Quartel de Infantaria

Quartel de Infantaria

Díli, Díli, Timor

Arquitetura militar

Situado na Avenida Marginal de Díli, o Quartel de Infantaria é o mais antigo edifício da capital timorense. Erigido sobre as ruínas da fortaleza, datada de finais do século XVIII, a construção do imóvel foi iniciada em 1871, cinco anos após a destruição do anterior quartel por um incêndio que devastou grande parte da cidade. Foi edificado por iniciativa do governador José Correia Marques (1834‐1839), tendo as obras sido concluídas somente em finais do século.
Descrito por visitantes como um dos poucos imóveis dignos de nota, dada a sua pequena dimensão o quartel deixaria de ser utilizado como infraestrutura militar na década de 1930, sendo ali instalada a Administração do Concelho de Díli e os serviços policiais, incluindo o contingente indígena, os cipaios. No decurso da Segunda Guerra Mundial voltaria a ser usado com uma finalidade castrense, desta feita pelos invasores japoneses que ali instalaram o seu quartel‐general, circunstância que o salvou da destruição de que grande parte da cidade seria vítima.
Nos anos de 1970, o Quartel de Infantaria seria escolhido, pela sua vetustez e significado histórico, para albergar o museu, projeto adiado por força das contingências políticas até 1999, ano em que o povo timorense expressou, por referendo, o seu desejo de liberdade.
Destruído em setembro desse ano pelas forças integracionistas pró‐indonésias, o imóvel seria recuperado por iniciativa conjunta da UNESCO, da Administração provisória das Nações Unidas (UNTAET), do Banco Mundial e do Governo Português, para ali ser instalado o Centro Cultural Uma Fukun (Casa da Cultura). O Centro foi dotado de biblioteca, videoteca, didateca e um auditório.
O imóvel apresenta uma estrutura espacial muito interessante e talvez única em dispositivos de natureza militar, dado não ser encerrado pelos quatro lados, mas apenas em três, com o flanco norte aberto e virado ao mar, numa escala reduzida, mas equilibrada no jogo de tensões entre as edificações chãs e o terreiro vazio da parada, em cuja composição o lado do mar adquire uma presença forte e grande significado.
A abertura sobre cenário marítimo com a Ilha de Atauro em fundo, negando o carácter sólido e encerrado de uma fortificação militar, só terá sido possível pela existência do banco de coral que, de forma natural e sem necessidade de investimento humano, assegura a defesa desse sector, impossibilitando o acesso por mar a forças inimigas de mobilidade rápida, uma vez que os meios navais ao tempo disponíveis exigiam calas muito superiores às existentes.
A estrutura arquitetónica do conjunto é definida por três corpos formando um U, com as alas nascente e poente perpendiculares ao mar e a ala de base paralela à praia, afirmando o lado mais urbano e de composição clássica, também paralelo ao arruamento de serviço. Este tem no espaço urbano a posição da rua direita das praças estabelecidas pelos portugueses em implantações de litoral.
Todo o conjunto se desenvolve num único piso de pé‐direito alto, sendo as alas laterais formadas por cobertura de duas águas correndo ao longo dos extensos alçados sobre a rua e a parada. São demarcados por cornija e molduras, com vãos de peito e de porta dispostos segundo métrica regular ao modo oitocentista, dominando no lado da parada os vãos de porta, para facilidade de usos, e do lado urbano os vãos de peito, garantindo maior intimidade e proteção. Os topos em paramentos são rematados com forma pentagonal e frontão triangular e pináculos paralelepipédicos nos cunhais, encimados por pequenas pinhas em forma tronco‐cónica.
Na ala central, também de cobertura em duas águas, fazendo subir o carácter representativo na face de apresentação urbana, foi dado destaque aos volumes dos topos das alas laterais. Foram também sobre‐dimensionados os vãos, para uma proporção mais próxima do vão de sacada, e criada uma pala sinalizando o acesso principal e a eixo de simetria da composição, suportada por quatro colunas e aplicando um pequeno frontão curvo na arquitrave do intercolúnio central. No fundo, vemos neste edifício oitocentista uma composição muito equilibrada e característica da arquitetura portuguesa do século XVIII.

Edmundo Alves

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