Ponte-Açude Conde de Linhares

Ponte-Açude Conde de Linhares

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Equipamentos e infraestruturas

Aberta ao Mar Arábico pela praia de Miramar, delimitada a norte pelo Rio Mandovi e a sul pelo Rio Zuari e separada do continente pelo canal Cambarjua, a Ilha de Tiswadi é ainda recortada por duas grandes bacias pantanosas, hoje transformadas em arrozais: uma a sul, entre Siridão e Goa Velha, outra a norte, separando Ribandar de Pangim. Enquanto a primeira se liga ao Zuari através de uma linha de água, a segunda abre ‑se ao Mandovi numa boca alagada com algo mais do que três quilómetros de extensão, o que constitui um obstáculo natural considerável na ligação entre a cidade de Goa e a barra do Mandovi, com o povoado que desde bem cedo a vigiava, Pangim. Aliás, já à data da conquista de Goa (1510) existia em Pangim uma fortaleza, a qual foi transformada em quartel ‑palácio dos vice‑reis, edifício que sofreu uma profunda reforma na década de 1610 e em 1759 se transformaria na residência dos vice‑reis e sede de governo permanente do Estado da Índia. A ligação entre Goa e Pangim fazia ‑se por barco, uma vez que o trajeto por terra implicava um desvio sinuoso que duplicava a distância, até que em 1633 foi iniciada a construção da Ponte‑Açude do Conde de Linhares ou, simplesmente, a Ponte Linhares, como agora é mais comum designar‑se, sendo que desde a integração do território na União Indiana (1961) o seu extremo poente é também conhecido como Patto Bridge, ou seja, pelo topónimo do ilhote através do qual se insere em Pangim. A estrutura mista de açude e ponte, fundada em estacaria de jambó (xiliadolia briformis), estende o primeiro numa linha quase reta com cerca de dois mil e seiscentos metros entre Ribandar e aquele ilhote, do qual parte a ponte com cerca de uma centena de metros de extensão, que não só possibilita o acesso sobre um esteio a Pangim, como a passagem de embarcações pequenas entre o Mandovi e a bacia interior. Curiosamente, é desse pequeno ilhote que partem as duas pontes paralelas que galgam o Mandovi para Bardez. A travessia do Patto corresponde a um percurso de cerca de quatrocentos e cinquenta metros, o que faz com que o conjunto ponte ‑açude totalize algo como três mil, cento e cinquenta metros. O açude tem a estrutura tradicional do tipo, com arcarias que colocam a plataforma de passagem a uma cota pouco acima da do leito do rio, mesmo na estação das chuvas. Alguns desses arcos integram dispositivos que permitem regular a entrada e saída da água para os arrozais. Já a ponte foi lançada em rampa de ambos os lados, por forma a libertar para a navegação um gabarito máximo no arco central. Daí que os arcos sejam mais amplos e os pegões bem mais expressivos que os do açude. Lamentavelmente, o alargamento do tabuleiro da ponte há alguns anos descaracterizou ‑a profundamente, o que é notório na proporção e expressão, nos pegões - onde a expressão do aparelho de laterite soçobra por trás da do betão - mas também pela substituição das guardas de proteção em alvenaria de pedra por uma balaustrada. Desapareceu também o padrão que a meio a nobilitava. A sua qualidade estrutural e construtiva revelou ‑se em séculos de uso intensivo, quase sem manutenção, o que ocorreu em situações extraordinariamente adversas, como o violento regime de cheias motivado pela estação das chuvas, ao que acresce um meio aquático permanentemente carregado de sedimentos e detritos. Note‑se como a carga para a qual foi originalmente pensada deu lugar a todo o tipo de tráfegorodoviário, incluindo veículos de mercadorias sem qualquer limitação de peso, pois é a única ligação entre a capital do estado, Pangim, e a estação do recente Konkan Railway, situada a cerca de uma dezena de quilómetros. Uma obra excepcional por tudo isso e, claro, também pelo traço indelével, mas subtil, que desenha na paisagem, mais ainda pelo desígnio de infraestruturação e ordenamento do território que lhe deu origem. Miguel de Noronha, 4.º conde de Linhares (1585‑1647), foi um dos vice ‑reis da Índia que mais se destacou enquanto promotor de um vasto programa de obras públicas, o que em boa medida se ficou a dever ao facto de durante a sua governação (1629 ‑1635) ter ocorrido um significativo crescendo do poder holandês na Ásia e, assim, a confirmação da ameaça que isso representava para os interesses portugueses. Com efeito, a ação edificadora deste vice ‑rei é particularmente marcante em tudo quanto diz respeito à reforma e renovação de alguns dos sistemas defensivos, de que destaco os de Goa e Diu. Note ‑se, aliás, como foi durante o seu mandato que, por ordem régia veiculada pelo vice ‑rei, António Bocarro e Pedro Barreto Resende elaboraram (1633 ‑1635) o precioso relatório sobre a segurança das possessões portuguesas na Ásia que aqui temos vindo a usar intensamente, o Livro das Plantas de todas as Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental… A origem da Ponte Linhares deve ser interpretada nesse contexto. Com efeito, o pedido que fazem ao vice ‑rei e ao rei os vereadores do Senado da Câmara de Goa refere expressamente como era importante a sua construção para que em situações de crise fosse possível o trânsito célere entre a cidade e a barra do Mandovi. Aliás, não é inocente o facto de expressamente referir a necessidade de ser dimensionada por forma a permitir a passagem simultânea de quatro cavalos a galope. Mas também refere a alternativa de três palanquins, o que nos remete para um outro facto: como esta obra foi determinante para a transposição da capitalidade de Goa para Pangim. Com efeito, já então eram notórios os movimentos de abandono daquela cidade por outros locais, designadamente Panelim e Ribandar, povoados situados entre Velha Goa e a Ponte Linhares. Aliás, terá sido o próprio conde de Linhares a fazer erguer em Panelim um novo palácio vice ‑real, o qual funcionou como sede efetiva do governo até à mudança para o de Pangim, em 1759. Ou seja, com a ponte ‑açude ganhou viabilidade e, assim, maior expressão o movimento espontâneo de abandono de Goa por locais mais próximos da foz do rio: aqueles que hoje compõem Pangim. Não terá sido por acaso que o primeiro bairro com características urbanas da futura capital do estado, as Fontainhas, se consubstanciou junto ao extremo poente daquela estrutura. wPelo que aqui fica e o que daí ainda se pode deduzir, em minha opinião, a Ponte ‑Açude do Conde de Linhares é a estrutura edificada simultânea e paradoxalmente mais muda - porque utilitária e, na prática, invisível - e territorial e tecnologicamente relevante de todas quantas os portugueses construíram na Ásia.

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