Igreja (ruínas)

Igreja (ruínas)

Gorgora Nova, África Oriental com a Etiópia, Etiópia

Arquitetura religiosa

A igreja, também conhecida como Maryam Gimb, era de uma só nave de berço, a qual, ao fim de mais de 350 anos de abandono, ruíu no verão de 1996 (Ramos, 2000, p. 169). Deveria ser notável, com a sua alta e rica abóbada de pedra finamente trabalhada em caixotões, a lembrar a Igreja do Bom Jesus de Goa. Resta ainda uma pequena porção da abóbada da capela-mor, esplêndida na forma como se mostra, banhada pelos reflexos luminosos da limpidez aquática do Tana.
Talvez não haja mais ocasião de voltar o olhar para cima e procurar os reflexos da luz, transfigurada nas molduras "indo-portuguesas" do teto do altar de Gorgora: a situação periclitante daquela porção da obra provavelmente fará com que não tarde a desaparecer.
As adaptações e ampliações em que consistiu a remodelação da residência imperial, quando Susenyos se mudou para Danqaz, não deixaram, tal como aqui, lugar a eventuais indícios das marcas que virão a constituir o principal elemento identificador do "estilo gondariano" (e que já estava presente em Guzara). A ausência dos esguios cubelos cilíndrico-cónicos rematados por cúpulas de forma ovóide parece poder indicar um caminho interpretativo de uma "repurificação" (classicizante) da arquitetura como representação social, que terá acompanhado a reforma católica levada a cabo no final do primeiro quartel do século XVII. Aliás, os principais gestores de Gorgora, Danqaz e outras realizações jesuítas eram espanhóis. Ao contrário dos portugueses, que intervieram em Guzara, não assumiriam, por isso, a influência natural da arquitetura manuelina, que incluía as marcas dos contrafortes cilíndricos e dos botaréus cónicos das igrejas e ermidas alentejanas dos princípios de Quinhentos, do Priorado de Goa ou da afirmação estilística serôdia de Evoramonte. Por outro lado, a proximidade interpretativa possível com dispositivos construtivos que surgem nas mesquitas suaílis (talvez relacionados com uma simbólica fálica - como expressão da fertilidade e da vida - na concepção dos minaretes), foi provavelmente expurgada do programa arquitetónico "puritano" comandado pelos discípulos de Loyola.

João de Sousa Campos

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