Colónia do Sacramento

Lat: -34.472101812702000, Long: -57.852671517364000

Colónia do Sacramento

O Sul, Uruguai

Enquadramento Histórico e Urbanismo

A Colónia do Sacramento foi fundada nas margens do Rio da Prata pelo mestre‐de‐campo Manuel Lobo em janeiro de 1680, na sequência de uma incursão portuguesa em território que os espanhóis consideravam seu. Lobo formaria ali um casario provisório de choupanas de barro e palha, além de caboucos para lançar os alicerces e dar início às muralhas e bastiões provisórios, que teriam cerca de sessenta passos em forma de polígono quadrangular. Em agosto desse mesmo ano, o enclave é tomado pelo governador de Buenos Aires, José Garro, que aprisionou Manuel Lobo, o qual acabaria por falecer em Buenos Aires em 1683. No entanto, mediante um tratado celebrado em maio de 1681, a Espanha devolve a Colónia a Portugal, para continuar negociações diplomáticas, que durariam quase um século, com vários episódios bélicos de permeio. Por volta de 1683, uma nova expedição de Duarte Teixeira Chaves apodera‐se do que resta da Colónia, e a partir do governador d’Ornelas Abreu é instalado um eficaz sistema de contrabando económico com Buenos Aires. Ao mesmo tempo, vários artesãos desertaram da Colónia e radicaram‐se com sucesso em Buenos Aires, dando lugar a manifestações artísticas de integração luso‐hispano‐americana. A nomeação de Francisco Naper de Lencastre (1690) possibilitou a consolidação do núcleo populacional com famílias provenientes de Portugal e do Rio de Janeiro, incorporando igualmente mulheres, com o objetivo de arraigar a população predominantemente masculina. É destes últimos anos do século XVII e dos primeiros do século XVIII que datam as casas de muros de pedras assentes em barro e cobertas de telhas, que originaram a formação de olarias. Lencastre também empreendeu a obra das muralhas de faxina, taipa ou adobe, com cerca de quatro metros de largura e seis de altura. No sustento económico, o governador fomentou o uso do laço e do arreio por parte dos indígenas e povoadores, para formar grandes vacarias de gado bravio, cujas peles eram enviadas para o Rio de Janeiro, chegando mesmo a ser enviada carne salgada para o Porto. O governador Sebastião da Veiga Cabral impulsionou em 1699 a construção de um templo de pedra e cal e substituiu troços de muralhas, aumentando a sua espessura, para fazer frente à artilharia. No entanto, os conflitos entre coroas na Europa voltariam a colocar a Colónia no centro das hostilidades. Na sequência da nova guerra europeia entre Portugal e Espanha, em 1705, os espanhóis, com ajuda de um milhar de indígenas guaranis das missões, tomam o recinto fortificado da Colónia, enquanto navios portugueses recolhem o governador e a guarnição. A cidade é incendiada, antes de ser abandonada por disposição de Veiga Cabral, e as muralhas são derrubadas mediante a explosão de minas. Os espanhóis permanecem no domínio da Colónia até o Tratado de Utreque (1713) dispor o regresso da cidade a Portugal, o que sucede em 1715. Conduzida pelo governador Manuel Gomes Barbosa, a atividade dos portugueses tendeu, desde então, a fortalecer os laços de comunicação territorial com a Lagoa de Santa Catarina e ir consolidando núcleos urbanos ou pontos fortificados intermédios. Ao mesmo tempo, propiciava a transferência de 60 famílias portuguesas (1718) e tropas do Rio de Janeiro, que elevaram a população da Colónia para os mil habitantes. As atividades económicas do contrabando, a pecuária e o comércio do couro, juntamente com uma série de obras empreendidas a partir de 1722 pelo novo governador António Pedro de Vasconcelos, consolidariam, no seu mandato de 27 anos, uma cidade de características dinâmicas, em tenaz expansão territorial. As fortificações mudaram substancialmente, com muralhas revestidas de pedra, portas com pontes levadiças sobre o fosso e os clássicos baluartes de São Miguel, Santo António, São João e do Carmo. Em 1735, os espanhóis tornaram a atacar a Colónia, conduzidos pelo governador Miguel de Salcedo, mas o apoio de uma esquadra naval portuguesa em 1736 rompeu o assédio. Esta fez tenção de atacar Montevideu, mas a paz assinada em Paris deteve estas operações. Neste contexto, é de realçar a importância da fundação de Rio Grande em 1737, efetuada pelo brigadeiro José da Silva Pais, e a expansão sobre a Banda Oriental do Rio Uruguai, com a construção dos fortes de São Miguel e Santa Teresa, que seriam mais tarde dominados e completados pelos espanhóis, que, por sua vez, construíram Santa Tecla, que ficou em poder dos portugueses. Em 1723, a fundação portuguesa de um enclave na zona de Montevideu provocou a rápida reação do governador de Buenos Aires, Bruno Mauricio de Zavala, que fundou a cidade com este nome em 1724. As tensões fronteiriças permaneceriam até ao Tratado de Madrid de 1750, que se baseava no direito de uti possidetis, que deixava à Espanha a Colónia do Sacramento e entregava a Portugal sete povoações das missões jesuítas de guaranis. O levantamento dos indígenas guaranis na sequência deste acordo originou uma guerra entre 1754 e 1756, que os opôs às forças coligadas de Portugal e Espanha. Os guaranis foram derrotados, mas a sua resistência obrigou a cancelar o acordo de Madrid e a substituí‐lo por um tratado assinado em El Pardo em 1761. Um ano mais tarde, desencadeada a Guerra dos Sete Anos na Europa, os espanhóis, sob o comando de Pedro de Cevallos, formariam a povoação‐acam‐ pamento San Carlos, para sitiar a Colónia do Sacramento, que tomariam mais tarde, em 1762, passando o engenheiro Bartolomé Howell, de origem francesa, a colaborar com os espanhóis. Após o Tratado de Paz de Paris (1763), devolvida a Colónia, as relações entre Portugal e Espanha mantiveram-se pacíficas, tirando alguns conflitos na região das missões jesuítas de Moxos (Peru), na fronteira do Paraguai (Igatimí‐Curuguatí) e na Colónia do Sacramento, em virtude do controlo do contrabando. Contudo, a partir da disputa sobre as interpretações do Tratado de Paris em 1775, recrudesceram os conflitos bélicos em Rio Grande, e deu‐se o avanço português sobre San Pedro. Simultaneamente, uma frota espanhola a cargo de Cevallos tomou a Ilha de Santa Catarina, aprisionando o seu comandante, o engenheiro José Custódio de Sá e Faria, que passou ao serviço de Espanha, em inícios de 1777, na altura em que o marquês de Pombal abandonava o governo em Portugal. Em junho desse ano, Cevallos sitiou a Colónia do Sacramento e obteve a sua rendição, enquanto começavam na Europa as conversações de paz. Na sequência do Tratado de San Ildefonso de 1777, Portugal ficaria com as possessões que tinha ocupado na região amazónica, Mato Grosso e Rio Grande, enquanto a Espanha manteria a posse do Rio da Prata, das Missões jesuítas e da Colónia do Sacramento, que assim ficará definitivamente em mãos espanholas até à independência. Espanhóis provenientes da fracassada "Operação Patagónia" radicaram‐se na Colónia a partir de 1780 e expandiram a cidade para extramuros. Os novos povoadores paulatinamente introduziram modificações na traça e originaram finalmente a demolição das muralhas em 1859, mas este facto não foi mais que um sintoma da decadência física e material que a cidade viveu no século XIX. O crescimento demográfico da Colónia não foi demasiado dinâmico, e as políticas urbanas afetaram desde inícios do século XX a conservação do seu valioso património. Foi assim que, em 1911, por decisão municipal, foram demolidos os muros de pedra da antiga residência do governador português, formando a Praça Manuel Lobo e, ao mesmo tempo, originando transformações na traça urbana. Neste sentido, o prolongamento da Avenida Flores, atravessando o centro histórico, fragmentaria o núcleo urbano edificado da Colónia. Em 1917 o arquiteto e, mais tarde, exímio urbanista Mauricio Cravotto propugnava medidas para resgatar e preservar o conjunto histórico da Colónia, em tempos em que era muito difícil encontrar esta sensibilidade entre profissionais de formação academicista. Apesar disso, em 1930 foram realizadas vastas demolições próximo do conjunto de San Francisco, para a instalação das Obras Sanitárias do Estado (OSE). Em 1968, a preocupação com a revalorização patrimonial da Colónia levou à criação do Conselho Executivo Honorário das Obras de Preservação e Reconstrução da Antiga Colónia do Sacramento, que elaborou o plano de utilização e recuperação do conjunto, bem como a gestão do centro histórico, que compreendia cerca de 16 hectares com 33 quarteirões, três praças, quatro pracetas, 27 ruas e 282 imóveis registados. A 6 de dezembro de 1995, na cidade de Berlim, o centro histórico da Colónia do Sacramento foi declarado Património Mundial pela Convenção do Património Mundial da UNESCO. Entre os bens patrimoniais de origem portuguesa que se conservam na Colónia do Sacramento, nos seus aspectos urbanos podemos assinalar a persistência da traça na zona do centro histórico, em redor da Plaza Mayor e da Calle de la Playa e da Calle de los Suspiros, que conservam os testemunhos idílicos portugueses mais relevantes. Refira‐se igualmente a importância de se tratar de uma traça diferenciada do padrão habitual das cidades hispano‐americanas fundadas na região.

Arquitetura religiosa

Arquitetura militar

Equipamentos e infraestruturas

Habitação

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