São João del-Rei

Lat: -21.136513888889000, Long: -44.261850000000000

São João del-Rei

Minas Gerais, Brasil

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Nos anos 1702‐1704, bandeirantes paulistas e taubateanos descobriram ouro em morros e ribeiros das proximidades do Rio das Mortes, na porção meridional da futura capitania de Minas Gerais. Ali surgiram dois arraiais principais: primeiramente, o de Santo António (atual cidade de Tiradentes) e, em seguida, o "arraial novo" de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, mais tarde São João del‐Rei. Em 1709, o Conselho Ultramarino recomendava que uma das três primeiras câmaras a serem criadas na região mineradora deveria se localizar neste último povoado, devido à sua posição privilegiada em relação aos caminhos que ligavam as minas ao Rio de Janeiro e a São Paulo. No entanto, pro‐ vavelmente devido aos conflitos entre paulistas e reinóis, a chamada Guerra dos Emboabas, em 1707‐1709, que foram particularmente violentos e duradouros no Rio das Mortes, somente em 1713 a povoação ganharia foros de vila, e um novo nome, São João, em memória "de El Rey Nosso Senhor". Segundo os conselheiros régios, as novas vilas deveriam ser fundadas "em pouca distância dos ribeiros principais do ouro, porque estes devem ser precisamente os que devem regular a situação das vilas". Porém, as autoridades da capitania logo perceberam que a coexistência de habitações e de "serviços de minerar" nos mesmos terrenos era prejudicial tanto à atividade extrativa quanto à consolidação e "aumento" dos núcleos urbanos. Em 1717, ao passar por São João del‐Rei durante sua viagem de São Paulo a Minas, o governador D. Pedro de Almeida, conde de Assumar, espantou‐se com o aspecto da povoação, que, podendo ser uma das mais bem plantadas vilas da capitania - pois dispunha de um sítio relativamente plano - era uma das piores, "por ter quase todas as casas de palha, e umas muito separadas das outras e juntamente pelas lavras de ouro, que ficam tão perto delas, que hoje se fazem, amanhã se botam em terra para trabalhar, o que causa toda a irregularidade." Na realidade, ao criar a vila, em 1713, o governador precedente havia decidido mudar a povoação de lugar, separando‐a das minas de ouro; o núcleo deveria se desenvolver em torno do pelourinho, que ele fixou, "a contento e com aprovação dos moradores", na "chapada do morro que fica da outra parte do córrego, para a parte do nascente do dito arraial, por ser o sítio mais capaz e conveniente para se continuar a dita vila". Mas, ao contrário do que diz o documento, a decisão não contara com o apoio da maior parte da população, que se recusou a transferir o povoado para a margem direita do córrego, preferindo continuar residindo sobre as lavras auríferas, a fim de vigiá‐las de perto. Em 1719, quando foi construída a primeira ponte sobre o Córrego do Lenheiro, a Matriz de Nossa Senhora do Pilar era um dos poucos edifícios que haviam sido transferidos para o sítio escolhido pelo governador. Por esta razão, em 1721 decidiu‐se pela reconstrução da igreja em local mais cómodo para os fregueses, ou seja, no arraial primitivo, "dentro do corpo" ou do "coração da vila". É possível que, por esta época, as minas situadas na margem esquerda do córrego já estivessem esgotadas, ou inativas, não havendo mais razão para se impedirem novas construções no local. O templo foi levantado com frente para a principal via urbana, que corria paralela ao cór‐ rego - a Rua Direita - em cujas extremidades seriam instaladas, posteriormente, duas outras igrejas: Nossa Senhora do Carmo, e Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Segundo uma descrição da vila, realizada por volta de 1750, o conjunto formado pelas três igrejas "olhando uma e para outra com a matriz em meio, fazem uma vistosa perspectiva". Nas proximidades da nova matriz se situaram outros elementos arquitetónicos importantes: a Cadeia, a Casa de Câmara, e o pelourinho, que também foi trasladado para a margem esquerda do Lenheiro. Somente a partir de 1740 aparecem construções importantes no local que se havia previsto para o desenvolvimento da vila (margem direita): a segunda Casa da Intendência, a primitiva Capela de São Francisco de Assis e o Hospício da Terra Santa; no final do século, surgem ali a Capela de São Gonçalo (ca. 1772) e a Santa Casa (ca. 1783). Duas pontes de pedra sobre o Lenheiro também foram erguidas nesta época: a da Cadeia (1797) e a do Rosário (1800). Porém, em uma aquarela de Rugendas, percebe‐se que, em 1824, a margem direita do córrego achava‐se ainda ocupada de maneira bastante esparsa. São João del‐Rei foi uma das vilas mais prósperas das Minas setecentistas - e isso graças não só à mineração, mas também à agricultura, que já existia antes da descoberta do ouro, e sobretudo à atividade comercial. De facto, desde os primórdios do povoamento da capitania, a região do Rio das Mortes constituiu um celeiro para outras zonas mineiras, e a partir de meados do século XVIII ela contribuiu também para o abastecimento do Rio de Janeiro. Além disso, a condição de sede da Comarca do Rio das Mortes acentuou o poder de polarização da vila sobre toda a porção sul da capitania. Ao contrário de outros núcleos setecentistas, São João del‐Rei manteve‐se próspera durante o século XIX e as primeiras décadas do século XX, e a chegada da estrada de ferro, da mão‐de‐obra estrangeira (italiana, sírio‐libanesa) e da indústria têxtil teve repercussões visíveis na sua paisagem urbana. Se nas décadas de 1930 e 1940 a classificação do conjunto arquitetónico e urbanístico da cidade assegurou a preservação da maior parte dos edifícios religiosos, por outro lado o casario e o traçado urbano colonial sofreram diver‐ sas descaracterizações, motivadas pelo desejo de "progresso" e de "modernização" manifestado pelas novas elites locais. No entanto, algumas edificações construí‐ das nesta fase da história de São João del‐Rei são dignas de interesse, como o conjunto eclético do chamado "Complexo Ferroviário", classificado na década de 1980 pelo Conselho do Património Histórico Municipal, com o aval do SPHAN.

Arquitetura religiosa

Equipamentos e infraestruturas

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