Mercado Municipal do Kinaxixe/Kinaxixi (Quinaxixe)

Mercado Municipal do Kinaxixe/Kinaxixi (Quinaxixe)

Luanda [São Paulo de Luanda], Luanda, Angola

Equipamentos e infraestruturas

O Mercado do Kinaxixe (1950-1958), demolido em 2008, constituía uma referência do movimento moderno em Luanda correspondendo à primeira obra desenhada por Vasco Vieira da Costa (1911-1982) depois do estágio realizado em Paris no atelier de Le Corbusier. O projecto responde à encomenda do Governador-Geral de Angola, Capitão José Agapito da Silva Carvalho, e será desenvolvido entre 1950 e 1952 por Vasco Vieira da Costa, no âmbito das suas funções como arquitecto municipal, na zona alta da cidade: junto ao Museu Nacional de História Natural de Angola (1956) e do cinema Miramar (1964), onde surgirá no início dos anos 50 o bloco “Edifício Cuca” (demolido em 2011), do arquitecto Luís Taquelim da Silva.

É também nos anos 50 que Vasco Vieira da Costa elabora o Plano para a Baía de Luanda desenhando uma linha de edifícios que limitam o crescimento da cidade e, simultaneamente a abrem para a baía através da criação de uma extensa galeria ao nível do piso térreo que marca o embasamento criando um espaço de transição e um percurso confortável. O Mercado do Kinaxixe será um dos edifícios desenhado nos anos 50 que transformará a cidade de Luanda, organizando o espaço circundante com a sua geometria simples e reinventando o lugar.

Situado no Largo do Kinaxixe, área de expansão da cidade, o Mercado funcionou como um instrumento estruturante da área de expansão urbana de Luanda para Norte localizando-se no cruzamento de vias relevantes na organização da cidade, como a Avenida Comandante Valódia e a Rua Gamal Abdel Nasser, definindo-as, e  limitando a fachada do largo do Kinaxixe, como um espaço público de encontro.

O Mercado do Kinaxixe afirmava-se como um edifício monumental paralelepipédico elevado do chão, cuja continuidade com a cidade era garantida através do piso térreo ajustado à topografia: pé direito duplo a nascente e piso intermédio a poente. Recuado em três lados, o piso térreo é desenhado com recurso a uma estrutura porticada de duplo pé direito, ocupado por espaços comerciais em relação directa com a cidade, o recuo relativamente ao plano da fachada protegia-os do sol. Na fachada Norte, o piso térreo avança para o limite da fachada e é desenhada uma rampa de acesso ao piso intermédio.

A planta de forma rectangular com 100 metros de comprimento por 60 metros de largura conforma dois pátios, em cotas distintas devido à inclinação do terreno, e em volta dos quais Vasco Vieira da Costa organiza todo o programa. No piso térreo os espaços comerciais virados para a cidade e os armazéns e serviços virados para o interior dos pátios, e no piso superior a área destinada à venda de produtos constituída por galerias de 6,5 metros de pé direito onde se localizavam as bancas fixas que organizavam o espaço.

Entre os dois pátios, no centro da composição, localizavam-se as entradas no Mercado, e organizavam-se as circulações verticais, escadas e elevadores, desde a cave até à cobertura em terraço, marcado por elementos escultóricos modernos, com vista sobre a cidade.

A pele exterior contínua definida por um brise-soleil de elementos verticais de betão assegurava a ventilação e o sombreamento de toda a galeria comercial no 1º piso, cuja continuidade era quebrada pela introdução linhas diagonais, rasgos horizontais, volumes escultóricos ou caixas de betão revestidas com pastilha vidrada de grande diversidade cromática.

Esta obra confirma a pesquisa de Vasco Vieira da Costa procede numa arquitectura capaz de responder eficazmente às condições climáticas procurando uma ventilação permanente aliada a um sombreamento dos espaços potenciando soluções formais expressivamente modernas. De acordo com Manuel Correia Fernandes, o Mercado do Kinaxixe “representou a síntese do Movimento Moderno na época da sua construção, e por isso considerado o ex-libris da arquitectura moderna em Angola. Foi, ainda, o “grito de liberdade” que, desafiando o regime colonial, impôs uma nova postura arquitectónica. Foi demolido em Agosto em 2008, com grande mágoa dos luandenses, que se habituaram a ver e a sentir esse “grito de liberdade”.”

 

Original de Maria João Teles Grilo

(FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

Adaptação de Ana Tostões e Daniela Arnaut.

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