Thane [Taná/Tane]

Lat: 19.199875000000000, Long: 72.983397222222000

Thane [Taná/Tane]

Área Metropolitana de Mumbai (Bombaím), Índia

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Localizada a cerca de trinta quilómetros a nordeste do centro de Bombaim, Taná constitui hoje em dia uma extensa zona periférica daquela metrópole indiana. Porém, durante vários séculos, Taná foi a principal cidade e porto da Ilha de Salcete e região envolvente, enquanto Bombaim permanecia uma obscura aldeia de pescadores. Conhecida desde o século VII, Taná desenvolveu‑se também como um importante local sagrado do hinduísmo, contando com vários templos e imponentes tanques. Durante o período português (1534‑1737), as manufaturas têxtil e de mobiliário de Taná eram das mais conceituadas de todo o Estado da Índia. Apesar de permanecerem muito poucos vestígios edificados da presença portuguesa, o desenvolvimento urbano de Taná suscita grande interesse, por ter sido um processo de adaptação e integração dos portugueses às estruturas e infraestruturas de uma importante cidade hindu.
Taná já se encontrava em declínio comercial quando foi atacada e pilhada por duas vezes pelos portugueses, em 1531 e 1533. Contudo, quando João de Castro a descreveu em 1538 ainda mereceram destaque os vários templos e tanques sagrados da cidade, para além da abundância em mantimentos, caça e madeira da Ilha de Salcete. Sobre as ruínas, junto aos templos e em redor dos tanques, os primeiros habitantes portugueses de Taná começaram a reabilitar a cidade. O núcleo principal de fixação era a zona do cais, na parte mais estreita do rio de Taná. Aqui localizavam‑se as estruturas da alfândega e a casa do capitão, esta possivelmente no local de outra preexistente.
A oeste da frente ribeirinha localizavam‑se as várias estruturas e tanques hindus, a principal reserva de material construtivo para os habitantes portugueses. A norte da ribeira de Rabodi ficava o bairro muçulmano, onde se reimplantou a indústria dos teares, ficando conhecido como o Bairro da Tecelaria. Apesar da reanimação económica de Taná, com a presença portuguesa a cidade nunca recuperou a sua anterior importância e densidade urbana. O carácter fragmentado e disperso da paisagem urbana levou a que os portugueses amiúde a designassem como vila de Taná.
Durante os primeiros vinte anos de presença portuguesa não houve praticamente atividade missionária em Taná e pouco se sabe acerca das primeiras estruturas religiosas, para além das datas de fundação. Assim, os jesuítas terão chegado cerca de 1555 e fundaram o Convento da Madre de Deus na frente ribeirinha, a sul do cais. Os agostinhos fundaram a Igreja e Convento de Nossa Senhora da Graça em 1574. Os franciscanos estabeleceram o Convento de Santo António cerca de 1582, e os dominicanos fundaram o Convento de São Domingos pouco depois. As casas das três primeiras ordens religiosas situavam‑se junto de tanques sagrados, e foram construídas com as pedras dos templos hindus arruinados. Curiosamente, não parece ter havido qualquer tentativa de implantar estruturas religiosas no bairro muçulmano. Para além destas estruturas conventuais, foram ainda edificadas a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, a Igreja da Misericórdia, a Igreja de São João Batista e a Igreja de Nossa Senhora das Mercês, já um pouco afastada da povoação.
As casas religiosas desenvolveram‑se acompanhando a atividade comercial da zona e a exploração de grandes propriedades agrícolas na Ilha de Salcete. Os fidalgos portugueses viviam em casas apalaçadas nas cercanias da cidade e ao longo dos rios que conduziam às zonas sertanejas do distrito de Baçaim. Cerca de 1635 António Bocarro referia a debilidade defensiva de Taná e, consequentemente, de toda a ilha. Existiam apenas três pequenas posições militares ao longo do rio de Taná e a povoação em si estava indefesa e exposta a um ataque a partir de terra firme.
Com a presença dos ingleses na Ilha de Bombaim a partir de 1665, Taná começou a perder importância enquanto porto mercantil. Os ingleses atraíam a Bombaim a indústria dos teares de Taná, permitindo a liberdade de culto no seu território. Em inícios do século XVIII a cidade entrava em nova fase de despovoamento, enquanto aumentava a ameaça militar dos vizinhos maratas, empenhados em expulsar os portugueses da Província do Norte. Em 1730, os portugueses tiveram de recorrer à ajuda de tropas inglesas para impedir uma invasão da Ilha de Salcete. De imediato iniciou‑se a construção de um forte, há muito demandado pelos habitantes.
A obra estava por acabar em abril de 1737, quando os maratas desencadearam em Taná a sua campanha militar de conquista da Província da Norte, a qual culminaria com a queda de Baçaim dois anos mais tarde. O forte e cidade foram rapidamente conquistados e praticamente todas as estruturas conventuais e religiosas destruídas, com a exceção do convento franciscano e da casa dominicana que estava no perímetro da nova fortificação.
Taná e a Ilha de Salcete permaneceram sob domínio marata até 1774, altura em que os portugueses reuniram uma força naval para intentar a reconquista do território. Avisados dessa operação, os ingleses anteciparam‑se e rapidamente ocuparam Salcete e Taná. Entretanto, a situação económica de toda a Ilha de Salcete tinha‑se se agravado durante o período marata. Ao viajar entre Versová e Taná em 1787, o polaco Anton Hove notou que, apesar de as aldeias estarem desabitadas, viam‑se por toda a parte ruínas de igrejas, capelas e casas do período português. Em 1853, a primeira linha de caminho‑de‑ferro construída na Índia uniu Bombaim a Taná. Progressivamente, Taná tornou‑se um subúrbio, acabando por ser completamente absorvida pelo crescimento metropolitano de Bombaim na segunda metade do século XX.
Subsistem pelo menos três vestígios da presença portuguesa em Taná: o forte (bastante alterado), o interior da atual Igreja de São João Batista (antiga igreja do convento franciscano) e as ruínas da Igreja de Nossa Senhora das Mercês, localizadas a cerca de três quilometros a noroeste do forte, e que mantêm as alvenarias originais. A zona da capela‑mor ainda apresenta o arranque de uma abóbada e a porta lateral revela alguma ornamentação. A fachada principal desapareceu por completo.
A norte e noroeste de Taná, únicas zonas da Ilha de Salcete que ainda não foram "engolidas" pelo crescimento de Bombaim, permanecem várias marcas da presença portuguesa, especialmente de arquitetura religiosa, embora existissem, em finais de século XIX, vestígios de casas senhoriais, torres defensivas, quintas, etc. Está por determinar de forma sistemática quantas ruínas sobreviveram.

Arquitetura religiosa

Arquitetura militar

Equipamentos e infraestruturas

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