Sede do Grupo Entreposto Comercial de Moçambique

Sede do Grupo Entreposto Comercial de Moçambique

Maputo [Lourenço Marques], Maputo, Moçambique

Urbanismo

O conjunto de edifícios da Sede do Grupo Entreposto Comercial de Moçambique (1969-1972), localizado na franja industrial de Maputo, é um projecto do arquitecto João José Tinoco (1924-1983), concluído na primeira metade da década de 1970 resultante da encomenda privada de um dos maiores grupos económicos a actuar no território moçambicano à data da sua construção.

Composto por 3 edifícios dispostos em "U", a sua construção ocorreu em duas fases distintas: o primeiro edifício a ser erguido em 1969, está implantado ao longo de um eixo perpendicular à Avenida do Trabalho e integra o stand virado para a avenida, o armazém e o bloco do cais de cargas e descargas a tardoz. Posteriormente, em 1972, foi construído o corpo principal que abriga a sede com administração e escritórios e que se estende ao longo da Avenida marcando, devido à sua dimensão, a imagem de modernidade da empresa.

O grande stand de automóveis situa-se justamente no piso térreo. Finalmente, o edifício sede garante o acesso à grande nave do armazém a tardoz que constitui o braço do "U". O stand principal domina o conjunto com a sua transparência a Avenida do Trabalho, desenvolvendo-se como um espaço de duplo pé-direito ladeado pelos serviços administrativos instalados no piso térreo e no primeiro piso, em jeito de mezzanine. Dois pátios interiores localizados próximo do tardoz iluminam os espaços de circulação dos dois pisos sublinhando a transparência do edifício. A cada extremo da fachada do stand dois brutais cabeções em betão aparente, assentes sobre o vazio, avançam em consola sobre o espaço exterior enfatizando a expressão brutalista do conjunto.

A amplitude conferida pelo duplo pé-direito dá lugar a um espaço de dimensões contidas, por onde se acede ao stand e aos balcões de atendimento. As traseiras da fiada de balcões comunicam com o piso térreo do armazém, que se desenvolve perpendicularmente ao edifício do stand e é composto por três pisos acima do solo e um subterrâneo. Uma área significativa do piso térreo é composta por um denso sistema de estantes suportadas por uma estrutura metálica, acessível por uma escada de três ramos em betão bruto que liga verticalmente a cave, o piso térreo, o primeiro piso de estrutura metálica e o segundo piso. No tardoz do armazém localiza-se o corpo do cais de cargas e descargas, mais compacto que o armazém mas de aspecto formal semelhante. Do lado oposto do pátio, o edifício de escritórios apresenta três pisos acima do solo, o piso térreo e o primeiro piso - que comunicam directamente com o edifício do stand principal - e o segundo piso.

A Sede do Grupo Entreposto assume-se assim como a reunião de três programas maiores - armazém de pecas e viaturas, stand automóvel e escritórios - com implicações espaciais e exigências de segurança, conforto e acessibilidade distintas. João José Tinoco busca uma linguagem formal comum a todo o conjunto respondendo estruturalmente as necessidades de ventilação e controlo da luz, inerentes as especificidades climatéricas de Maputo. O ritmo resultante dos dispositivos brise soleil verticais vermelhos (retirados no período pós-independência de Moçambique) instalados na fachada do edifício de escritórios humaniza estes de estadia contrastando com a tectónica contida no corpo do armazém.

O armazém não se quer exposto, fecha-se sobre si mesmo, abrindo apenas esguias aberturas nos panos espessos das paredes forradas a tijolo de burro, escuro. No desenho original, o armazém recebe luz e ar através da cobertura, desenhada numa logica semelhante a utilizada na fábrica de relógios "A Reguladora" (1970). No interior, a estrutura destaca-se pela expressividade das vigas, apoiadas numa malha de pilares duplos com arestas boleadas, criando um espaço de impacto espectacular. O pormenor do desenho da escada reporta aos primeiros desenvolvimentos da estética do betão bruto na arquitectura do Movimento Moderno e dialoga de forma evidente com a aridez do interior do armazém.

Assumindo nesta obra um brutalismo desassombrado, João José Tinoco não descura no pormenor, detalhando intensamente os espaços interiores das salas da administração com um desenho pouco frequente no quadro da encomenda privada de programa industrial e de serviços, em Moçambique. As portas destes gabinetes são estofadas a pele vermelha, que é também a cor e material dos sofás, cadeiras e do tampo da mesa da sala de reuniões, bem como dos perfis humanos do óleo de Malangatana Valente Ngwenya (1936-2011), que assinala o eixo da sala. Esta opção segue a lógica expressa através dos brise soleil dos sistemas exteriores de sombreamento e drenagem de águas, também da mesma cor, assumindo um inequívoco valor de corporate design e assim transmitindo a identidade do grupo empresarial, cuja cor distintiva é precisamente o vermelho. O ambiente e ainda definido pelas madeiras escuras, pela alcatifa de padrão sóbrio e pelo desenho de elementos distintos, designadamente o sistema AVAC, a sinalética ou os espaços de arrumação, que se estendem a todo o piso nobre do edifício de escritórios.

Finalmente, o edifício da Sede do Grupo Entreposto responde eficazmente as condições especificas do lugar, contribuindo para uma surpreendente percepção do edifício. A sua escala, aliada a diversidade programática e ao grau de pormenorização realizada de acordo com os diferentes espaços e funções, contribuem para a criação de um conjunto edificado que se tornou uma referência.

Actualmente o edifício mantém a organização espacial do projecto inicial. Alguns dos espaços encontram-se abandonados, e vários dispositivos verticais de sombreamento foram removidos o que contribui para a sua degradação.

Original de Ana Tostões e Francisco Seabra Ferreira.

(FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

Adaptação de Ana Tostões e Daniela Arnaut.

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