Bloco de Habitação Coletiva (Edifício Servidores do Estado)

Bloco de Habitação Coletiva (Edifício Servidores do Estado)

Luanda [São Paulo de Luanda], Luanda, Angola

Habitação

O edifício dos Servidores do Estado (1965 – 1968) desenhado por Vasco Vieira da Costa (1911-1982) em 1965 para acolher os funcionários públicos a trabalhar em Luanda, encontra-se implantado paralelamente à Rua Amílcar Cabral, uma das ruas mais movimentadas de Luanda que liga o centro da cidade ao aeroporto. O bloco de habitação colectiva constitui uma mega-estrutura orientada a Nordeste-Sudoeste, orientação desfavorável no que respeita à insulação e à ventilação, limitações que serão ultrapassadas através dos inteligentes mecanismos de controlo climático projectados.

O bloco destaca-se no contexto urbano pelas suas dimensões: a Oeste é envolvido por um conjunto urbano de expressão orgânica constituído por construções maciças de baixa altura, o musseque “Prenda” onde se situa a unidade de habitação (1963-1965) projectada por Fernão Simões de Carvalho (1929), a Este por uma malha ortogonal preenchida fundamentalmente por um conjunto urbano de expressão orgânica constituída por habitação de baixa densidade com edifícios de três pisos que se estende ao bairro Alvalade, e onde a rua Padre Francisco Gouveia, nas traseiras, representa a fronteira imediata com o bairro de baixa densidade da Maianga.

O edifício Servidores do Estado corresponde a um volume composto por cinco pisos elevado sobre pilotis que libertam o piso térreo vazado, e em conjunto com a acentuada inclinação da Rua Amílcar Cabral permitem a criação de um espaço público aberto e permeável que liga as duas ruas, proporcionando o acesso à área de estacionamento sob o edifício, e à entrada protegida da via de grande tráfego realizada a tardoz pela Rua Padre Francisco Gouveia. Através de uma composição simétrica, a entrada é definida no eixo central onde é colocado o corpo de acesso constituído pelo elevador, e duas escadas que se encostam, separadas por uma alheta, às galerias horizontais de distribuição localizadas nos vários pisos.

As galerias, com 2 metros de largura e 80 metros de comprimento, são corredores semiprivados afastados do volume principal 1,5 metros e interrompidos para permitir o acesso aos apartamentos através de uma entrada privada desnivelada composta por 3 degraus que evidenciam a transição entre o espaço colectivo e o espaço privado, promovendo, simultaneamente, a privacidade das áreas dos apartamentos em contacto directo com as galerias.

Os 23 eixos estruturais, colocados a 3,5 metros de afastamento entre si, são a base da modulação e organização de cada piso, composto por cinco T3 (166.10m2), e por um T1 (81.30m2) situado na extremidade norte da construção completando a ideia de simetria desenvolvida por Vasco Vieira da Costa nesta obra.

Cada uma das tipologias dominantes (T3) é desenhada entre 4 eixos estruturais. A organização funcional é disposta subdividindo as áreas sociais e privadas em 2 eixos estruturais cada. A divisão funcional é também definida de acordo com a relação com as fachadas: viradas para a fachada Este, em contacto com as galerias dispõem-se as áreas de serviço, como a cozinha, casas de banho, arrecadação e um dos quartos; e na fachada principal, a Oeste, as áreas nobres da sala de estar, jantar e varanda, bem como os dois quartos principais.

As áreas generosas, e a relação entre a sala de estar (35m2) e varanda (21m2) fazem parte das inovações deste projecto onde Vasco Vieira da Costa define a sala de estar como um ambiente protegido do exterior através da concepção da varanda como um sistema de sombreamento e ventilação do interior. O arquitecto permite ainda o completo isolamento destes dois espaços através de portas de correr. A varanda, virada para a fachada principal, permite manter uma relação permanente com o exterior através do sistema de encerramento, sombreamento e ventilação que é concretizado através de lâminas orientáveis de madeira que asseguram a ventilação permanente e a relação com o exterior. Na mesma fachada Oeste são utilizadas grelhas de betão, recuadas relativamente ao plano principal da fachada, para proteger os quartos e as respectivas varandas da exposição ao sol e para promover a ventilação natural. Vasco Viera da Costa demonstra nesta obra o seu génio criador, resolvendo os limites decorrentes da exposição desfavorável inventando dispositivos eficazes dos quais retira as ilações formais que definem o caracter único deste edifício.

Na fachada Este, as áreas funcionais são protegidas da exposição solar através das próprias galerias que criam uma sombra protectora, e das lâminas de madeira orientáveis (janelas-beta) que possibilitam a ventilação natural do quarto, cozinha e casas de banho. A ventilação natural transversal é adicionalmente assegurada no interior dos apartamentos através de uma faixa livre entre o tecto e a parede, onde uma solução engenhosa de lâminas orientáveis de madeira é utilizada: na parede que separa a sala de estar da varanda, na parede que separa o corredor dos quartos, na parede da entrada no apartamento ao lado da porta, e nas portas interiores.

O contraste formal entre as duas fachadas principais resulta da localização das diferentes áreas funcionais, da relação com contexto urbano, e das diferentes respostas relativas à exposição ao solar e à ventilação natural desfavoráveis que Vasco Vieira da Costa resolve diferenciadamente desenvolvendo sistemas construtivos funcionais e plasticamente expressivos. Na fachada principal, é criada uma segunda pele através de uma sequência de linhas horizontais interrompida por grelhas de betão, na fachada tardoz a estrutura é tema da composição juntamente com os sistemas de ventilação dos acessos verticais e com as galerias horizontais, concebidas como um plano dobrado que se estende além dos limites físicos do edifício, numa clara referência à obra de Le Corbusier, às sky streets de Alison (1928-1993) e Peter Smithson (1923-2003), ou a tradição construtiva em muitas das zonas tropicais africanas e asiáticas.

O desenho de Vasco Vieira da Costa acentua o volume horizontal do edifício através de jogos volumétricos de luz / sombra, define o desenho de planos avançados e recuados, utiliza grelhas de betão rugoso, e afirma a estrutura através das vigas transversais que expandem os limites do edifício criam ritmo e conferem uma expressão brutalista, onde a estrutura é trabalhada como um elemento plástico. A condição de baixo custo da construção levou ao desenvolvimento soluções criativas e a um desenho rigoroso que está na base de uma precisão construtiva e de aproximação a uma "construção seca", baseada no uso de betão à vista e madeira, sem argamassa, propostas relacionadas com conceito brutalista da década de 60.

Hoje o edifício dos Servidores do Estado é um edifício transformado, onde as premissas iniciais foram subvertidas: os espaços públicos e semi-privados foram ocupados e transformados em pequenos apartamentos ou estabelecimentos comerciais, e as varandas foram maioritariamente fechadas e introduzidos sistemas mecânicos de ar condicionado.

Original de Ana Tostões e Jéssica Bonito

(FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

Adaptação de Ana Tostões e Daniela Arnaut.

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