Forte de Nossa Senhora da Anunciada

Forte de Nossa Senhora da Anunciada

Kota Ambon [Ambom/Amboino], Maluku, Indonésia

Arquitetura militar

As origens do estabelecimento português em Amboino são obscuras. Remontam a 1515 as mais antigas menções a que os omrrados de Amboino - provavelmente os notáveis muçulmanos que compunham o conselho governativo de Hitu - estariam desejosos de que os portugueses construíssem uma fortaleza nas suas terras. Posteriormente, por indicação das autoridades de Hitu, os navios portugueses vindos de Malaca passaram a fundear numa enseada muito abrigada dos ventos no interior da baía que rasga a Ilha de Amboino em duas penínsulas, Leitimor e Hitu. A este surgidouro, situado entre as povoações de Tawiri e Hatiwi, os portugueses deram o nome de Cova.
Gonçalo de Freitas, filho de Jordão de Freitas, capitão de Maluco (1544‐1546), teria erguido ali, em 1544 ou 1545, um forte de madeira. Os seus habitantes, animistas da etnia ative (hatiwi), aceitaram o batismo e foram‐se cruzando com portugueses, dando origem a uma descendência mestiça. A influência portuguesa e cristã, que, mercê da ação dos jesuítas iniciada por São Francisco Xavier, se foi tornando significativa, suscitou a reação adversa dos naturais das Molucas. No arquipélago de Amboino, esta resistência aos portugueses e seus aliados cristãos era encabeçada por Hitu, com o apoio dos sultões de Ternate.
Na primeira fase do conflito, os portugueses ergueram fortes precários em vários pontos do arquipélago de Amboino. Os principais, além de Ative, eram Nusanive, na ponta sudoeste de Leitimor, e Ulat, na Ilha de Saparua. Em 1563‐1564, uma expedição enviada pelo vice‐rei conde do Redondo, Francisco Coutinho (1561‐1564), e comandada por António Pais estabeleceu um forte de madeira em Hitu, não dispondo de suficiente poderio militar para cumprir a instrução do vice‐rei de construir um novo forte de pedra em Nusanive, povoação situada à entrada da Baía de Amboino e protegida apenas por uma cerca de madeira, construída sob a direção do jesuíta Diogo de Magalhães. Tratava‐se de uma obra demasiado débil, muito aquém daquela que o vice‐rei projetara e que, com o forte de madeira construído em Hatiwi, constituía a totalidade do sistema defensivo português na Ilha de Amboino.
Os portugueses acabariam por abandonar, em 1565, todos esses fortes, incluindo o de madeira em Hatiwi. Perdidas estas posições, os jesuítas estantes nas Molucas enviaram a Goa, nesse mesmo ano, o padre Luís de Góis, com a incumbência de propor ao vice‐rei a conveniência de se construir em Amboino um forte de pedra. A justificativa avançada repousava na segurança do comércio e na proteção às comunidades ditas cristãs, dispersas pelas ilhas de Haruku, Lease, Ceram e Buru, além de Amboino propriamente dita, que ascendiam, em 1565, a 70.000 conversos, segundo as sempre inflacionadas cifras dos missionários.
A difícil situação em que se encontravam as posições detidas pelos portugueses na Insulíndia - em 1565, o estabelecimento dos missionários dominicanos em Solor foi atacado por uma armada javanesa - gerou algum alarmismo em Goa. Uma armada sob o comando de Gonçalo Pereira Marramaque foi enviada a Maluco com a missão de prender o sultão Hairun de Ternate e repor o controlo português sobre o arquipélago de Amboino, onde um forte deveria ser erguido. Entretanto, após o abandono por parte dos portugueses dos estabelecimentos que detinham em Amboino, a situação política neste arquipélago sofreu uma reviravolta, uma vez que Hitu, agora liberto dos portugueses, deixou de reconhecer a tutela do próprio sultão Hairun de Ternate.
Perante a pluralidade de locais onde o novo forte poderia vir a ser construído, Gonçalo Pereira Marramaque optou por cumprir as instruções que trazia de Goa para a erguer em Hitu, o que ia igualmente ao encontro das pretensões do sultão Hairun e levou à rejeição da alternativa mais acertada, que era a de construir junto do ancoradouro chamado "a Cova", onde habitualmente aportavam os navios da carreira de Maluco. Nos confrontos que se seguiram Hitu foi derrotado, criando‐se então as condições para a construção do forte, rapidamente erguido entre maio e julho de 1569.
Contudo, o desejo de abandonar aquele arquipélago depressa se instalou entre os portugueses sobreviventes da expedição de Marramaque, chefiados, desde a morte deste capitão‐mor, ocorrida em 1569, por João da Silva Pereira, sobrinho do capitão de Malaca, Leónis Pereira (1567‐1570). Porém, Sancho de Vasconcelos, um dos seus subordinados, que já ocupara o cargo de capitão‐mor de Goa, opôs‐se a tal decisão e logrou convencer uma parte dos portugueses a mudar o forte das praias de Hitu para o citado lugar do ancoradouro, no interior da baía. Convenceu também as diversas comunidades cristãs da ilha a ajudá‐lo nessa tarefa de construção da nova "fortaleza de pedra e cal em outro luguar mais defensivo", do lado de Nusanive, de cuja traça o próprio Sancho de Vasconcelos se encarregou, para substituir o velho forte de madeira, que, além de podre, estava mal situado por ter junto de si, de ambos os lados, elevações de onde poderia ser facilmente ofendido.
O mestre‐de‐obras foi um canarim - natural do Kanara, região costeira ao sul de Goa - "grande official", o qual ergueu "os quatro pannos" das muralhas e "hum baluarte da banda do mar" com "quatro guaritas em madeira". A obra, matriz original do atual Forte de Nova Vitória, foi concluída em apenas quatro meses, entre janeiro e junho de 1576. Contudo, o facto de ser da invocação de Nossa Senhora da Anunciada faz supor que a cerimónia da sua fundação e o lançamento da primeira pedra tenham ocorrido a 25 de março desse ano. Por outro lado, apesar de ter sido erguido em ritmo acelerado, o forte continuava ainda por concluir em 1588, ano em que já lhe estava assinalada uma guarnição de cento e cinquenta homens, em que se incluíam casados e moradores da terra, criados dos capitães, feitor, oficiais e vigias. Como anteriormente, continuava a não contribuir com receitas próprias para o orçamento do Estado da Índia, apesar de já fazer parte dele.
Sancho de Vasconcelos preservou e desenvolveu este entreposto português em Amboino, à frente do qual se manteve até 1591. Porém, a fortaleza enfermava de insuficiências várias. Segundo um jesuíta, "era muito fraca e soo parte dela em pedra e barro, que caia com a chuva e se podia com hum salto deçer do muro abaixo". Não surpreende, pois, que tenha recebido acrescentos e beneficiações por iniciativa do sucessor de Sancho de Vasconcelos e seu segundo capitão, António Pereira Pinto (1592‐1593), que, para esse efeito, trouxe consigo operários de Goa. Veio posteriormente, em 1602, a ser reduzida a menores dimensões por ordem de André Furtado de Mendonça, capitão‐general do Mar do Sul. Aquando da conquista pelos holandeses, em 1605, possuía uma traça quadrangular com quatro baluartes nos cantos, sendo dois virados ao mar, maiores e mais fortes do que os outros dois virados ao interior da ilha, como, aliás, as gravuras holandesas da época bem ilustram.
Por falta de mantimentos, Gaspar de Melo, então capitão do Forte de Amboino, e os seus demais defensores renderam‐se ao almirante holandês Steven van der Haghen em 23 de fevereiro de 1605, sem chegarem a disparar um único tiro. O forte seria rebatizado como Fort Vitoria, em 1614. O almirante van der Hagen demoliu as igrejas de Santiago e São Tomás, por ficaram situadas demasiado próximas dos fortes. Os enormes cruzeiros que se erguiam nas praças foram igualmente removidos. Atualmente, o forte continua a funcionar ativamente como base militar, sendo restringido o acesso às instalações e proibida a recolha de imagens.
Da presença portuguesa na Ilha de Amboino, além do Forte de Nossa Senhora da Anunciada, restam em Kaitetu (Hila) as ruínas do que a tradição diz tratar‐se de uma antiga igreja. Sob o domínio holandês, a identidade portuguesa continuou a ser reivindicada por grupos cristãos de descendentes portugueso‐asiáticos, denominados "portugueses pretos" pelos holandeses.

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