Igreja de São José

Igreja de São José

Vasai Fort (Baçaim/Baçaím/Bassaim/Bassein), Maharashtra, Índia

Arquitetura religiosa

Restam da igreja matriz de Baçaim, fundada após instrução direta do rei D. João III a João de Castro em março de 1546, as paredes laterais da nave e da capela‑mor, a abóbada de berço com caixotões que cobre esta última, grande parte do corpo frontal (torre sobre nártex no piso baixo, coro alto com arco voltado à nave, campanário a norte da torre em posição ligeiramente recuada mas da mesma altura). E ainda a capela a sul que faz de braço direito do transepto, quadrada, coberta com uma abóbada de arestas, o arco que dava acesso à capela transeptal oposta, cujas paredes caíram até aos arranques, as molduras da porta lateral para a rua desse lado, o vão da porta para um pátio ou claustro a sul, de que já não há vestígios. Caiu a parede traseira da capela‑mor, que seria provavelmente reta.
Tratava‑se portanto de uma igreja de nave única retangular bastante comprida, coberta de telhado, corpo ocidental de torre sobre nártex, abrigando um coro alto, com um ou dois campanários flanqueando a torre ao modo de torres laterais recuadas, capela‑mor abobadada, duas capelas funcionando como transepto mas sem expressão espacial na nave, porta lateral para a rua.
O vão lateral, em arco de volta inteira enquadrado por colunas caneladas sustentando um entablamento completo, é característico da arquitetura portuguesa das décadas de 1540 e 1550. No corpo da nave abrem‑se janelas de duas épocas distintas: a poente, perto do corpo frontal, as janelas são estreitas, colocadas a grande altura, sendo provavelmente da década de 1550. Mais perto da capela‑mor há uma janela de dimensões mais regulares e posição mais cerca do solo, certamente mais tardia.
Uma lápide até há pouco tempo existente sobre a porta principal informava que, sob o arcebispado de Frei Aleixo de Menezes, o vigário Pedro Galvão Pereira reformou a igreja em 1601. Existia no pavimento da igreja a pedra tumular do vigário, contendo os seus ossos transferidos de Goa, onde faleceu em 19 de março de 1618. A inscrição atribuía ao vigário o alargamento ou aumento do templo (templum hoc qui […] auxit). Podem ser do início do século XVII a abóbada de caixotões da capela‑mor, as molduras do arco triunfal, o coroamento e pináculos da torre.
É possível concluir‑se que o essencial do tipo, da nave e da frente poente da igreja date da década de 1550, mas que a cabeceira e as obras altas podem ter resultado de uma campanha de obras do início do século XVII.
No que respeita à arquitetura cristã na Índia, o aspecto mais interessante da matriz é o corpo frontal de torre sobre nártex.
No século XVI, os arquitetos e pedreiros portugueses construíram na Índia, além de São José de Baçaim, mais quatro famosas igrejas deste tipo, embora algumas tenham desaparecido já há muito tempo: a Sé de Santa Cruz de Cochim (substituída por uma igreja moderna), a primeira Sé de Goa, dedicada a Santa Catarina, e, também em Goa, as paroquiais de Nossa Senhora da Luz e Nossa Senhora do Rosário (a única que ainda existe). Não pode tratar‑se de uma coincidência que as igrejas matrizes de Goa, Cochim e Baçaim tivessem todas adotado o mesmo tipo (pode pôr ‑se a hipótese de ter‑se passado o mesmo com a igreja matriz no Forte de Diu, a julgar pelo famoso desenho de Gaspar Corrêa).
O tipo de corpo frontal com torre sobre nártex floresceu na arquitetura portuguesa e do sudoeste da atual Espanha precisamente nas primeiras décadas do século XVI. O tipo é primo‑medieval, com origem na arquitetura carolíngia do século VIII, e tornou‑se bastante comum na arquitetura cristã da Europa central e dos reinos cristãos das Astúrias durante os séculos IX e X. Apareceu depois por todo o lado, desde igrejas paroquiais nas ilhas britânicas no século XII até igrejas monásticas ou episcopais do Sul da França nos séculos XII e XIII, passando daí à Península Ibérica e surgindo, por exemplo, nas igrejas de agostinhos de Santa Cruz de Coimbra e São Vicente de Fora de Lisboa no século XII. Mas a sua relevância para a arquitetura portuguesa da Idade Moderna resulta de que foi o tipo de corpo frontal por excelência das igrejas da Flandres entre o século XIV e o início do século XV. Daí terá sem dúvida derivado a renovação da sua popularidade nas regiões da Península com mais contactos com a Flandres: Portugal e o vasto hinterland de Sevilha.
Surgiu em Portugal no período manuelino uma série de igrejas desse tipo, todas sedes paroquiais. Santa Catarina de Goa, Santa Cruz de Cochim e São José de Baçaim partilhavam a mesma dignidade religiosa: eram os templos católicos principais das respectivas povoações e, nesse sentido, igrejas fundacionais de território católico em ambiente manuelino de cruzada.
É nossa opinião que a execução dos projetos e o início das obras das igrejas de Goa e Cochim deve ter tido lugar entre as décadas de 1520 e 1530. A Igreja de São José de Baçaim terá sido traçada e construída, no essencial, duas décadas depois. A porta lateral de São José é exatamente do mesmo tipo que as portas axial e laterais da Igreja do Rosário, porque estas foram esculpidas e inseridas na obra goesa apenas na década de 1550, altura em que a igreja de Baçaim se fazia.
Pelo contrário, a grande torre do Rosário, com os seus torreões cilíndricos albergando escada e capela batismal e as colunas torsas nos cunhais, é radicalmente manuelina - tem pouco que ver com a forma "magra" e clássica da torre de Baçaim, que recorda torres estremenhas e andaluzes mais tardias, e as torres de Atalaia e de Areias.
Deste modo, as duas únicas igrejas de corpo frontal de torre sobre nártex que sobreviveram até hoje, uma em bom estado (Nossa Senhora do Rosário de Velha Goa), outra em ruínas, mas reconhecível (São José de Baçaim) testemunham de modo quase laboratorial a transição nas décadas de 1530 a 1550 da arquitetura portuguesa entre o manuelino e o gosto à romana, dentro da mesma escolha tipológica. Neste sentido, entre outros, a matriz de Baçaim é um edifício precioso e raro.

Paulo Varela Gomes

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