Sé Metropolitana de Goa e Damão

Sé Metropolitana de Goa e Damão

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Arquitetura religiosa

A Sé Metropolitana de Goa e Damão é a igreja episcopal da Arquidiocese de Goa e Damão, que inclui igualmente os territórios de Diu, Dadra e Nagar‑Havelly, e simultaneamente sede do Patriarca das Índias Orientais. Tem como orago Santa Catarina de Alexandria. A ordem de construção do edifício da Sé, que hoje se ergue no centro da desaparecida cidade de Velha Goa, foi assinada em 1562 pelo rei D. Sebastião, e surgiu no seguimento da elevação de Goa (desde 1530 capital do Estado da Índia) a sede de bispado em 1533‑1534 e a sede de arquiepiscopado em 1557. A nova igreja, de grandes dimensões, iniciada no final do ano de 1564 ou pouco depois, veio substituir a antiga matriz de Velha Goa, a Igreja de Santa Catarina, que por sua vez tinha sido começada em 1514 e elevada a sé em 1534 (denominada Sé Velha após 1564), e cujo rasto se perde após as primeiras décadas do século XVII. Desta igreja inicial, a atual Sé de Goa manteve o orago de Santa Catarina de Alexandria, em memória do dia em que Afonso de Albuquerque conquistou a cidade, 25 de novembro de 1510. Possivelmente manteve ‑se também o espaço da capela batismal, no compartimento térreo da torre norte. Vários indícios - dos quais se destacam a pia batismal de 1532 e a abóbada de nervuras em forma de estrela - sugerem que esta secção do edifício tem origem medieval. A edificação da Sé de Goa prolongou ‑se até 1651‑1652, data em que, segundo a inscrição sobre o portal principal, foi terminada. O grosso das obras teve lugar nas primeiras décadas do século XVII, não havendo a certeza se se respeitou o projeto inicial da década anterior (como defende António Nunes Pereira) ou se, pelocontrário, se elaborou nesta um novo projeto (segundo Pedro Dias). Sabe ‑se sim que uma das torres foi erguida entre 1597 e 1600, desconhecendo ‑se, contudo, se se trata da torre sul, ainda existente, ou da torre norte, ruída em 1776. Em 1619 foi concluído o corpo da igreja, continuando as obras na capela ‑mor e na sacristia. Em 1631 o grosso do edifício estava concluído, estando por realizar obra de artesão e os retábulos. O arranque de uma abóbada de berço na parede exterior das capelas laterais do lado norte indicia um pátio à maneira de claustro encostado ao lado norte da Sé, que ruiu ou não chegou a ser edificado. Não é conhecido o autor do projeto inicial. Rafael Moreira atribuiu ‑o ao mestre ‑de ‑obras Inofre de Carvalho (ativo entre 1538 e 1568). Pedro Dias, por seu lado, atribui ao engenheiro ‑mor do reino, Júlio Simão (ativo entre 1596 e 1621), a autoria de um novo projeto, de 1614. Simão encontra ‑se sepultado na Sé, em lugar nobre do cruzeiro, a eixo do arco da capela‑mor. Na sua lápide, hoje quase completamente apagada, Simão é denominado "mestre arquitecto das obras desta sé". A Sé de Goa é uma igreja de planta em cruz latina, com três naves, coro alto e capelas laterais, transepto inscrito, cruzeiro delimitado por arcos torais e capela‑ ‑mor profunda no prolongamento espacial da nave central. Todos estes espaços estão cobertos por abóbadas de berço com caixotões, com exceção do cruzeiro, onde se observa uma abóbada de arestas. A secção do corpo da igreja é a de uma falsa basílica, uma vez que não existem janelas de clerestório entre as naves. Apesar da pouca diferença de altura entre as naves laterais e a central, a axialidade longitudinal dos pilares entre estas e das abóbadas de berço individualiza e autonomiza estes espaços, tornando esta igreja distinta das igrejas de naves à mesma altura, como as sés portuguesas da década de 50 do século XVI. A Sé de Goa é um edifício rigorosamente modulado, o que transparece não só na organização espacial, mas também na articulação de paredes através de uma grelha constituída por pilastras e entablamentos. Todo o edifício foi construído em laterite e posteriormente caiado. Apenas os elementos nobres da fachada, como portais, janelas e a edícula, foram executados em granito, trazido de Bassaim. No interior ainda subsistem vestígios de pinturas murais de decoração renascentista, levantando a hipótese de todo o interior apresentar uma configuração pictórica e cromática, hoje em grande parte coberta pela pintura branca de cal. Apesar do prolongado tempo de construção, a Sé de Goa revela grande coerência formal e estilística. A influência portuguesa transparece em particular na organização em planta dos volumes construtivos e da fachada flanqueada por duas torres, que se poderá aproximar sobretudo da Sé de Portalegre. Contudo, ao contrário da igreja alentejana, a Sé de Goa apresenta uma linguagem arquitetónica constituída quase exclusivamente por elementos do Renascimento europeu - português, francês, flamengo e, naturalmente, italiano, com particular ênfase para a tratadística de Sebastiano Serlio sem reminiscências de períodos anteriores. A repetição do cânone arquitetónico constituído por um par de pilastras encimadas por um entablamento é um dos aspectos mais visíveis desta síntese goesa das influências europeias (> Igreja de São Paulo), muito diferente da arquitetura religiosa contemporânea de Portugal, em particular da chamada arquitetura chã. A Sé de Goa é testemunho do processo de fixação de um centro de poder político e religioso da coroa portuguesa no Oriente, ocorrido durante o século XVI. As dimensões do edifício ilustram a força da presença portuguesa ou, pelo menos, da imagem dessa presença que se queria transmitir aos povos locais e aos viajantes de diversos pontos do globo que faziam escala em Goa. Também a localização deste novo edifício - hoje ilegível devido ao desaparecimento da cidade histórica, mas que resultou de uma rotação de 90º a 180º em relação à Sé Velha - é significativa. A Sé de 1564 ficou voltada para uma praça, corresponde ao atual adro, em cujo lado sul se erguia o Palácio do Sabaio. Na antiga residência de governadores e vice ‑reis entre 1510 e 1554 encontrava‑se agora o Palácio da Inquisição, desde a introdução desta em Goa em 1560. A proximidade urbana destes dois edifícios transmitia uma mensagem inequívoca acerca do novo poder e dos seus instrumentos de coação. Também na fachada da Sé a coroa portuguesa e a igreja católica se representavam triunfantes: no piso térreo observam ‑se duas citações de arcos de triunfo romano (por um lado os dois portais laterais enquadrando um maior e central, e por outro o enquadramento arquitetónico deste último; (> Igreja de São Paulo), sobrepujadas pela coroa papal no portal e pela coroa portuguesa sobre a janela central. No topo da fachada, o nicho com a imagem de Santa Catarina subjugando o Sabaio (Adihl Shah, o líder muçulmano de Goa até 1510) era o corolário desta iconografia arquitetónica e urbana do novo poder cristão em Goa. A importância patrimonial da Sé foi reconhecida em dois momentos: em 1932, quando, ainda sob governo português, foi classificada como Monumento Nacional (Catão, F. X. Gomes, Anuário da Arquidiocese de Goa e Damão para 1955, 89); e em 1986, quando foi integrada, juntamente com outros edifícios de Velha Goa, na lista de Património Mundial da UNESCO.

António Nunes Pereira

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