Praça XV, Residência dos Governadores (Paço Imperial), Chafariz do Mestre Valentim, Sobrados e Arco do Teles

Praça XV, Residência dos Governadores (Paço Imperial), Chafariz do Mestre Valentim, Sobrados e Arco do Teles

Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

Equipamentos e infraestruturas

Defronte à baía, bem no meio da cidade, estendia‐se a principal praça do Rio de Janeiro colonial. Sua origem remonta à instalação, em 1619, dos carmelitas no caminho ao longo da praia, que ligava a cidade no Morro do Castelo ao dos beneditinos e posteriormente seria a Rua Direita. Sucessivos despejos e aterros vão conquistando ao mar terrenos ao longo da praia e estendendo a cidade nessas áreas de marinha. Argumentando a necessidade de um terreiro, os carmelitas conseguem manter vazio o aterro diante do seu convento. Este só seria ocupado parcialmente pelo estabelecimento, a partir de 1699, da Casa dos Contos e da Moeda e dos Armazéns Reais. Recebendo sucessivamente denominações de Terreiro do Ó, do Polé, Largo do Carmo e do Paço, adquire papel de centralidade na cidade quando em 1730, na administração do governador Gomes Freire de Andrade, foi instalada ali a Residência dos Governadores, transferida da Rua Direita para o sobrado construído sobre os Armazéns Reais, transformando o adro dos carmelitas em uma "praça real", no modelo do Terreiro do Paço de Lisboa, antes do terramoto. O edifício é inaugurado em 1743, com risco do engenheiro José Fernandes Alpoim, é o primeiro prédio com vãos em arco abatido na cidade do Rio de Janeiro. A Residência dos Governadores era formada de três corpos assobradados com dois pátios internos. Na fachada, os vãos tem sobreverga de alvenaria muito proeminente, janelas de púlpito com base em cantaria e guarda‐corpos de ferro forjado. A entrada principal tem portada ladeada por colunas de granito, encimadas por frontal curvo, rompido no centro para encaixar o guarda‐corpo da janela superior. Gomes Freire completa sua obra com a construção no centro da praça, em 1747, de um chafariz, o segundo da cidade, projetado inicialmente por Alpoim mas que, por decisão do Conselho Ultramarino, será construído segundo risco de Carlos Mardel. Do lado esquerdo de quem olha para o mar localizavam‐se os sobrados erguidos pelo juiz dos órfãos António Telles de Menezes, e que foram alugados pela Câmara Municipal após 1751. Formavam um conjunto de três sobrados idênticos, todos com rés‐do‐chão e dois pisos, do qual só resta o central. que tem um grande arco de três centros, denominado Arco do Teles, que serve de passagem da praça para a Rua do Ouvidor através da Travessa do Comércio. O risco é atribuído ao brigadeiro Alpoim, que repete a solução da superposição de verga reta e arco abatido. Com a construção dos sobrados, Alpoim desenha na realidade a praça. Será o vice‐rei Luiz de Vasconcelos e Souza a dar prosseguimento à obra de Gomes Freire, consagrando‐a como principal espaço das cerimónias oficiais. Em 1789, seguindo risco de Jacques Funck, o terreiro foi calçado com grandes pedras, construiu‐se um cais em cantaria com escadas e rampas, no meio do qual foi instalado novo chafariz, assinado por mestre Valentim, demolindo o anterior de Mardel. O Paço dos Vice‐Reis, na fachada voltada para a praça, recebe mais um andar em posição central que lhe confere uma imagem apa‐ lacetada, condizente com a nova praça. Neste caso, não há a unidade das arquiteturas em série das praças reais espanholas e francesas ou da Praça do Comércio lisboeta, nem a direcionalidade visual provocada pelos monumentos arquitetónicos das experiências barrocas italianas e alemãs. A arquitetura tem as características simplificadas do estilo chão português, porém o tratamento dado às escadas e rampas do chafariz, com as igrejas servindo de fundo e a marcação do calçamento em forma estelar remetendo o olhar ao centro da praça, somada à sua animação e centralidade, garantiam a imponência da espacialidade barroca. O chafariz é a obra mais monumental de mestre Valentim. Trata‐se de um corpo prismático retangular que suporta uma pirâmide. Na realidade, suas faces são ondulantes em pedra de galho, com cunhais cilíndricos e bacias concheadas. Os balaústres das platibandas são em lioz. Todo o conjunto remete à ideia de um grosso obelisco monumental marcando a entrada do porto. Com a chegada da corte portuguesa em 1808 e sua instalação no Paço dos Vice‐Reis, foi construído neste um torreão, na fachada voltada para o mar. O prédio sofreu diversas outras intervenções durante os séculos XIX e XX, que iriam alterar sua volumetria. Na década de 1980, uma grande obra de restauração recuperou parcialmente a volumetria do palácio no tempo do príncipe regente.

José Simões Belmont Pessôa

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