Edifício Alfredo Matos (atual Ministério do Urbanismo e Obras Públicas)

Edifício Alfredo Matos (atual Ministério do Urbanismo e Obras Públicas)

Luanda [São Paulo de Luanda], Luanda, Angola

Equipamentos e infraestruturas

O edifício designado por Mutamba foi concebido pelo arquitecto Vasco Vieira da Costa em 1968, enquanto edifício de escritórios, comércio e serviços, e ficou conhecido enquanto tal por se impôr no lado sul do largo do mesmo nome.

O Largo da Mutamba representa ainda hoje o centro da cidade de Luanda, onde se destacam o Ministério das Finanças, a poente, e a Câmara Municipal, mais afastada mas em posição sobranceira, a nascente. O próprio edifício desenhado por Vasco Vieira da Costa, que conserva, no essencial, as características do projecto de 68, e hoje a sede do Ministério do Urbanismo e Obras Públicas de Angola.

A zona da Mutamba encontra-se na confluência da baixa de Luanda e do início da subida para a cidade alta, de construção mais recente. É também aí que se confronta a cidade antiga, ou o que resta dela, com a cidade moderna, brilhantemente representada pelo Edifício Mutamba, e com a cidade contemporânea, literalmente espelhada nas transformações que vão sofrendo as edificações de todas as épocas a uma velocidade galopante.

O atual Ministério do Urbanismo e Obras Públicas apresenta-se, a primeira vista, como um bloco paralelepipédico que emerge acima das arvores e transparece através dos altos troncos, mas a realidade e bem mais complexa e ambígua. Na verdade trata-se de uma edificação constituída por vários corpos que preenchem o topo de um quarteirão com três frentes e duas esquinas em ângulo recto, formadas pelos cruzamentos de três ruas que, pode dizer-se, atravessam a área da Mutamba.

Tomando como referência a “fachada principal”, virada a norte e ao largo, reconhece-se de facto um paralelepípedo de dez andares, parcialmente apoiado em pilotis atras dos quais se escondem mais um ou dois pisos separados do volume superior por uma alheta escura que não e senão mais um piso recuado sobre a laje/varanda abaixo da qual se soltam os pilares.

O volume é constituído por dois corpos distintos: um corpo horizontal de embasamento de planta em “C”, com três pisos, e um corpo vertical, com mais de 40 m de altura, constituído por dois volumes laminares ligados por uma galeria central, também ela desenhada como um corpo laminar.

O embasamento, em continuidade altimétrica com a envolvente, é, por sua vez, composto pelo piso térreo e pelos dois andares superiores, que se desenham em torno de um pátio interior com aproximadamente 300m2. A planta em “C” definida pelo embasamento apresenta um desenho assimétrico, o braço Oeste mais curto e estreito enquanto o volume a Este é mais comprido e muito mais largo. A ligeira diferença de cotas entre as duas ruas laterais leva à existência de um piso intermédio no lado poente, solução desenvolvida também no Mercado de Kinaxixe (1950), assim como o desenho de uma galeria porticada de duplo pé direito com 4m de altura, que contorna o edifício, protegendo do sol o acesso aos espaços comerciais e de serviço que estabelecem uma relação directa e contínua com a cidade. A entrada no edifício encontra-se centrada na fachada Norte, virada para o Largo da Mutamba.

Sobre o embasamento poisa o volume vertical composto por 2 volumes laminares que contêm os espaços de escritórios, servidos por uma galeria central comprimida entre os dois com cerca de 45m de comprimento. A galeria de distribuição corresponde ao desenho criativo de Vasco Vieira da Costa de um sistema de ventilação e iluminação passivo, limitada nos topos Este e Oeste por um painel reticular de betão que permite a passagem do ar e a entrada de luz. A eficácia da galeria é potenciada pela dimensão, inferior à dos volumes de escritórios, e pela diagonal introduzida nesses mesmo volumes que permite captar mais facilmente os fluxos de ar. Nos corredores dos escritórios são instaladas, sobre as portas, pequenas janelas que promovem o arejamento constante através das correntes de ar transversais em todo o edifício.

No que diz respeito aos sistemas de sombreamento, o volume vertical é envolvido por uma segunda pele, uma malha densa composta por pequenos planos de betão em direcções perpendiculares, distante do plano da fachada 90cm, conferindo uma imagem uniforme e de distorção da escala real da fachada inibindo a leitura dos vários pisos. Na fachada Norte, de frente para o Largo da Mutamba, a malha é interrompida por um ritmo de sete caixas de betão que unem o embasamento ao volume vertical, e por uma “fenêtre-longueur”, no 10º piso, cuja protecção solar é conferida através de elementos verticais fixos. No primeiro e segundo pisos do embasamento são instaladas persianas de correr compostas por lâminas de madeira.

No edifício da Mutamba Vasco Viera da Costa assume uma monumentalidade moderna capaz de representar o equipamento colectivo com sentido iconográfico, explorando sistemas de controlo passivo como o ponto de partida para atingir um vocabulário operativo e simultaneamente expressivo.

 

Original de João Vieira Caldas

(FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

Adaptação de Ana Tostões e Daniela Arnaut.

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