Convento de Santa Mónica e Igreja de Santa Maria

Convento de Santa Mónica e Igreja de Santa Maria

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Arquitetura religiosa

O Convento de Santa Mónica assume uma posição particular no contexto da arquitetura religiosa de Goa por ter sido o único convento feminino do território. O edifício de grandes dimensões localiza ‑se na encosta norte do Monte Santo, no lado ocidental de Velha Goa, perto do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, e sobranceiro ao Rio Mandovi e à estrada que liga Pangim à velha cidade.
O convento foi fundado devido à iniciativa privada de Filipa Ferreira, uma dama rica e viúva. Filipa fez votos com Frei Miguel do Anjos e recebeu do arcebispo Frei Aleixo de Menezes a autorização para a fundação do convento, do qual veio a ser abadessa. Por serem estes eclesiásticos da ordem de Santo Agostinho, o convento adotou a mesma regra e ficou dependente do respectivo convento masculino de Nossa Senhora da Graça. Lançou‑se a primeira pedra no dia 2 de julho de 1606, completando‑se a obra em 1627. O convento foi dedicado a Santa Mónica, mãe de Santo Agostinho, e a igreja foi dedicada a Santa Maria. Em 1636, um grande incêndio destruiu os dormitórios, obrigando as freiras a refugiarem‑se no colégio agostinho de Nossa Senhora do Pópulo, junto ao Convento de Nossa Senhora da Graça, até à conclusão da reconstrução de Santa Mónica. A reconstrução foi dirigida pelo padre agostinho Frei Diogo de Santa Anna, mantendo‑se do edifício original a igreja, os coros e a sacristia. O convento aceitava mulheres de origem europeia, asiática e mista e só foi encerrado após a morte da última freira, em 1885, cinquenta anos depois da extinção das ordens religiosas, quando se proibiu a admissão de noviças. Funcionou posteriormente como residência de cónegos da sé, e hoje alberga o Instituto Religioso Mater Dei.
O Convento de Santa Mónica é constituído por quatro grandes alas de dois (pontualmente três) pisos em torno de um claustro central. A fachada localiza‑se na ala sul e prolonga‑se para poente através de um corpo de um só piso, para além do volume paralelepipédico do edifício. O claustro, de grandes dimensões, segue o tipo comum dos claustros de Goa, com galerias em dois pisos, de arcos de volta inteira articulados por pilastras toscanas. Diversos contrafortes em forma de arco, construídos contra as arcadas, atestam a instabilidade estática da construção em laterite e beirados à face das paredes. Dos espaços do convento destaca ‑se o refeitório de planta longitudinal e abóbada de berço, cujos caixotões têm pinturas representando anjos e santos. Também noutros espaços se observam pinturas murais de temas religiosos. O Convento acolhe desde 2001 o acervo oriundo de Rachol e que constitui o atual Museum of Christian Art (> Complexo Jesuíta, Rachol).
A igreja insere‑se longitudinalmente na ala sul, como é comum nas igrejas de mosteiros femininos. A nave única, de planta retangular, desenvolve‑se paralelamente à fachada, assumindo uma das suas paredes laterais (neste caso a parede sul) esta função no exterior. Deste modo, tanto o coro alto como o coro baixo da igreja se encontram dissimulados na volumetria do convento - e não sobre a entrada, completamente expostos, como é o caso nos conventos masculinos. Na Igreja de Santa Maria, ambos os coros se abrem para a nave única através de aberturas de arco de volta inteira, sendo a inferior de reduzidas dimensões e a superior consideravelmente maior. Deste modo, as freiras podiam seguir as cerimónias religiosas completamente subtraídas aos olhares da comunidade.
A abóbada de berço ruiu, permanecendo os vestígios da imposta e do seu perfil nas paredes da nave. A capela‑mor é um espaço pouco profundo, mais estreito e mais baixo que a nave. O retábulo de talha dourada é constituído por dois andares de respectivamente três nichos enquadrados por colunas, sendo coroado por três edículas.
A fachada da igreja destaca‑se na parede sul do convento através da sua articulação em grelha de pilastras e entablamentos, em cujos panos se abrem janelas retangulares. A articulação desta fachada segue os cânones usuais da arquitetura religiosa de Goa, aqui adaptados a uma parede lateral da nave. A consequência mais evidente é o número de tramos que, sendo por norma três nas igrejas de fachada‑empena, aumentou aqui para cinco, correspondendo ao comprimento do corpo da igreja. Nos tramos intermédios abrem‑se dois portais que dão acesso direto à nave. Excepcionalmente, não há no interior da igreja correspondência da articulação da fachada. Com exceção da fachada da igreja, todo o restante exterior do convento é muito simples e fechado, consistindo em paredes lisas, rebocadas, onde se abrem janelas retangulares. Santa Mónica expressa a solidez, fechamento e impenetrabilidade que é característica dos conventos femininos em Portugal.
A Igreja de Santa Maria é um edifício único no panorama da arquitetura religiosa cristã de Goa, que se justifica pela sua função original, também única no território: a de igreja de um convento feminino. O convento impressiona pelas suas dimensões e grandiosidade, tanto mais que é dos poucos de Velha Goa que se mantêm em boa parte intactos.

António Nunes Pereira

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