plantas circulares e ovais em edifícios militares era bem conhecida dos mestres portugueses, como exemplificam os casos dos castelos de Monção, Montalegre e Caminha), existe um fator, cujas implicações devem ser realçadas, que pode ter sido determinante: a topografia do terreno e as condições naturais que existiam na época, bem distintas, sublinhe‐se, das do presente.
Ksar Sghir implantou‐se numa zona baixa, quase ao nível do mar, na extremidade de um cabedelo que se estendia junto à barra do rio do mesmo nome (Oued Sghir). Nos séculos XIV e XV, as águas fluviais e oceânicas bordejariam a urbe e a plataforma arenosa que a rodeava era de menores dimensões, acompanhando os acidentes de relevo. O rio era então suficientemente caudaloso e largo, facilitando a navegação e o exercício de diversas atividades portuárias, do comércio à reparação naval. Neste quadro, e dada a pequena dimensão da urbe, a construção de uma muralha de planta regular poderá ser desaconselhada ou dificilmente praticável. A sinuosidade do areal e a proximidade das águas poderão ter induzido, assim, a opção de erguer uma muralha circular, que tem o seu trecho principal, não por acaso, na frente fluvial, acompanhando o contorno da margem direita do rio. A localização das duas portas, a de Mar e a de Ceuta, relativamente próximas, foi notoriamente ditada por razões topográficas, sendo o troço que as une o mais curto e irregular de toda a fortificação.
As obras afonsinas em Alcácer Ceguer, num primeiro momento, circunscreveram‐se à reconstrução dos muros que a artilharia portuguesa fendeu e derrubou. Num segundo, por força dos dois longos assédios por parte do sultão de Fez, nos anos de 1458 e 1459, estenderam‐se ao melhoramento das condições operacionais e defensivas do conjunto fortificado existente. Foram quatro, sobretudo, as iniciativas promovidas neste contexto. Para contrariar a planura do sítio e criar um obstáculo às investidas inimigas, abriu‐se uma cava em torno das muralhas e introduziram‐se as necessárias pontes levadiças. No sentido de garantir o acesso ao porto e o indispensável contacto com o exterior, foi construída uma couraça fluvial (arrancava junto à Porta de Mar e prolongava‐se até ao leito do rio), que exigiu a participação de alargada mão‐de‐obra e o envio de pedraria e cal do reino (começou a ser erguida no dia 22 de março de 1459 e ficou concluída três meses depois). A sua estrutura, que o assoreamento do rio encobriu, era ainda visível nos anos 20 do século XX. Por não existir uma habitação nobre que alojasse o capitão da praça, as câmaras e as dependências da Porta de Mar foram adaptadas a paço senhorial, solução que, com modificações e acrescentos pontuais, se prolongaria no tempo. Esta intervenção fez‐se acompanhar da construção de um torreão, para reforço da defesa do local e vigilância da praia.

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