Colégio do Espírito Santo e Igreja de Nossa Senhora da Conceição ou de São Paulo

Colégio do Espírito Santo e Igreja de Nossa Senhora da Conceição ou de São Paulo

Diu, Guzerate, Índia

Arquitetura religiosa

O documento escrito mais fidedigno sobre este edifício foi visto por Cunha Rivara em janeiro de 1859: uma inscrição pintada "no corpo de uma janella tapada" na igreja: "Aos 7 de Abril de 1601 no sabbado antes da Dominga de Passione o Governador desta Praça Duarte de Mello com o Reverendo Padre Vigario da Vara Manoel Fernandes lançarão a primeira pedra na Capella desta igreja que delineou o Padre Gaspar Soares da Companhia de Jesus, e pera lembrança se fez este padrão no anno de 1710". Recolhendo esta informação e outras publicadas em Goa nos séculos XIX e XX, o padre Catão escreveu que a igreja e o colégio foram construídos entre 1601 e 1606, que a igreja foi "reedificada" em 1807, "melhorada em 1873 e lageada em 1888". Deste modo podemos assumir que a igreja e o colégio dos jesuítas em Diu foram construídos entre 1601 e 1606, data indicada pelo padre Catão sem nota de fonte; que o arquiteto da igreja foi o padre Gaspar Soares (fundador - e traçador? - em 1606 do colégio da Companhia em Rachol, Goa, como sabemos pela crónica de Francisco de Sousa); que em 1710, por razões desconhecidas, alguém resolveu fazer recordar a obra e o seu fundador fazendo colocar uma inscrição numa das janelas da igreja; que houve obras de teor indiscriminado na igreja e/ou no colégio em 1807 e 1873; e que a igreja foi pavimentada de novo em 1888. É possível, todavia, avançar uma hipótese sobre a obra que terá ocorrido em 1807. O edifício do antigo colégio - hoje ocupado por vários programas paroquiais - encosta ‑se ao flanco norte da igreja. É um quadrilátero regular articulado por um claustro quadrado com seis tramos por lado no piso térreo. A fachada principal do colégio, paralela à da igreja, está separada desta pelo espaço ocupado pela escada que dá acesso ao piso superior do claustro, uma escada de tipo espanhol, de lanços abertos subindo numa caixa quadrada, sustentados por pilares, aparentemente a única deste tipo existente na antiga Índia portuguesa. Esta escada exprime ‑se no exterior por um tramo como que escavado a toda a altura da fachada e rasgado por janelas quadradas. O resto da fachada é absolutamente invulgar para um edifício colegial dos séculos XVI, XVII ou XVIII: a nível do piso superior abre ‑se uma arcaria de tipo loggia, constituída por onze arcos separados por pilares, terminando na esquina do edifício sem marcação do cunhal. A fachada onde se abre esta loggia e o conjunto de portas e janelas colocadas irregularmente no piso térreo parecem ter sido acrescentados ao quadrilátero do colégio, porque as divisões a que correspondem duplicam outras servidas diretamente pelas galerias do claustro. É como se tivesse sido anteposta uma cortina ou fatia nova à face nascente do colégio. Uma panorâmica executada pelo engenheiro militar José Aniceto da Silva em 1833, atualmente no Arquivo Histórico Ultramarino, representa a fachada como a vemos hoje. Contudo, uma vista de Diu a partir da fortaleza publicada pelo editor Arthus Bertrand reproduzindo uma litografia de Eugene Ciceri - também no Arquivo Histórico Ultramarino - mostra uma fachada de seis janelas retangulares em cima sobre seis portas em baixo, aparentemente separadas por pilastras, composição habitual em alçados da era clássica. O artista cujo nome vem impresso na gravura é Eugène Ciceri (1813 ‑1890), um pintor francês de paisagens, classificado por vezes como orientalista por ter feito representações do Norte de África, mas de quem não se sabe ter ido à Índia. O pai, Pierre ‑Luc ‑Charles Ciceri (1782 ‑1868) era também pintor, cenógrafo e especializava‑se em panorâmicas de tipo diorama e ciclorama, como uma outra de Diu que existe com o nome do seu filho no já referido arquivo. É possível levantar a hipótese de que em casa dos Ciceri existissem representações de Diu, que estes artistas decidiram transpor para litografia e fazer gravar em data e circunstâncias desconhecidas. A vista de Ciceri mostraria portanto o colégio fundado pelos jesuítas como era antes de 1833, a data da panorâmica de Aniceto da Silva. Aceitando ‑se como boa esta hipótese, seria 1807 a data possível para a obra que substituiu a frente nascente do edifício colegial por aquela que existe hoje. 1807 é o ano no qual se diz que a igreja foi reedificada. Na igreja propriamente dita, atual Matriz de Diu, não parece ter havido alterações importantes desde os anos iniciais de Seiscentos, quando o padre Gaspar Soares a traçou e foi construída. É um dos mais importantes edifícios da arquitetura indo ‑portuguesa, uma das mais notáveis igrejas da Ásia e da arquitetura cristã fora da Europa. Trata‑se de uma igreja de nave única, coberta de abóbada de canhão articulada por largos caixotões. A capela ‑mor, bastante mais baixa que a nave, tem o mesmo tipo de cobertura. A nave é antecedida por um nártex interior sob coro alto e tem, no piso térreo, em cada lado, cinco nichos semicirculares cobertos com meias cúpulas de concha, abrigando portas e janelas. Em cima correm galerias com arcos onde se abrem portas. A importância excepcional da igreja não resulta só da sua evidente beleza, mas do facto de ser a mais antiga que se conhece no mundo de influência portuguesa, com alçados laterais articulados por capelas semicirculares. Não sabemos se terá sido a primeira deste tipo a ser construída, se a mais antiga que sobreviveu, se terão existido outras, talvez em Goa, entretanto desaparecidas. Certo é ter sido construída, na mesma época, apenas a Igreja do Espírito Santo de Margão, também jesuíta. Este tipo de planta é praticamente inédito fora da Índia antigamente portuguesa, tendo existido em raros lugares europeus (e somente em épocas anteriores). Corresponde a uma ideia de Sebastião Serlio, por ele publicada em 1547. A igreja e o antigo colégio situam ‑se num dos lugares territorialmente mais importantes da parte oriental de Diu, ou seja, da área urbanizada da ilha. A fachada principal enfrenta o caminho que vem da fortaleza a nascente. Este caminho entra no terreiro da igreja e passa ao longo da sua fachada sul, seguindo para a povoação guzerate a poente. O edifício articula, portanto, a fortaleza, a povoação católica - que, a julgar pela planta de Aniceto da Silva, se situava primordialmente a sul, com uma rua orientada para a fachada lateral da igreja - e a passagem para a povoação guzerate. É por isso que o arquiteto traçou, tanto na fachada principal da igreja como na fachada lateral sul, composições arquitetónicas e ornamentais altamente elaboradas e eloquentes, que constituem outra razão para considerarmos a igreja um monumento excepcional. A fachada principal é uma variação sobre o tema da fachada do Bom Jesus de Goa, terminada precisamente na altura em que tinha início a obra de Diu. Paradoxalmente, porém, os jesuítas optaram em Diu por uma fachada mais italiana e clássica em matéria de proporção e ordens, mas menos europeia em matéria de expressão ornamental. A fachada tem três ordens apenas na secção central, contra as quatro de Goa, permitindo assim adotar proporções mais conformes à tratadística europeia. A ordem inferior é constituída por pares de colunas soltas e as superiores por pares de pilastras, uma composição menos variada mas mais clara do que a de Goa. Os capitéis são todos compósitos, mas o friso da ordem inferior é dórico. Já as largas pilastras‑contraforte de ângulo que enquadram a fachada e desempenham o mesmo papel que as (muito mais sóbrias) pilastras de laterite do Bom Jesus pertencem a uma ordem original, entre o jónico e o compósito de folhas de palma. Esta ordem, talvez entendida como ática, prolonga ‑se na fachada lateral sul. O topo da fachada é também uma variação sobre temas do Bom Jesus: a voluta ‑chacra, o frontão reto, o óculo redondo com cartelas flamengas. Todos os temas ornamentais são de escultura mais simplificada que aqueles que aparecem em Goa, e surge um tema novo nas ombreiras das janelas do primeiro piso: os termos‑atlantes. Não se vê um único motivo não europeu, antes tudo parece ter provindo de desenhos italianos ou flamengos, mas a escultura simplificada e o tratamento com cal branca fazem a fachada parecer menos europeia que as composições do mesmo tipo que vemos nas igrejas da Companhia em Goa e em Baçaim construídas na mesma época. Na fachada lateral, vigorosamente articulada por pilares separando os tramos, o arquiteto fez alternar janelas retangulares e óculos no piso de cima. Um elegante soco servindo de banco percorre a base da fachada. No topo, corre uma balaustrada entre pináculos esféricos.

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