Igreja do Espírito Santo

Igreja do Espírito Santo

Madgaon [Margão], Goa, Índia

Arquitetura religiosa

As fontes jesuítas dão conta de um processo de fundação, destruição e reconstrução da Igreja do Espírito Santo de Margão, a mais importante da Companhia em Salcete, fora da fortificação de Rachol. O edifício teria sido fundado em 1564 ‑1565, data que está de acordo com a entrada e estabelecimento dos jesuítas em Salcete. Em 1571, teria sofrido uma destruição parcial pelo fogo como consequência da razia dos bijapuris e seus aliados que, nesse ano, devastou Salcete e outras regiões de Goa. O mesmo se teria repetido em 1579. Entre 1585 e 1595, a igreja teria sido refeita numa localização ligeiramente diferente, e em 1604 teria sido aumentada, seja o que for que isto quer dizer, segundo informa o jesuíta Francisco de Sousa, escrevendo em Goa, em 1698. E é este cronista que presta a única informação absolutamente precisa sobre o assunto, ao referir que em 1645 "se derrubou toda a fabrica velha e se fez no mesmo lugar a igreja de que hoje usamos, toda de abobada, muito clara e aprazivel". Esta igreja, dizem outras fontes, só teria sido consagrada trinta anos depois, em 1675. Com base nas afirmações de Francisco de Sousa, tem‑se escrito sempre que a Igreja do Espírito Santo de Margão que veio até hoje é aquela que foi construída, ou reconstruída muito profundamente, entre 1645 e 1675. O edifício é o mais antigo no qual existe um tema tipológico definidor da identidade goesa da arquitetura católica de Goa: os nichos semicirculares cobertos por meias abóbadas concheadas. Vemo‑los na igreja, abrigando janelas e portas e articulando a ordem inferior dos alçados laterais da nave (este tema está presente numa outra igreja jesuíta da Índia: Nossa Senhora da Conceição - ou São Paulo - de Diu, iniciada, ao que tudo indica, em 1601). A articulação de alçados laterais de igrejas por nichos ou capelas semicirculares é um tema do tratado de Sebastião Serlio (Livro V, publicado em 1547, planta para uma igreja de três naves). Todavia, é raríssimo na arquitetura europeia. Aparece numa ou noutra igreja italiana da transição do século XV para o século XVI, como San Pietro in Montorio, em Roma. Apesar de publicado por Serlio, está completamente ausente da arquitetura em Portugal e no Brasil: não há em parte alguma um interior de igreja articulado por nichos semicirculares, embora existam algumas - poucas - capelas isoladas desse tipo. Tão‑pouco existe na arquitetura espanhola, flamenga ou francesa. Há muitos nichos semicirculares concheados, todavia, na arquitetura retabular. Desde logo em Goa, em muitos altares de Velha Goa, datáveis da transição entre o século XVI e o século XVII. É possível, portanto, que a beleza das semi‑abóbadas concheadas sobre capelas‑tabernáculo, com as suas conotações marianas, juntamente com a prancha do tratado de Serlio, tenha impressionado os arquitetos jesuítas. Mas é difícil acreditar que isso tenha sucedido em Diu, um lugar isolado e longínquo, antes de os jesuítas terem experimentado o tema em Goa. Pode pôr‑se a hipótese de terem sido articulados por capelas ou nichos semicirculares os alçados laterais da igreja‑mãe dos jesuítas na Índia, São Paulo de Velha Goa, de que só conhecemos descrições vagas e imagens do exterior. Na fachada, cuja secção central sobreviveu, há nichos concheados dos dois lados da janela principal (que albergavam no passado, naturalmente, imagens de São Pedro e São Paulo). Pode perguntar‑se também se não teria já nichos ao longo das naves a igreja de Margão construída entre 1585 e 1595 e aumentada em 1604. De facto, podiam ver‑se no final do século XIX na presente igreja, embora estejam escondidas agora por estrados de madeira, três inscrições tumulares de gancares de Margão, em pedra do norte, datadas de 1618, 1620 e 1648, colocadas no patim dos vãos das janelas da nave. Há mais duas outras pedras tumulares da mesma época mas sem inscrição, num total de cinco, colocadas no patim dos dois primeiros e de um terceiro dos nichos da nave. Todas as outras inscrições tumulares que existiam na igreja no final do século XIX - e desapareceram posteriormente com uma pavimentação nova - eram de meados deste século, correspondendo certamente a uma remodelação do pavimento. É possível que em 1645 não se tenha "derrubado toda a fabrica velha" ao contrario do que diz Francisco de Sousa, mas apenas acrescentado uma abóbada à nave que a não tinha e substituído por abóbadas de tipo novo as da capela ‑mor e dos braços do transepto. Há inúmeras molduras na igreja, sobretudo nas capelas sob o coro alto, no transepto e nos pisos baixos, incluindo no exterior, que parecem do final do século XVI. Em todo o caso, a igreja de Margão é absolutamente coerente, uma das mais refinadas igrejas existentes em Goa. É um templo de nave única com transepto acentuado em planta mas discreto na presença espacial na nave (o braço sul é ocupado pela capela do Santíssimo), coberto por cinco abóbadas de canhão com penetrações laterais entre arcos, correspondendo aos cinco tramos em que se articula a nave, abóbadas de arestas sobre o cruzeiro e o transepto. A capela ‑mor tem uma abóbada de canhão com penetrações. A nave está articulada por uma ordem apilastrada gigante com friso dórico e arquitrave jónica. Ordem e nichos apresentam a escultura arquitetónica mais refinada existente em Goa fora da Velha Cidade. A fachada principal, virada a poente, é do tipo da igreja dos agostinhos de Nossa Senhora da Graça em Velha Goa: uma secção central dividida em três ordens, enquadrada por duas torres de quatro ordens ligeiramente recuadas. A fachada é mais tardia ou foi redecorada mais tardiamente do que o corpo da igreja por alguém com prática de fabricação de altares de talha, como se percebe pelas proporções mais apertadas dos membros arquitetónicos e pelo carácter mais grosseiro do ornamento. As torres são coroadas por zimbórios, completos com tambor, cúpula e lanternim: os mais antigos coroamentos de torre desse tipo a chegar até nós em Goa, com grande sucesso tipológico nas igrejas de Salcete. O protótipo só pode ter sido constituído pela igreja dos agostinhos de Velha Goa, que quase certamente apresentava torres com zimbórios.

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