Mariana

Lat: -20.378000000000000, Long: -43.416683333333000

Mariana

Minas Gerais, Brasil

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Além do papel primordial que desempenhou na história política, religiosa e social de Minas Gerais, a cidade episcopal de Mariana apresenta um grande interesse no que toca ao processo de formação do seu conjunto arquitetónico e urbanístico, de especial relevância no âmbito da história do urbanismo colonial português. Costuma‐se dizer que ela foi a primeira "cidade projetada" do Brasil, e o único núcleo setecentista de Minas Gerais a apresentar um traçado regular, o qual teria sido concebido pelo engenheiro militar português José Fernandes Pinto Alpoim. A realidade é, no entanto, mais complexa. Se é certo que a sede do bispado mineiro constitui o exemplo mais evidente e documentado de intervenção regularizadora em Minas, por outro lado já se comprovou que não se trata de um caso isolado, e que o traçado do chamado "centro histórico" não deve ser associado exclusivamente ao plano de Alpoim. Vários outros indivíduos e diferentes instâncias do poder civil e religioso participaram de maneira significativa na construção deste espaço urbano, bem como a própria população, que também interferiu no processo, ora se submetendo, ora reagindo às decisões das autoridades. Deve‐se lembrar, ainda, que o traçado reticular implantado na "parte nova" da cidade veio colar‐se a uma estrutura urbana preexistente, que constituiu um elemento condicionante para o suposto "projeto" do engenheiro. Com efeito, a fase inicial da formação do espaço da cidade foi semelhante à de outros núcleos mineradores. De acordo com a versão oficialmente aceita, foi em 1696, no dia 16 de julho, que as bandeiras paulistas de Miguel Garcia e do coronel Salvador Fernandes Furtado descobriram fabulosos depósitos auríferos no leito e nas margens do ribeirão, afluente do Rio Doce, que batizaram de Nossa Senhora do Carmo. Uma pequena ermida com esta invocação foi logo construída num pequeno planalto, dando origem ao núcleo primitivo, que tomou o nome de Mata Cavalos. Por volta de 1703, a Capela de Nossa Senhora do Carmo transformou‐se na primeira matriz do povoado - e de toda a zona aurífera, segundo o historiador Diogo de Vasconcelos - e a via em que se situava passou, naturalmente, a ser chamada Rua Direita, conforme a tradição portuguesa. No mesmo período, o português António Pereira Machado construiu uma nova capela, junto às suas lavras, na parte baixa da povoação, tendo por orago Nossa Senhora da Conceição. Em 1707, o padre Manoel Braz decidiu instalar ali a matriz, pelo facto do templo se situar no "arraial de baixo", num sítio "mais cómodo ao culto"; foi então empreendida a primeira de uma série de reformas e ampliações pelas quais passaria o edifício até se tornar a Sé atual. Devido a esta transferência, o "caminho de cima", que saía de Mata Cavalos e desembocava diante da igreja, tornou‐se a nova Rua Direita, onde, a partir de meados do século, surgiriam alguns dos mais belos sobrados da cidade. Em 1711, o governador António de Albuquerque escolhia o arraial de Nossa Senhora do Carmo para criar a primeira vila da região das minas. Em torno do largo da nova Matriz de Nossa Senhora da Conceição, foram situados outros símbolos do poder colonial, como o tosco pelourinho, além do edifício que serviu provisoriamente de cadeia. No entanto, nas décadas de 1730 e 1740, grandes cheias do Ribeirão do Carmo, provocadas pela atividade mineradora, inutilizaram parte da povoação, atingindo inclusive a igreja. Justamente nesta época, o rei decidiu que a sede do novo bispado criado para Minas Gerais deveria se localizar na Vila do Carmo, que passaria a se chamar cidade de Mariana, em homenagem à rainha Maria Ana d’Áustria; para isso, a matriz seria transformada em catedral (Sé), com a invocação mudada para Nossa Senhora da Assunção. Em setembro de 1745, D. João V se dirigiu ao governador Gomes Freire, encarregando‐o de "fazer planta e arruamentos das ruas que de novo se devem fazer em sítio livre das inundações do rio". Suas ordens deveriam ser executadas sem demora, pois a cerimónia de posse do primeiro bispo não poderia ocorrer num cenário de ruínas. O processo foi, porém, bastante lento, em parte devido à oposição de diversas autoridades - entre as quais o governador Gomes Freire, e a Câmara de Vila Rica, a qual também cobiçava o título de cidade e a função de sede episcopal. Na ordem régia de 2 de maio de 1746, D. João V comunicava ao governador que a organização do novo espaço urbano - a ser construído nos antigos pastos do quartel dos dragões, atrás da catedral - seria de competência exclusiva da câmara, e transmitia aos oficiais as regras a serem respeitadas. Além de outras recomendações, o rei determinava que a planta da nova povoação deveria compor‐se de ruas "direitas", e todos os edifícios deveriam "fazer a face das ruas, cordeadas as paredes em linha reta". Mariana parece ter sido o único núcleo mineiro do período a constituir objeto de uma carta régia deste teor, o que demonstra o valor simbólico e estratégico da sede episcopal. No entanto, em novembro de 1748, quando o primeiro bispo fez sua entrada triunfal na cidade, este cenário ideal estava longe de estar concluído. Assim, as procissões (descritas no célebre documento "Áureo Trono Episcopal") tiveram que ser organizadas de maneira a evitar as ruas principais e as travessas da "parte nova" - onde, devido a um processo especulativo, as quadras estavam ainda pouco preenchidas de edifícios. Somente na segunda metade do século surgiriam os edifícios institucionais que hoje conhecemos, bem como a maior parte do casario - cuja construção nem sempre obedeceu às recomendações régias, apesar do esforço da câmara, que publicou diversos bandos e editais neste sentido. O traçado urbano policêntrico de Mariana, pontilhado pelas igrejas, Passos da Paixão e chafarizes, revela aspectos essencialmente característicos da mentalidade barroca, apresentando perspectivas de inegável efeito cénico. Além da topografia mais amena e do traçado reticulado da "parte nova", a paisagem urbana caracteriza‐se por uma rica sequência de praças (Sé, Gomes Freire, Casa de Câmara) com formas, usos e valores distintos. A mais notável delas é, sem dúvida, o largo para onde se transferiu o pelourinho. Ali foram construídas, quase simultaneamente, a Casa de Câmara e Cadeia, e as igrejas das ordens terceiras do Carmo e de São Francisco. A serenidade com a qual os dois templos ali se defrontam é enganadora: as duas ordens eram rivais, e o privilégio de ocupar um espaço tão nobre foi objeto de uma acirrada disputa em meados do século XVIII. Embora o acabamento de alguns destes edifícios tenha se prolongado até o início do século XIX, podemos considerar que no final do XVIII já estava constituído praticamente todo o acervo arquitetónico que, no final da década de 1930, seria incluído na lista de bens classificados. Em 1945, Mariana foi declarada Monumento Nacional. A classificação inicialmente incluía a cidade como um todo, abrangendo inclusive a paisagem natural circundante. Entretanto, na prática, foi somente uma parte bastante restrita da margem direita, limitada pelo ribeirão e pelos córregos do Catete e do Seminário (a qual passou a ser informalmente chamada "centro histórico") que pôde ser relativamente protegida da ruína e das intervenções descaracterizadoras. A margem esquerda do ribeirão (onde se encontra a Igreja do Rosário) assim como os "bairros" que abrigavam as antigas capelas (Nossa Senhora do Carmo, São Gonçalo, Santana) não mereceram muitas atenções do serviço de proteção do património (nem das sucessivas administrações municipais), e logo se viram excluídos dos roteiros turísticos. Não por acaso, foi nestas áreas que, a partir da década de 1960, a cria‐ ção de novas áreas habitacionais - destinadas a abrigar principalmente a população de baixa renda - ocorreu de maneira mais desordenada.

Arquitetura religiosa

Equipamentos e infraestruturas

Habitação

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