Igreja do Seminário de São José

Igreja do Seminário de São José

Macau, Macau, China

Arquitetura religiosa

A mais notável das igrejas antigas de Macau, excetuando a que é conhecida como de São Paulo, é a do Seminário de São José. As obras do conjunto de edifícios começaram em 1746 e, no fundamental, estavam concluídas em 1758. Para tal foi necessário fazer um grande aterro no local, cortando a rocha. As paredes da igreja começaram a ser erguidas no dia 1 de agosto de 1751, ficando prontas, juntamente com a sacristia, escada para o camarim e o corredor, em setembro do ano seguinte. A porta principal e a escada foram iniciadas em janeiro de 1757.
Mas a origem da igreja é anterior. Os padres da Companhia de Jesus instalaram‐se na Residência de São José em 1728, que logo em 1732 se passou a chamar seminário por desempenhar essas funções. Em 1784 já tinha sido tomada a decisão de erguer um novo edifício. Finalmente, em 1856 a instituição foi transformada em seminário diocesano.
A igreja teve duas grandes campanhas de obras já no século XX, uma em 193l e outra em 1953, e se a fachada está um pouco descaracterizada em relação ao que era no final de Setecentos, já o interior é o do projeto primitivo, amplo, com uma grande cúpula sobre o transepto.
A frontaria é um dos mais belos exemplares barrocos de toda a arquitetura portuguesa de além‐mar. É fruto de uma concepção erudita e possui um movimento fora do comum, com pilastras de grande porte que fazem parecer que a base nem é plana. Tem cinco corpos lidos horizontalmente, correspondendo os dos extremos às torres sineiras do terceiro registo em altura e o central ao do portal nobre. O corpo médio tem três grandes janelas de sacada, colocadas no enfiamento das portas. Ao alto, entre as torres, foi construído um frontão mistilíneo, onde colocaram o símbolo da Companhia de Jesus. Do lado direito ficam as zonas habitacionais e as escolas, que nos parecem não terem sido alvo de grandes alterações.
A planta da igreja é em cruz grega, centrada, dominada pelo amplo espaço coroado pela cúpula de caixotões. A nave axial, com vinte e dois metros de comprimento, é paralela, com a mesma área na secção da entrada e na cabeceira, posto que o altar‐mor e o coro‐alto possam dificultar essa constatação. Os braços transversais são mais pequenos, com menos três metros.
A cúpula tem treze metros de diâmetro e ergue‐se sobre pendentes, iluminando o interior, já que as duas primeiras e mais largas fiadas dos caixotões são abertas, sendo cega apenas a central. No entanto, não possui o tradicional lanternim, que era comum nas construções deste tipo. A cobertura dos quatro braços é feita por secções retas de abobadamento de meio canhão, mas a altura a que se elevam os pilares de ângulo e, consequentemente, as paredes laterais, não permite que a volta perfeita se complete, tornando mais leve a composição. É um dispositivo que, juntamente com todo o desenho da planta, nos obriga a pensar que foi projetado por arquiteto italiano de primeira linha, já que em Portugal não encontramos nada de parecido nesta época. Os alçados interiores são cortados a meio, permitindo a sobreposição das ordens clássicas, embora, também aqui, interpretadas com grande liberdade.
Os elementos menos canónicos, menos apegados à estética europeia, são os decorativos, como o traçado dos pilares de ângulos, os capitéis, jónicos e coríntios, sobrepostos, as cimalhas, e a generalidade das molduras, que não são muito diferentes das que encontramos noutras igrejas vizinhas. É provável que um projeto português ou italiano tenha sido aqui executado por um excelente mestre‐de‐obras, que também adaptou as diretivas da decoração, pois teve que empregar mão‐de‐obra chinesa. É bem possível que muita desta decoração, sobretudo a de estuque, seja fruto da reforma feita em 1903.
As colunas torsas que suportam o coro‐alto foram colocadas em 1865, e parece terem sido trazidas da desafeta Igreja de São Francisco. Os retábulos, que imitam os da época, o final do século XVIII, são obras recentes.

Pedro Dias

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