Sacromonte

Sacromonte

Mandapeshwar (Manapacer, Mount Poinsur), Área Metropolitana de Mumbai (Bombaím), Índia

Arquitetura religiosa

A sul da Igreja da Nossa Senhora da Conceição de Manapacer, escondida da vista por construções colgiais modernas, encontra‐se uma edificação singularíssima no panorama da arquitetura cristã, a pedir consideração urgente como património mundial de absoluta unicidade. Foi identificada como um Sacromonte de culto mariano, construído provavelmente na segunda metade do século XVII. Sobre uma pequena elevação cónica artificial dispõe‐se uma capela de planta circular coroada com uma cúpula de traçado clássico com lanternim cego, atualmente rematado com uma imagem de Cristo moderna. O caminho para a capela espirala ao longo da elevação e através dele se acede a sete pequenas grutas escavadas na elevação, também de planta circular, todas cobertas com abóbadas de gomos. Existem na Europa e na América Latina várias vias‐sacras no exterior e no interior de igrejas, e até sacromontes mais ou menos completos, de devoção mariana, mas não é conhecido nenhum sacromonte mariano (ou sequer cristológico) com a forma do que se ergue em Manapacer. É possível que as características do Sacromonte de Manapacer apontem para uma influência exercida pelas próprias grutas hindus da Ilha de Salcete. Deste modo, os nichos escavados na pequena elevação recriam o imaginário das grutas dos ascetas hindus que os franciscanos ocuparam e reaproveitaram. O Sacromonte não foi mencionado por Frei Paulo da Trindade na sua Conquista Espiritual do Oriente, de cerca de 1629. A primeira referência ao Sacromonte conhecida encontra‐se na descrição de Gemelli Carreri, que esteve em Manapacer antes de 1699 e escreveu que no topo de uma elevação próxima do colégio franciscano existia outro eremitério com uma capela. O Sacromonte foi portanto construído entre a década de 1630 e o final do século XVII. Os observadores britânicos do século XIX, ignorantes das coisas católicas mas curiosos e sistemáticos, des‐ creveram cuidadosamente o Sacromonte, embora se tenham enganado sobre a sua função. Esse engano durou até hoje, o que teve a inesperada mas bem‐vinda vantagem de evitar intervenções modernas na construção. Henry Salt, em 1804, pensou que se tratava de um observatório e que, portanto, não podia ter sido criado pelos "preguiçosos monges de S. Francisco", devendo‐se antes aos jesuítas, um preconceito muito comum na época e ainda hoje. Em 1876, Gerson da Cunha, ape‐ sar de ser católico, identificou a estrutura como uma torredevigilância. A Gazeta britânica de 1882 descreveu pormenorizadamente o sítio aceitando que se trataria de uma torre de vigilância, embora tomando nota de que os locais designavam a capela situada no topo como "Sir‐Padri’s Bungalow", ou seja, a residência do padre. Haveria um monte com quarenta e cinco metros de altura sobre o qual se erguia a estrutura. Vestígios desse monte ainda aparecem numa fotografia publicada por Brás Fernandes em 1908 mas, entretanto, fizeram‐se várias construções no local. A torre, diz a Gazeta, tinha catorze metros e a capela no topo cinco metros e trinta até à cornija, o que corresponde ao existente na atualidade. Pouco depois de Brás Fernandes ter publicado a fotografia, os irmãos da Ordem Terceira de São Francisco voltaram a Manapacer, um século e meio depois da invasão marata. Construíram uma escola, um orfanato e uma reitoria a sul da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, escondendo - e protegendo - o Sacromonte. Esses edifícios foram depois modernizados.

Paulo Varela Gomes

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