Edifício Cirilo & Irmão

Edifício Cirilo & Irmão

Luanda [São Paulo de Luanda], Luanda, Angola

Habitação

O edifício Cirilo & Irmão (1958) constitui um exemplo da arquitectura moderna desenvolvida em Luanda nos anos 50, apresentando características próprias desta produção, nomeadamente o impacto do clima tropical traduzido na implantação do edifício favorável à ventilação natural e exposição solar, em conjunto com a utilização plástica dos materiais, a integração de outras formas de arte, e o desenvolvimento de elementos estruturais de forma escultórica.

Entre 1946 e 1972, o café torna-se o principal bem de exportação em Angola, gerando riqueza, prosperidade e o consequente investimento. A família Cirilo pertence a este grupo de investidores, proprietária de uma das maiores roças da região de Dembos, localizada na zona noroeste de Angola, a Roça Monserrate, e detentora da empresa Cirilo & Irmão, Lda. criada com o objectivo de desenvolver o sector da construção civil. A edificação da sede da empresa em Luanda será desenhada por Francisco Pereira da Costa (1923-1976) e José Pinto da Cunha (1921-1985), jovens arquitectos empenhados na afirmação da arquitectura moderna em Luanda.

O edifício Cirilo & Irmão, concluído em 1958, está situado numa das artérias comerciais da baixa de Luanda, Rua Major Kanyangulo, e é um bloco de utilização mista constituído por um piso térreo comercial de duplo pé direito marcado por uma lâmina horizontal de sombreamento em betão a toda a extensão da fachada. Os escritórios dispõem-se no 1º piso, e habitação nos pisos superiores. A entrada é assumida como um espaço de duplo pé direito em que a generosidade espacial é celebrada através de um mural em pastilha cerâmica (evinel) com motivos referentes à geografia africana, ao habitat, e à cultura do café, usando fundo de cores frias e apontamentos simbólicos exuberantes em cor amarela e vermelha.

Os apartamentos são desenvolvidas em diferentes tipologias, apartamentos duplex no 3º, 4º, 8º e 9º pisos e apartamentos de um só piso no 5º, 6º, 7º e 10º pisos, resultando diferentes soluções de fachada. A fachada principal está orientada a Sudeste recebendo o Sol de manhã, como tal, a dupla de arquitectos cria uma segunda pele recorrendo ao desenho uma larga quadrícula de elementos de betão que permite o sombreamento, atenuando os efeitos nocivos da luz solar directa. Ainda na fachada principal é possível identificar a cozinha para a qual foi desenvolvida uma grelha em betão como sistema de protecção, sombreamento e ventilação. Na fachada tardoz, orientada a Noroeste, a protecção é assegurada através do sombreamento gerado pela galeria horizontal de circulação e por brise-soleils horizontais. No 9º piso os apartamentos eram constituídos por terraços privados que hoje estão fechados e ocupados transformando a imagem original do edifício.

A circulação no edifício é constituída por dois sistemas separando a área de serviço de escritórios e a zona habitável cuja circulação vertical é assegurada a tardoz por uma coluna de escadas e um elevador, coordenados com a circulação horizontal composta por um conjunto de galerias e pontes suspensas que estabelecem a ligação entre o volume autónomo de circulações verticais, localizado a 4 metros de distância do volume principal, e os apartamentos. O acesso ao interior dos apartamentos é feito através de uma área semi-privada, que permite a transição entre a zona pública das galerias do edifício e os apartamentos. Esta área encontra-se agora fechada com grades de segurança descaracterizando a ideia inicial de transição gradual. O volume de circulações verticais é caracterizado por uma forte expressão plástica e sentido compositivo definido através da localização de grelhas de betão que acompanham o movimento de subida das escadas, proporcionando a entrada de luz e a ventilação natural permanente.

O material mais utilizado é o betão, com diferentes aplicações, desde a estrutura, às guardas dos corredores e galerias de circulação, passando pelos diferentes tipos de dispositivos de sombreamento. As caixilharias originais são em madeira, mas com as progressivas alterações que o edifício tem vindo a sofrer, foram sendo substituídas por alumínio, sobretudo nos espaços que foram fechados, como as varandas recuadas que existiam na fachada principal.

Original de Ana Tostões e Jéssica Bonito

(FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

Adaptação de Ana Tostões e Daniela Arnaut.

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