Casa da Torre de Garcia d’Ávila e Capela de Nossa Senhora da Conceição

Casa da Torre de Garcia d’Ávila e Capela de Nossa Senhora da Conceição

Mata de São João, Bahia, Brasil

Arquitetura religiosa

As ruínas da Casa da Torre de São Pedro de Rates, assim denominada por seu fundador, estão situadas sobre uma colina de onde se domina uma grande extensão de costa, em Tatuapara, ao norte de Salvador, distando 1.200 metros do pequeno porto natural onde existia uma pequena fortificação e uma povoação, hoje denominada Praia do Forte, e a igual distância da foz do Rio Pojuca. Garcia D’Ávila chega à Bahia em 1549 com Tomé de Souza, se estabelece em Itapagipe, transferindo‐se depois para o Rio Vermelho e Itapuã, para fixar‐se definitivamente em Tatuapara, em sesmaria doada pelo primeiro governador‐geral, em 1561. A construção desta grande residência nobre se faz provavelmente em três etapas. A primeira, por volta de 1570, compreendendo a capela de planta hexagonal e a pequena casa anexa voltadas para o poente, com forte influência renascentista; a segunda, provavelmente entre 1660 e 1676, em forma de "U" com pátio de honra tipicamente barroco voltado para nascente, e uma terceira, da segunda década do século XVIII, constituída por uma ala articulada ao corpo principal por uma abóbada que servia de entrada pelo norte. A primeira etapa teria sido feita pelo próprio Garcia d’Ávila, quando ele já era um homem rico, com arqui‐ tetos, pedreiros e estucadores vindos da Europa e pedras trazidas de longe. Seu sistema construtivo é muito requintado, com abóbadas de arestas servindo de piso ao andar superior da casa e cúpula sobre pen‐ dentifs recobrindo a capela. A capela de planta hexagonal é comprovadamente quinhentista e foi descrita por Gabriel Soares (1584) e Cardim (1596). Não há exemplo anterior em Portugal senão coevo: São Gregório de Tomar. A segunda etapa é construtivamente mais simples, utilizando ferruginoso da região e assoalhos ao invés de abóbadas, e corresponde ao período de maior expansão das propriedades da família no Piauí e Maranhão, empreendida por Francisco Dias D’Ávila II. Desta etapa seria a construção de uma almenara na extremidade sul da mansão, separada da casa por um passadiço de lajões de arenito sobre arcos. Com ela se alertava a capital da aproximação de barcos inimigos, através de sinais de fogo e fumo que eram retransmitidos por postos intermediários. Não há vesígios de que tenha existido uma torre no corpo da casa, senão esta almenara. Convém lembrar que "casa de torre" no Minho, onde está situado Rates, e de onde vieram seus fundadores, é sinónimo de solar rural, como observa Smith. A autoria do risco desta segunda etapa poderia ser do beneditino Frei Macário de São João, não só pela semelhança construtiva de outras obras atribuídas a ele, como a Casa de Câmara e Cadeia de Salvador, como pelas boas relações dos Ávila com a ordem. A terceira etapa, já desaparecida, teria sido iniciada em 1716 com a contratação no Porto de dois mestres pedreiros e um oficial pedreiro para trabalharem em Tatuapara por um ano por ordem de Garcia D’Ávila Pereira, primeiro da família a receber título de fidalgo e que moveu guerra aos índios no Piauí, aumen‐ tando as propriedades da família. Essa ala devia abrigar escritórios e oficinas para atender as crescentes demandas das novas conquistas. Esta ala, continuada por muros, fechava um grande pátio para onde se abriam a capela e a primeira casa. O conjunto está classificado pelo IPHAN.

Paulo Ormindo de Azevedo

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