Caconda, vila e missão

Lat: -13.734217013898000, Long: 15.060508001069000

Caconda, vila e missão

Huíla, Angola

Enquadramento Histórico e Urbanismo

O Presídio de Caconda, origem da vila, foi estabelecido em 1682 pelo governador João da Silva e Sousa, a norte, na Hanha, onde terá recebido o nome de um dos chefes imbangalas da região. Em 1769, o governador‐geral Sousa Coutinho transferiu‐o para o local definitivo, Catala, junto do Rio Catapi, nos domínios do chefe Citata (ou Kitata), que se afastou para oeste. Sousa Coutinho imaginou e mandou fundar povoações portuguesas pelo sertão de Benguela, mas até finais do século XIX Caconda (então designada por Linhares ou Contins), no extremo sudoeste do planalto central angolano, foi o limite ocidental do domínio português. Não longe do rio, a pequena fortaleza consistia em paliçadas reforçadas com barro e pedra e, no interior do recinto, algumas cubatas, duas ou três casas de pau‐a‐pique e depósito de munições, tudo coberto a capim. Protegiam‐na algumas peças de artilharia e uma reduzida guarnição. O capitão‐mor era chefe militar e civil, e o seu poder estendia‐se, teoricamente, sobre as aldeias e chefes africanos até algumas dezenas de quilómetros do Presídio. A povoação, de habitações igualmente precárias, espalhava‐se em redor, sendo a maioria dos habitantes negros e mestiços que viviam do comércio, da agricultura e de ocasionais expedições de saque a terras próximas.
Local de degredo para criminosos e dissidentes políticos, mas também grande entreposto do comércio entre o interior e Benguela, floresceu com o tráfico de escravos e acompanhou o auge e decadência do comércio do marfim e da borracha. A rota de Caconda tinha sobre outras a vantagem de ligar Benguela ao planalto, evitando os rios de grande caudal e as baixas pantanosas, seguindo‐se dali para o Bié (Viye), porta comercial para a África central, ou para as terras ditas dos ganguelas. A concentração de mercadorias atraía razias dos povos "do Nano", sobretudo do Huambo, Bailundo e Galangue. Por sua vez, as tropas portuguesas e seus aliados invadiram territórios vizinhos para impor "vassalagens" ou obter despojos de guerra. Em 1885, foi ali instalada a Colónia Penal Rebelo da Silva, mas os planos de desenvolvimento agropecuário falharam, a despeito das tentativas de um agrónomo oficial, perante a febre do negócio da borracha e da cera e a persistên‐ cia da escravatura. Como a aguardente era a principal moeda de troca, proliferavam plantações de batata‐doce e alambiques. A presença ao longo dos tempos de comerciantes, militares, escravos e degredados de várias origens deu características específicas aos habitantes da sociedade de fronteira que era Caconda. Nela se mesclaram heranças genéticas e culturais da África, Europa e América: práticas agrícolas, nomes de família, trajes, armas e táticas de guerra, escrita, técni‐ cas de construção, religião. Por isso outros povos chamaram aos de Caconda vimbali (singular cimbali, em português quimbar), aqueles que adotam costumes dos brancos. A ação dos missionários espiritanos e das irmãs de São José de Cluny, estabelecidos perto da vila na última década do século XIX, reforçou a influência cristã e europeia, ampliada por catequistas e famílias católicas para diversas zonas do centro‐sul de Angola. Caconda perdeu importância comercial quando o Caminho‐de‐Ferro de Benguela, contrariando as expectativas, passou a mais de cem quilómetros a norte. Mas já em 1930 a atividade agrícola e pecuária sustentava setenta casas comerciais e havia uma centena de fazendas europeias na região. Por essa época a vila abandonara as ruínas da antiga fortaleza, as velhas casas de adobe e a igreja, várias vezes destruída por chuvas ou incêndios. Passava a estender‐se para norte, numa avenida ladeada de residências e quintais murados, com hortas e árvores de fruto. Mais acima situavam‐se outras casas, a escola primária e novos edifícios da administração. Sendo passagem obrigatória na via rodoviária de Nova Lisboa (Huambo) a Sá da Bandeira (Lubango), havia sempre clientes para o Hotel Central e o modesto Hotel Caconda.
Em 1954, foi elaborado o Plano Geral de Urbanização, pelo Gabinete de Urbanização do Ultramar, dos arquitetos João António Aguiar e Fernando Batalha. Este plano procurava dar resposta às necessidades de ordenamento urbano, originadas pelo grande desenvolvimento comercial e agrícola de que Caconda foi sendo alvo nos anos 1950. O limite da área urbana fazia‐se pela via que circundava o seu perímetro, deixando claras as vias de ligação a outras cidades. Em 1973, foi elaborado novo plano, este do arquiteto Vasco Morais Soares (Plano de Zonas de Ocupação Imediata). Nas décadas seguintes a povoação cresceu e modernizou‐se, ganhou igreja nova, jardim público, clube recreativo. Mas com raras exceções, fosse no "bairro popular" ou nas residências mais prósperas, os edifícios eram de um só piso e grupos de casas intercalavam com terrenos baldios. Após 1975, a vida urbana de Caconda não sobreviveu à guerra e ao isolamento, mas começou a renascer a partir de 2002.

Arquitetura religiosa

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