Fortificação da Ilha de Tiswadi (ou Tissuary)

Fortificação da Ilha de Tiswadi (ou Tissuary)

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Arquitetura militar

À data da conquista da cidade de Goa, em 1510, existiam na Ilha de Tiswadi outras estruturas defensivas para além do perímetro amuralhado e da fortaleza da cidade. Tanto em Pangim, local estratégico na embocadura do Rio Mandovi, como em Goa Velha (antiga capital e porto da administração dos rajás de Vijayanagar) os portugueses encontraram pontos costeiros fortificados. Por outro lado, nos flancos este e sudeste da ilha existiam pelo menos quatro importantes passos, designação por que eram conhecidos os principais pontos de atravessamento fluvial: o Passo de Daugim (na entrada norte do canal); Gondali ou Passo Seco (mais a sul); Benasterim (continuando para sul); e o Passo de Agaçaim (no extremo sul do canal). Entre 1510 e finais de 1512, os portugueses ocuparam definitivamente a Ilha de Tiswadi. Durante este processo aperceberam ‑se do valor estratégico do Passo de Benasterim, onde as forças indianas tinham edificado um forte. Neste local, considerado por Albuquerque a chave de Goa, os portugueses construíram uma nova estrutura, que integrava partes da fortificação pré‑ ‑portuguesa. As obras foram dirigidas pelo mestre Tomás Fernandes, tendo sido construída uma poderosa torre, com uma barbacã em seu redor e um poço dentro. Terminada em fins de 1513, dela dizia Afonso de Albuquerque tratar ‑se de uma torre enorme "muito obrada de suas guaritas em cada quadra, de cantaria e de muito formosa pedraria. A torre é de quatro sobrados de altura, que se vê dos muros de Goa; ficou no primeiro sobrado uma torre pegada nesta, sobre a ribeira do rio, de madeira sobre pilares e coberta ao modo de terraço". Igualmente neste contexto, no Passo Seco em Gondali, foi edificada uma torre provida de artilharia; os passos de Daugim e Agaçaim foram reparados e guarnecidos; em Pangim, a partir da antiga fortificação muçulmana, foi edificada uma couraça para o mar, que culminava num baluarte edificado na água e se destinava a segurar a entrada da barra do Mandovi. A complementar este sistema defensivo foi edificada uma torre no Passo de Naroá, localizado na Ilha de Divar, defronte da cidade de Goa. O sistema defensivo da ilha assentava então, como refere António Real, num conjunto de cinco fortalezas, guarnecidas com cerca de seiscentos homens, apoiadas por um efetivo de cerca de mil peões da terra e cem cavaleiros. Volvidas três décadas, o crescimento do tecido urbano de Goa tinha extravasado o seu perímetro amuralhado de origem pré ‑portuguesa, em virtude de se haver transformado na capital política do império oriental português, aí se estabelecendo o vice ‑rei e uma parte muito significativa dos diferentes organismos do Estado. Por volta de 1550, não obstante haverem sido construídas em Salcete e Bardez as fortalezas, respectivamente, de São João de Rachol (c. 1535) e dos Reis Magos (c. 1551), que formavam como que uma primeira linha de defesa dos ataques a partir da terra firme, haviam sido desmanteladas largas secções de muralha e o fosso encontrava ‑se em grande parte entulhado, o que gerou sérias preocupações não só aos responsáveis do Estado da Índia, mas também no reino, dado o agravar da situação político‑militar em torno de Goa, com a iminente conquista do império hindu de Vijayanagar pelos muçulmanos. Cientes, assim, da necessidade de reforçar todo o sistema defensivo da Ilha de Tiswadi (que constituía o hinterland necessário para o abastecimento da cidade) para além da necessidade de defender efetivamente a capital, chegaram ordens a Goa, no início da década de 1560, para que se iniciasse um duplo projeto defensivo - uma muralha ao longo da margem leste da Ilha de Tiswadi e uma nova muralha, de maior circuito, para a cidade de Goa. Conforme vinha expresso nas ordens régias, deveria primeiro ficar concluída a muralha da ilha e só depois se iniciaria a nova muralha da urbe. Entendia ‑se assim que a capital teria poucas hipóteses de resistir a um cerco no caso de a restante ilha ser ocupada pelos seus inimigos - Tiswadi seria o derradeiro baluarte do Estado da Índia. Ambos os projetos eram bastante ambiciosos do ponto de vista da engenharia militar; já o seu conjunto formava um desafio desmedido para as possibilidades económicas do Estado da Índia. Não obstante, o projeto teve pronto seguimento, pois chegavam a Goa as notícias da destruição de Vijayanagar (1565), rompendo o ancestral equilíbrio político ‑militar da região. As obras tiveram início sob o governo de Antão de Noronha (1564 ‑1568), começando ‑se o trecho de muralha provavelmente a partir do Passo de Benasterim em direção a norte, acompanhando o canal de Cumbarjua. Provavelmente, o objetivo último do alinhamento seria unir Benasterim ao Passo de Daugim (a norte) e também ao Passo de Agaçaim (no extremo sul do canal). Quando o ataque da coligação anti ‑portuguesa ocorreu, em dezembro de 1570, a muralha estava apenas nos seus primórdios. Contudo, a Ilha de Tiswadi resistiu ao desembarque das forças do sultanato de Bijapur, em parte devido à solidez do Forte de Benasterim. Durante o segundo período governativo de Luís de Ataíde (1578 ‑1581), ficou concluído o trecho entre Benasterim e Daugim, com uma extensão aproximada de cinco quilómetros e meio. Entre esta data e o início de Seiscentos, estava concluído um lanço de muralha entre Benasterim e a zona da aldeia de Assozim, mais a sul. Como foi referido, visava ‑se continuar a muralha até ao Passo de Agaçaim, cerca de sete quilómetros a sul, defendendo assim todo o canal de Cumbarjua. Paralelamente a esta tarefa, o Senado de Goa aprovou em 1596 a construção de um novo lanço de muro no sentido de ligar Nossa Senhora do Cabo, no extremo ocidental da ilha, a Agaçaim. Este trecho, passando por Goa Velha, ambicionava fortificar toda a costa sul da Ilha de Tiswadi e unir com a secção vinda do norte em Agaçaim, de modo a fechar "uma obra com a outra de forma a assegurar a desembarcação deste rio de Goa Velha, que é capaz e de tanto fundo", segundo carta do Senado de Goa ao rei. Contudo, estas obras rapidamente foram abandonadas, porventura por falta de meios financeiros. Com o alvorecer do século XVII, a ameaça inesperada dos holandeses determinava novas prioridades para a segurança da cidade de Goa e da Ilha de Tiswadi. Neste contexto, tornava ‑se fundamental defender as entradas dos rios Mandovi e Zuari e fortificar as praias a oeste, mais expostas a um ataque anfíbio. A embocadura do Rio Mandovi beneficiou de ampla fortificação, tornando ‑se um dos locais mais densamente fortificados da costa indiana. Para além de ampliações nos fortes de Aguada e Reis Magos (do lado de Bardez, na margem norte do rio), melhorou ‑se o passo de Pangim e construiu ‑se um forte numa praia a sudoeste daquele lugar, denominado Gaspar Dias, para cruzamento de tiro com o Forte dos Reis Magos. Na barra do Rio Zuari, iniciou ‑se uma fortificação na península de Mormugão e amuralharam ‑se zonas da praia perto do Convento de Nossa Senhora do Cabo, que também foi beneficiado. Estas obras aparentam ter sido concluídas cerca de 1620 e figuram na iconografia de Pedro Barreto Resende. Entretanto, a construção da muralha da ilha tinha estacado próximo da aldeia de Assozim, e a muralha da cidade de Goa permanecia um projeto adiado. Contudo, algures entre 1600 e 1615, tomou ‑se uma decisão no mínimo surpreendente do ponto de vista da engenharia militar: a "fusão" dos dois empreendimentos defensivos determinados em 1560; ou seja, a união do trecho de muralha insular já edificado com uma nova muralha que contivesse a cidade de Goa, pelos seus flancos sudoeste e oeste. Ainda não foi clarificado o contexto em que esta decisão foi tomada, mas conhecemos os seus resultados práticos: um perímetro defensivo com cerca de vinte e cinco quilómetros, circunscrevendo tanto a cidade de Goa como uma grande área rural. Deste modo, entre 1615 e 1660, construíram‑ ‑se cerca de quinze quilómetros de muralha, entre Assozim - ponto onde o alinhamento inflecte para o sentido noroeste - e o arco de Panelim, subúrbio ribeirinho a oeste da cidade de Goa. Quase todo este trecho percorria zonas de selva tropical, tornando a sua edificação muito árdua. Nas zonas de maciço laterítico, no chamado planalto de Kadamba, cavou ‑se, em certos segmentos, um fosso, tendo sido rasgadas algumas portas, nomeadamente nas vias que partiam de Goa para Neura, Goa Velha, Moulá e Talaulim. Vários baluartes, de dimensões modestas, pontuavam o perímetro. A oeste, o circuito abraçava ainda a Fonte de Banguinim, indo terminar sobre a margem do Rio Mandovi num arco ‑torre, conhecido como a porta de Panelim. Não será de espantar que, quando se trabalhava na zona oeste da muralha, já algumas partes das zonas mais antigas, a oeste, estavam em iminente ruína. O guarnecimento e defesa efetivos de uma muralha com tal dimensão constituíam tarefa praticamente impossível para o Estado da Índia, não apenas devido ao número reduzido de soldados disponíveis na época, mas também em virtude das características da própria muralha, que tinha em média cerca de três metros de altura por dois e meio de espessura. Pode‑se, assim, considerar a nova muralha da cidade de Goa como um fiasco da engenharia militar, uma construção de pouco valor estratégico para a defesa da cidade e de altos encargos financeiros para o Estado da Índia. Constatada a diminuição radical em população da cidade e o enfraquecimento em geral do império português no Oriente, a muralha tornava‑se cada vez mais uma obra ingrata e ineficaz, apesar de manter um valor emblemático para a cidade. À necessidade da sua conclusão ou restauro alude a correspondência entre o reino e os vice ‑reis durante meados do século XVIII, pelo que se pode inferir que ela nunca foi efetivamente concluída ou guarnecida. Por volta de 1670, a ameaça de invasão marata à Ilha de Tiswadi tornou ‑se uma preocupação constante para o Estado da Índia. Com a "nova" muralha já parcialmente arruinada e a população da cidade de Goa reduzida a uma fração, em novembro de 1683 o vice‑ ‑rei Francisco de Távora teve de se entrincheirar no centro da cidade enquanto aguardava o assalto das forças maratas, acampadas na Ilha de Santo Estêvão, à vista da cidade. Apesar de Goa ter escapado ao assalto marata, era efetivamente uma cidade moribunda e em grande parte abandonada, para além de indefesa. Data de então o ensejo da transferência da capitalidade para Mormugão. A cidade de Goa estava a ser desmantelada, sendo os materiais reaproveitados noutros locais. Resistiram apenas os vários conventos e igrejas que dominavam a cidade. Nos primeiros anos do século XVIII os portugueses conseguiram melhorar as suas posições defensivas em Bardez e Salcete, procurando expandir os limites do território em redor da Ilha de Tiswadi. Contudo, em 1739, nova invasão marata assolou Bardez e Salcete. Nessa ocasião, o território sob controlo efetivo da coroa portuguesa esteve praticamente reduzido à Ilha de Tiswadi. A partir de 1745, o território goês expandiu ‑se até encontrar barreiras naturais junto da cordilheira dos Gates. A cidade de Goa, outrora capital de um poderoso império, esvanecia ‑se e a inglória muralha escondia ‑se cada vez mais debaixo da selva, servindo, nas zonas menos agrestes, de fonte de material para outras construções. Salvando ‑se o Forte de Benasterim e o Convento de Nossa Senhora do Cabo, todas as estruturas defensivas se arruinaram na Ilha de Tiswadi. Grandes secções da muralha de Goa foram convertidas em estradas ou diques para várzeas. Noutras áreas, permaneceram como limites de terrenos agrícolas.

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