Hurmuz [Ormuz/Hormoz/Armûz]

Lat: 27.092252991997000, Long: 56.453144009759000

Hurmuz [Ormuz/Hormoz/Armûz]

Golfo Pérsico | Mar Vermelho, Irão

Enquadramento Histórico e Urbanismo

A cidade portuária de Ormuz implantou-se na zona norte da Ilha de Gerum (Djarum), um território árido e seco, contrafortado a sul por um cordão de montanhas escarpadas, cuja variação de tonalidades fazia adivinhar as matérias que dali se extraíam: salgema e enxofre. De vegetação rara e escassas nascentes, o abastecimento em víveres e água doce provinha do exterior da ilha, em grande parte de Queixome (Qeshm) e Laraque (Laraq), mas também de outras regiões do extenso território que pertencia ao reino de Ormuz. Porém, à aridez da paisagem natural e ao seu clima tórrido contrapunha-se, em finais do século XV, a intensa atividade mercantil que animava a populosa cidade de Ormuz (foi fundada em inícios do século XIV, em consequência do abandono da primitiva cidade no continente). A posição estratégica à entrada do Golfo Pérsico, no estreito que recebeu o seu nome, entre as duas margens continentais, e as condições do porto fizeram dela o principal entreposto económico do Oriente. Comerciantes de diferentes regiões e continentes, como a Insulíndia, China, Índia, Pérsia, Arábia e Europa, ali se encontravam e faziam circular os seus produtos para outras zonas do mundo. Esta lucrativa atividade e as incontáveis riquezas transacionadas, em que se destacavam o trato de cavalos e o comércio de pérolas, conferiram-lhe uma imagem áurea de abundância sendo comparada, por diversos viajantes e autores, a um diamante: "dizem os moradores della, que o mundo he hum annel, e Ormuz huma pedra preciosa engastada nelle" (Barros, 1973, p. 108).
Controlar a capital deste vasto império marítimo, que abrangia as ilhas do Golfo e territórios dos dois lados do Estreito, era aceder ao âmago do apetecido comércio oriental. No âmbito da política expansionista do reinado de D. Manuel, em setembro de 1507, Afonso de Albuquerque e a sua armada conquistam pela primeira vez Ormuz. Após negociações com as autoridades locais, alcança-se um acordo que estabelece uma relação de protetorado, traduzida por Albuquerque na expressão "que ho Rey [de Ormuz] fosse Rey em nome do Rey de Purtugal" (Smith, s/d) e facultava privilégios comerciais, o pagamento de um tributo e o estabelecimento de uma feitoria. Com este último pretexto e sob a hostilidade latente do regente local, Afonso de Albuquerque toma a iniciativa de mandar edificar uma torre fortificada. Esta decisão não se alicerçava em nenhuma diretiva régia, o que motivou a contestação de muitos oficiais da frota portuguesa que eram obrigados a colaborar nos trabalhos de construção, em vez de cumprir a missão de que vinham incumbidos: o controlo da navegação comercial no Mar Vermelho. Em janeiro de 1508, a situação torna-se insustentável, obrigando ao abandono de Ormuz. No mesmo ano, Albuquerque tentará, em vão, recuperar o bastião perdido: as autoridades locais haviam tomado posse da fortificação e prosseguido as obras, circunstância que colocou sérias dificuldades às pretensões do capitão-mor. Em 1515, após várias negociações frustradas, alcançaria esse objetivo. Com uma armada numerosa cercou Ormuz e forçou o acordo de entrega da inacabada torre fortificada, que ocorreria a 30 de março, inaugurando-se então um período de mais de um século de presença portuguesa.
A fortaleza foi estrategicamente implantada na ponta norte da ilha, no esporão que separa as duas grandes baías portuárias, a do lado oriental, onde usualmente ancoravam os navios de maior calado, e a do ocidental, mais frequentada pelas terradas, pequenas embarcações que asseguravam o transporte de víveres e água para o abastecimento da cidade, além da comunicação entre terra e as naus fundeadas ao largo. A sul da fortificação, um largo terreiro precedia o aglomerado urbano. Foi seguramente para tornar a fortificação menos vulnerável a investidas a partir da cidade que se tomou a decisão de demolir o palácio real, descrito como um notável edifício fortificado de nove a dez torres, assim como algum casario adjacente, ação levada a cabo nos anos de 1539-1540, provavelmente associada às obras então realizadas de reforço da frente da fortificação manuelina. Em finais de Quinhentos, pelas mesmas razões, seria também destruída a Mesquita Maior, permanecendo apenas o colossal minarete, que sobreviveu até ao século XIX.
No longo período compreendido entre 1507 e 1622, a fortaleza foi o instrumento e o esteio fundamental da presença portuguesa. A sua estrutura conheceu uma evolução caracterizada por três fases construtivas: a torre inicial, a fortaleza manuelina, composta por uma cintura de muralhas com torreões e cubelos, e a fortaleza abaluartada (as duas primeiras estão representa das no precioso desenho de Gaspar Correia, para a última existem vários documentos iconográficos). Afonso de Albuquerque foi o mentor e lançou os fundamentos das duas primeiras, embora a fortaleza manuelina só alcance o seu término já no reinado de D. João III; entre finais da década de 40 e a de 60 do século XVI, concretiza-se a última fase.
Durante este trajeto histórico, embora se tenham verificado algumas revoltas, estabeleceram-se elos de proximidade com a heterogénea e multicultural população local, tendo parte do contingente português, nomeadamente funcionários régios, optado por se instalar na cidade, constituindo família e numerosa descendência. Ilustrativa desta relação é a circunstância de o rei de Ormuz, Salgur-Shâh II, em carta que dirige a D. João III, considerar dispensável o cargo de tradutor oficial porque "aqui já toda a gente sabe falar português" (Nasiri-Moghaddam, 2008).
As marcas portuguesas no tecido urbano não se confinaram, contudo, à ocupação de parcelas habitacionais. A organização de um amplo terreiro, no qual se destacava o pelourinho, erguido em 1515; o hospital, já existente em 1516; a Igreja e o Hospital da Misericórdia, cujo templo estava arruinado em dezembro de 1622; as suas estruturas remanescentes e a lápide funerária do fundador, "P. NETO", falecido em 1601, foram encontradas por Hossein Bakhtiari nas escavações arqueológicas de 1977; o edifício da Alfândega, junto à praia; o Convento de Nossa Senhora da Graça (dos agostinhos), iniciado em 1573, na zona levante do aglomerado, e o Convento de Nossa Senhora do Carmo (das carmelitas descalças), inaugurado em 1612, são alguns dos elementos e edifícios que se impuseram no casco urbano ou na orla ribeirinha. Existiu, por outro lado, uma apropriação simbólica do espaço da ilha, sacralizando-se as elevações mais proeminentes com edifícios de culto cristão, como as ermidas de Santa Luzia, Nossa Senhora da Esperança e Nossa Senhora da Penha, anteriormente um eremitério islâmico (que se supõe ser a que Kleiss designa por "Nossa Senhora da Rus" ou "Nossa Senhora da Montanha" num desenho de levantamento das estruturas arqueológicas). Destes e de outros edifícios, por vezes representados nas raras gravuras da época e que a documentação histórica refere pontualmente, restam poucos vestígios, que só a arqueologia poderá vir a identificar.

Arquitetura militar

Equipamentos e infraestruturas

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