Igreja de Nossa Senhora do Rosário

Igreja de Nossa Senhora do Rosário

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Arquitetura religiosa

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário encontra ‑se fora do recinto histórico de Velha Goa, erguendo ‑se no topo noroeste do Monte Santo, sobranceira à estrada que liga a antiga capital do Estado da Índia a Pangim. Esta igreja teve origem numa ermida, que, segundo Gaspar Correia, resultou por sua vez de um voto de Afonso de Albuquerque, o qual ao receber a notícia da conquista da cidade de Goa, terá prometido edificar uma ermida a Nossa Senhora do Rosário no lugar onde se encontrava. A ermida acabou por ser construída por Antão Nogueira de Brito, durante o governo de Albuquerque. Uma geração mais tarde, o local do Monte Santo tinha já uma população numerosa, sobretudo de indígenas cristianizados, para os quais havia necessidade de uma paróquia. Esta foi criada em 1543, simultaneamente com a de Nossa Senhora da Luz (que, juntamente com a Igreja de Santa Catarina, constituíam as três paróquias de Velha Goa, então já capital do Estado da Índia). A construção de uma nova igreja foi possível devido à doação de terrenos no Monte Santo por parte de Pedro de Faria, antigo governador de Malaca, que os tinha adquirido em 1526. Embora não se conheça a data exata, o início da edificação deve ter ocorrido cerca de 1543. As informações acerca da sua construção não são claras, mas segundo um documento de 1774, vieram oficiais do reino. Numa carta de 1548 para o rei de Portugal, os membros da Confraria de Nossa Senhora do Rosário parecem indicar que a igreja que conhecemos resultou da ampliação da ermida original: "determinaram acrescentar o corpo da casa e capelas […] de que já está feita a capela grande do altar ‑mor, tudo o resto por fazer […]". Contudo, numa carta do ano seguinte o rei é informado pela confraria de que se fez uma construção totalmente nova: devido à necessidade de uma estrutura maior "se derubou toda a dita casa, e temos feyto outra de novo que hão presente […]". Mais se informa o monarca que a capela (‑mor?) está terminada, que o corpo da igreja foi construído até ao madeiramento (da cobertura) e que a igreja tem uma torre "muy forte" sobre a porta principal. Nossa Senhora do Rosário é uma igreja de nave única, com uma capela ‑mor e duas capelas laterais frente a frente e junto à cabeceira, mas com arcos de abertura para a nave a alturas diferentes. A nave apresenta hoje uma cobertura em telhado aberta, mas que inicialmente teria um teto, que caiu em 1897, provocando danos nas abóbadas das capelas, conforme se pode ler em documentação avulsa que se guarda no Palácio dos Arcebispos de Velha Goa. As capelas laterais e a capela ‑mor estão cobertas por abóbadas de nervuras em forma de estrela. No exterior, destaca ‑se a torre ‑fachada de três pisos, com contrafortes cilíndricos nos cantos frontais e torres igualmente cilíndricas nos ângulos com a nave. A torre sul contém uma escada em caracol de acesso ao coro alto, no segundo piso da torre‑fachada, e a torre norte encerra no seu piso térreo a capela batismal. No último piso da torre ‑fachada, marcado nas esquinas por colunelos, abrem ‑se janelas de volta inteira, onde estão suspensos sinos. Também de carácter manuelino são as grandes cordas torcidas que, à maneira de cornijas, envolvem a torre‑fachada, os contrafortes e as torres cilíndricas. Para uma paroquial periférica, esta igreja apresenta dimensões generosas e, pelo menos no que diz respeito aos arcos de abertura e abóbadas das capelas laterais e da capela‑mor, uma configuração cuidada. Mas, apesar do pe ríodo de construção não ter certamente ultrapassado uma década, Nossa Senhora do Rosário não é uma igreja estilisticamente homogénea. Tanto no nártex - no piso térreo da torre fachada, aberto ao exterior através de arcos de volta inteira - como na parede norte do corpo da igreja encontram‑se portais, muito semelhantes entre si, já de formas renascentistas, comparáveis ao portal principal da Igreja de Nossa Senhora da Graça, em Évora. Também os retábulos dos altares da capela‑mor e da nave revelam uma linguagem clássica. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário é a mais antiga edificação religiosa de Velha Goa que se manteve até aos dias de hoje. É também a única de todas as construções religiosas de Goa, da velha cidade ou mesmo do território, com formas (maioritariamente) medievais. Para além dos arcos e das abóbadas das capelas, no interior, a torre‑fachada remete Nossa Senhora do Rosário para um tipo medieval, como o conhecemos da igreja matriz de Nossa Senhora da Assunção de Elvas, da paroquial de Santa Maria Madalena de Olivença, da desaparecida Santa Catarina de Velha Goa e da arruinada São José de Baçaim, mas também da igreja matriz de Pedrógão Grande, esta última já com elementos arquitetónicos de configuração assumidamente renascentista. Na igreja goesa, os contrafortes e as torres laterais, de forma cilíndrica, aproximam ‑na da arquitetura religiosa manuelina do Alentejo, nomeadamente da Ermida de São Sebastião do Alvito, e da Capela de São Brás, em Évora e da citada igreja matriz de Elvas. Nossa Senhora do Rosário é o último testemunho da fase inicial da cristianização de Velha Goa, e possivelmente só resistiu por se encontrar fora da cidade, longe dos locais mais sujeitos a renovação durante o curto período histórico de Velha Goa enquanto capital do Estado da Índia. Todas as outras edificações sensivelmente contemporâneas - igrejas paroquiais, conventuais, capelas-pereceram ou foram posteriormente alteradas. Nossa Senhora da Rosário é talvez a mais portuguesa das igrejas de Goa, não pelas características formais correspondentes à cultura arquitetónica manuelina, mas porque foi concebida numa época anterior ao aparecimento de soluções arquitetónicas especificamente goesas, não obstante a sua raiz de influência portuguesa ou mesmo europeia (> Igreja de São Paulo, em Goa). Ilustra também o investimento na arquitetura religiosa, logo na segunda geração após a conquista da cidade. Nossa Senhora do Rosário é também o único edifício de Goa que ainda testemunha a introdução gradual das formas do Renascimento na Índia, aqui ainda confinadas à configuração escultórica de elementos arquitetónicos particularmente marcantes, como é o caso dos portais. Pela antiguidade e pela raridade do seu testemunho, Nossa Senhora do Rosário é certamente um dos mais preciosos objetos arquitetónicos no contexto da expansão portuguesa.

António Nunes Pereira

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