Liceu Salazar (Atual Liceu Josina Machel)

Liceu Salazar (Atual Liceu Josina Machel)

Maputo [Lourenço Marques], Maputo, Moçambique

Equipamentos e infraestruturas

O Liceu Nacional Salazar (actual Escola Secundária Josina Machel) foi o primeiro grande liceu a ser construído na capital de Moçambique, entre 1945 e 1952. O projecto, de 1939, foi desenvolvido em Lisboa, Portugal, pelo arquitecto José Costa e Silva (1911-), funcionário da Junta das Construções para o Ensino Técnico e Secundário (JCETS).

A expressão de monumentalidade é evidente na escala e no rigor de simetria compositiva do edifício, tendo sido considerado, nos anos 50, “a mais vasta e imponente construção para o ensino liceal, não só das Províncias Ultramarinas portuguesas, como de todo o território nacional. E [era] de crer que [fosse] das maiores do Mundo” (Boletim Geral do Ultramar, nº 345, vol. XXIX, 1954, p. 16).

Para se compreender o poder evocativo do regime representado neste Liceu, especialmente proclamado no patrono que lhe deu o nome – António de Oliveira Salazar – e a sua capacidade de representação da almejada ideia de progresso, leia-se a descrição entusiasmada de um periódico datado do seu momento inaugural: “Quando há oito anos vimos lançar os fundamentos do edifício que hoje se ergue majestoso quase sobre a baía, pensámos que alguma coisa de grande havia de surgir, digna de uma cidade que a merece. Ampla entrada, amplo pátio, no meio do qual a estátua do patrono do Liceu Salazar, solene no seu trajo de catedrático, dá ao ambiente uma majestade igual à que envolve toda a sua figura de homem da Nação. Em toda a volta pátios de recreio com campos de jogos feitos e apetrechados a preceito. Escadarias de mármore – “mármores nacionais expressamente vindos da Mãe-Pátria para enriquecer o mais belo, maior e melhor estabelecimento de ensino secundário do Império Português” (Liceu Salazar de Lourenço Marques. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1954, p. 8.) – corredores, campainhas, telefones, relógios. Um dédalo que se há-de tornar fami­liar a professores e alunos. Respira-se um ar de limpeza; entra a luz a jorros; parece que estamos na rua. E as salas sucedem-se claras, arejadas […]. Extensa área coberta, vastos corpos do edifício, salões de festas, salões de jogos, ginásios, salões de estar, biblioteca, piscina com dimensões olímpicas, balneários ricos de mármores, aparelhagem de ar condicionado, de filtragem de água, de projecção de filmes, cenários para teatro, camarins, maquinaria própria para trabalhos manuais, tudo quanto de moderno se pode encontrar – garantia se­gura de que o Estado pensa na educação da sua juventude, no futuro dos filhos dos seus cidadãos.” (“Inauguração do Liceu Salazar”. Boletim Geral do Ultramar, nº 329, vol. XXVIII, 1952, p. 148-150).

A monumentalidade como instrumento essencial de propaganda do Estado Novo está claramente presente ao longo dos seus 9.201 m2 de área coberta distribuídos pelos seus 29.000 m2 de recinto, organizados com base numa rigorosa simetria axial, ainda ligada ao sistema das Beaux-Arts. Porém, esta obra marca um momento de viragem que não pode ser ignorado na história da construção escolar nas colónias africanas. A comparação com o projecto que o mesmo autor elabora três anos antes (1936) para o Liceu Nacional de Luanda (ou Liceu Nacional Salvador Correia, actualmente Escola Mutu Ya Kevela) torna óbvia a distinção.  

No projecto de Luanda, o arquitecto argumenta que a procura de uma arquitectura que respondesse simultaneamente à evocação dos valores nacionais e às exigências de adaptação ao clima de Luanda foi resolvida com base em soluções dentro dos moldes oferecidos pela arquitectura alentejana e inspiradas nas edificações conventuais, permitindo enquadrar esta construção na atitude preconizada na metrópole durante os “duros anos 40”, em que o “acento […] monumentalista se aproximava de um vocabulário historicista e pitoresco, de uma narrativa classicizante […] defendida como nacional” (Ana Tostões - “Arquitectura Moderna Portuguesa: os Três Modos” in Ana Tostões (coord.) – Arquitectura Moderna Portuguesa 1920-1970. Lisboa: IPPAR, 2004, p. 118).  “A conveniência de dar à construção um carácter que evocasse a Mãe-Pátria levou a que se tenha posto deliberadamente de parte as normas arquitecturais modernas.” (José Costa e Silva – Projecto do Liceu Nacional Salvador Correia: Memória Descritiva e Justificativa, p. 2).

No Liceu Nacional Salazar, esse discurso conservador é totalmente abolido para dar lugar “à técnica da construção da época em toda a sua exuberância”. (José Costa e Silva – Projecto do Liceu Nacional Salvador Correia: Memória Descritiva e Justificativa, p. 20).

O betão armado assumiu o seu potencial técnico e estético, contribuindo para um resultado totalmente inovador, nas construções escolares da colónia, pela escala e pela racionalidade construtiva, reduzida quase exclusivamente à essencialidade dos seus elementos estruturais. A utilização dos novos materiais de construção aliada à cumplicidade do discurso vai tornar óbvia a identificação deste tipo de construção com a modernidade. Mais do que isso, marca finalmente o início de um discurso que articula directamente a concepção arquitectónica com as condicionantes locais impostas pelo clima: a arquitectura escolar moderna em Moçambique, voltando-se para o exterior, vai, a partir deste momento, conceber os espaços, e em particular as salas de aula, em compartimentos únicos entre fachadas opostas em contacto directo com o exterior. Nelas vão-se abrir grandes vãos, permitindo a ventilação natural permanente e a entrada de uma iluminação bilateral. Estes vão estar permanentemente protegidos pelas enormes galerias de circulação exteriores cobertas que asseguram o acesso, o sombreamento constante e a defesa das chuvas. A construção elevada a 1m do solo para combater a humidade por ele transmitida e a concepção da cobertura, agora plana, conjugada com o declive necessário ao escoamento das águas, em betão armado e com uma caixa-de-ar intermédia totalmente ventilada são também particularidades que exemplificam a adaptação da construção ao clima tropical patente nesta escola.

O compromisso entre uma monumentalidade estimada pelo regime e a inovação de uma linguagem arquitectónica baseada nos princípios do Movimento Moderno é patente na contradição dos sentimentos que se nutrem na época por aquela “imponente massa de cimento e ferro” (Liceu Salazar de Lourenço Marques. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1954, p. 7):

“Ao ver estes centos de crianças, eu evoco uma tarde de há treze anos, quando da visita do saudoso Presidente da República, o Marechal Óscar de Fragoso Carmona. Numa parada de ginástica que então se realizou, S. Ex.ª, apontando para as crianças que nela tomavam parte – metade, talvez, em número, das que estão dentro desta sala – dizia ao Excelentíssimo ministro das Colónias de então: «A nossa maior responsabilidade e a nossa segura garantia!». Hoje, dentro do cumprimento das imposições dessa responsa­bilidade, inaugura-se esta casa que, como disse V. Ex.ª – continuou o Sr. governador-geral, dirigindo-se ao Sr. Dr. Luís Moreira de Almeida – , será discutível sob vários aspectos, a começar pelo arquitectónico, mas é inegável ser uma instalação grandiosa para o Liceu de Salazar.” (“Ainda a Inauguração do Liceu Salazar”. Boletim Geral do Ultramar, nº 329, vol. XXVIII, 1952, p. 108-109).

 

Zara Ferreira

(Referência FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

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