Escola Primária Parque Popular (antiga Escola Primária de Nampula)

Escola Primária Parque Popular (antiga Escola Primária de Nampula)

Nampula, Nampula, Moçambique

Equipamentos e infraestruturas

A "Escola Primária Parque Popular" (1960) é um dos muitos exemplos construídos do projecto-tipo "Escola com Oito Salas de Aula" desenvolvido por Fernando Mesquita.

A "Escola com Oito Salas de Aula", destinada às áreas centrais das principais cidades moçambicanas, é o projecto-tipo de maior dimensão e complexidade programática de todas as tipologias escolares, destinadas ao ensino primário, projectadas por Fernando Mesquita (1916, Vila Real-1990s, Maputo) em Moçambique, entre 1955 e 1975.

Resultado da conjugação duplicada da "Escola com Quatro Salas de Aula" (Ver entrada "Escola com 4 Salas de Aula") num único edifício, a "Escola com Oito Salas de Aula" é a melhor preparada para o ensino misto.

A separação dos sexos conduz a uma tipologia constituída por dois pavilhões independentes, de quatro salas de aula, simétricos em relação à galeria coberta de circulação principal, à qual estão conectados perpendicularmente por galerias de acesso às salas que diminuem de perfil à medida que se afastam daquele eixo. Este pormenor que pode confundir-se com um capricho formal justifica-se pelo facto de no espaço enquadrado pelo encontro das três galerias se situar o recreio coberto, destinado às funções de convívio e da prática da educação física. Com uma complexidade programática superior à dos modelos mesquitanos com menos salas de aula, continua a ser ao longo da galeria de circulação principal que se localizam as funções complementares à educativa.

Em nenhum outro projecto o recreio se lê tanto como o centro vivo da escola. A partir dele se distribui a unidade educativa repartida em dois corpos de quatro salas de aula, junto a ele se encontram as instalações sanitárias, o gabinete médico que remata o conjunto formado pelos serviços administrativos e o refeitório, que apresentando também a função de sala de reuniões festivas assume em pleno a função de espaço comum em complementaridade com o recreio. Faz também parte do programa funcional deste modelo escolar a habitação do guarda que inclui dois compartimentos e um pequeno pátio de serviço com as instalações sanitárias e um lavadouro.

Também a nível construtivo esta escola se distingue das outras, através da exploração das potencialidades plásticas do betão armado, expressas nas clareza das ossaturas que definem o conjunto das coberturas e paredes inclinadas e sistema de coberturas planas assentes sobre pilotis. Os brise-soleil são coincidentes com os próprios pilares da estrutura, que através de um ressalto da fachada, são manipulados de maneira a que os grandes envidraçados estejam devidamente protegidos, quando virados a Sul. Como contrafortes, a sua largura aumenta à medida que se aproximam da base, variando entres os 80 e os 100 cm. A solução de uma só água nestas escolas é também uma atitude extremamente moderna que, afastando-se do padrão comum, a par com uma poupança de recursos, concentra o escoamento das águas para o lado oposto ao da circulação dos utilizadores. A ampla caixa-de-ar permite um eficiente isolamento sonoro nas salas de aula em períodos de chuva.

Ao contrário dos restantes projectos-tipo, projectados com vista à possível ampliação, a "Escola com Oito Salas de Aula" foi concebida enquanto obra encerrada: estruturada também de acordo com o módulo dimensional sala de aula, tanto o sistema estrutural da cobertura inclinada como a organização em planta - com destaque para a concepção da galeria afunilada - não permite futuras ampliações. Seguia-se o princípio da Carta das Construções Escolares (1959) de que as escolas deveriam reflectir a escala dos seus utilizadores, pelo que no caso das primárias não deveriam possuir mais do que um piso e 8 salas era a medida considerada máxima.

Os princípios climáticos deste projecto-tipo são em tudo semelhantes aos restantes do programa de Fernando Mesquita: orientação longitudinal, com as fachadas de maior desenvolvimento orientadas no sentido Este-Oeste, de modo a proteger do Sol as suas duas maiores paredes, protegidas com dispositivos de sombreamento verticais (brise-soleil, em continuidade com a estrutura, ou galerias de circulação coberta) e a localização dos vãos de maior dimensão orientados para que os ventos predominantes garantam a ventilação cruzada no interior das salas de aula. As galerias de circulação coberta, na fachada oposta à da direcção do vento, garantem o percurso protegido em dias de chuva. As janelas-beta permitem a orientação da luz natural e da direcção do ar para o nível dos utilizadores e do plano de trabalho e garantem a ventilação natural permanente da sala de aula, mesmo sob a acção das chuvas.

Quer visitando o território e os arquivos históricos, quer recorrendo ao auxílio do Google Earth, facilmente se constatará que foi este um dos projectos que mais repercussões teve na infra-estruturação escolar do território urbano de Moçambique: das localidades mais reduzidas como Chimoio à grande capital Maputo, podemos constatar a existência deste modelo. Para além de a "Escola Primária de Nampula" (1960), a "Escola Primária de Vila Pery" (1960), a "Escola Primária Completa de Macatuane", na Beira e a "Escola Primária de Quelimane" são alguns exemplos dessa concretização. Inquestionavelmente caracterizadas por uma exacerbada racionalidade, economia e eficácia funcional, a sua implementação em larga escala assume um protagonismo inegável em todo o território Moçambicano.

Zara Ferreira

(Referência FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

Loading…