Arquitetura Militar

Arquitetura Militar

Essaouira [Mogador], Norte de África, Marrocos

Arquitetura militar

A história de Mogador é uma consequência da sua geografia, da relação entre o recorte rochoso do bordo da planície, onde se localiza o porto, e a zona abrigada da ilha que o confronta. O local era frequentado desde a antiguidade por fenícios e romanos, sendo, por vezes, visitado no século XIV por navios de Veneza, Génova, Pisa, Marselha, Catalunha e Aragão. Estes contactos entre a Europa e o Magrebe que tinham em vista o comércio, embora mais frequentes no Norte de Marrocos, alcançaram de forma crescente a região do Suz.
Terá existido aí uma colónia de pescadores que se dedicava à recolha do múrice para obter uma substância de cor entre o vermelho e o azul, o corante púrpura, na ilha que se encontrava defronte da pequena enseada, onde existia a povoação. Era um ancoradouro seguro, na antiguidade e no período medieval, que acolhia os navios que ali comerciavam.
O desenvolvimento de Mogador terá sido fruto do impulso provocado pela procura do referido molusco que tingia os tecidos, conjugada com o escoamento dos produtos agrícolas e dos têxteis transportados pelas caravanas que ali afluíam. A geografia do local teve um papel determinante na fixação da população. A ilha fronteira ao povoado, denominada no período romano Purpuriae Insula, protegia o ancoradouro da fúria do mar. As condições eram tão favoráveis que os navios podiam mesmo invernar no local.
A origem da designação daquele sítio terá derivado, de acordo com El Bekri, geógrafo do século XI, do nome do santo local Sidi Mogdoul. O vocábulo "Migdol" significava torre ou fortificação em fenício e poderá ter apelidado o santo. El Bekri, na Descrição da África Setentrional, afirma que o porto de pesca tinha, a seguir à islamização, esse religioso como padroeiro. É desse hierónimo e através das formas "Mogful" e "Mogodor", que o nome da povoação surge, já como "Mongoder", nos portulanos do século XIV, daí evoluindo para o topónimo atual.
A história de Mogador resulta, essencialmente, de um cruzamento da cultura magrebina do Suz com a cultura europeia‐mediterrânica. No século XVII aquele ponto foi até um conhecido abrigo de corsários. O porto, que foi durante séculos utilizado para trocas específicas e pouco intensas com o exterior, altera a sua atitude no fim do século XVIII. Depois de construída a vila atual, esta passou a estar bastante aberta à navegação estrangeira e ao comércio internacional. Não foi por acaso que Portugal teve ali os seus cônsules durante a centúria de Setecentos, tendo sido um deles João António de França.
Essaouira é o produto dessa nova política. A estrutura urbana, então construída, tem uma rede primária de ruas hipodâmicas, de onde partem becos que dão acesso ao interior dos quarteirões. Este aglomerado foi envolvido por uma muralha de feição medieval, que funcionava como recinto de segurança. As portas fechavam ao pôr‐do‐sol. Isto aconteceu porque o comércio tinha passado a ser controlado pelos habitantes desta nova Mogador. Da povoação de pescadores que, durante um curto período, conheceu a presença dos portugueses num pequeno recinto fortificado que construíram, resultou uma cidade única que é hoje património mundial.
David Lopes, no seu artigo "Les Portugais au Maroc", escrito, em 1939, para a Revue d’Histoire Moderne, demonstrou como D. Manuel I se interessou desde cedo por um projeto de expansão imperial em Marrocos. Assim o atestam os melhoramentos que fez nas praças herdadas e o empenho que colocou nas conquistadas. É um período em que as guarnições das fortalezas são reforçadas, bem providas de munições e de víveres e em que os soldos de oficiais e soldados são melhorados. Diz o autor que as Cortes de Lisboa, em 1503, aprovaram um crédito de 50.000 cruzados para as despesas de guerra no Magrebe. O próprio rei planeou, mais que uma vez, ir combater no Norte de África.
Segundo Damião de Góis, ainda anteriormente à ocupação portuguesa de Mogador, vinham daquela zona vários ataques a posições lusas. No início do século XVI, os barcos portugueses frequentavam já aquela costa para se abastecerem de trigo, que transportavam sobretudo para as suas praças norte‐africanas.
Em julho de 1506, os portugueses já aí tinham chegado. No mês seguinte, D. Manuel I ordenou a Diogo de Azambuja que aí construísse o Castelo Real. Para essa edificação deveria contribuir, com o seu apoio, o almoxarifado da próxima Ilha da Madeira. Embora as fontes sejam quase inexistentes, sabemos que foram também importantes outros apoios, conforme nos dá conta um recibo de 7 de outubro de 1507. Nesse documento, João Mendes Correia, feitor de pescarias de atum no Algarve, recebeu a quitação das somas que despendeu em 1506 com o biscoito, a carne, a madeira, a cal, o tijolo e outras coisas que comprou para a construção do Castelo Real que Diogo de Azambuja fez pela ordem do rei em Mogador, de acordo com as cartas de quitação de D. Manuel.
A obra fez‐se com grande resistência dos indígenas. Duarte Pacheco Pereira, em Esmeraldo de Situ Orbis, ao fazer uma descrição geográfica e até hidrográfica da zona de Mogador, deu também relevo aos ataques que as obras sofreram: "houve tanta contradição e perseguição da multidão dos Bárbaros e Alarves que se ajuntaram a pelejar com os que este edefício foram fazer, quanto sua possessança abrangeu. E, em fim, este castelo se fez a seu pesar, e a glória do vencimento na mão de Vossa Sacra Magestade ficou".
Com a construção do castelo essa atividade terá cessado no momento, porque a edificação foi à viva força. As dificuldades de defesa levaram o governador do Funchal a enviar trezentos e cinquenta homens para socorrer Diogo de Azambuja. De Portugal, Simão Gonçalves acudiu várias vezes, com navios e gente a suas expensas, ao Castelo Real, entre outras praças, em situações de cercos.
Aquela região era, para enorme infortúnio dos portugueses, um ponto onde existia um forte espírito de guerra santa. A religião islâmica encontrava‐se ali profundamente enraizada ao ponto de existir, cerca da cidade, a importante confraria dos regragas. Tratava‐se mesmo de uma das principais organizações morabíticas de Marrocos, não só pelo enorme prestígio dos seus santões, como pelo grande número de membros das suas imensas células que viviam no próximo Jebel Hadide (Monte de Ferro) e nas terras em volta. Dos regragas saíram os mujahidin ou cavaleiros do Islão que, ao lado dos xerifes sádidas, lançavam fortes ataques à praça portuguesa.
De 1506 a 1507 sabemos ter governado o Castelo Real Diogo de Azambuja, que recebeu aquela capitania pelos trabalhos e riscos com que levou a efeito aquela construção. Seguiram‐se‐lhe Francisco de Miranda, interinamente (1507‐1509) e, após um pequeno período em que ali dirigiu D. Pedro de Azevedo, capitão de Safim, por então chegarem a estar reunidas as duas capitanias, um dito Nicolau de Sousa, o último de que se tem notícia.
Antes do final de 1510 os indígenas apoderaram‐se do Castelo Real, em circunstâncias que ainda não se conhecem. O castelo ficou abandonado, sendo reparado já em 1628 por ordem do sultão Mulei Abde Almálique. A construção do porto em 1765 fez desaparecer os últimos vestígios.
O castelo de Mogador ficava em terra firme, na zona do porto de pesca que ali existe. Há desenhos representando as suas ruínas, tanto no século XVII como no século XVIII. Num desenho de outubro de 1629, mandado executar pelo comendador De Razilly, podemos observar as ruínas do castelo na ponta rochosa, que se situa no extremo do molhe oeste do porto atual. Um outro desenho, de 25 de outubro de 1767, do arquiteto Théodore Cournut, fornece indicações mais precisas. No desenho do castelo está indicada a porta e o pátio. Tem uma legenda que refere "o antigo castelo construído pelos portugueses, de que pouco resta e que foi abandonado há quatrocentos anos. A espessura dos seus muros não era mais do que seis palmos nas suas quatro faces. Os mouros construíram cinco anos depois um parapeito sobre esta plataforma com um jorramento e sobre a face do lado noroeste há quatro peças de canhão de 12". Indicava, também, os armazéns muito fracos, arcos mal executados, muros de má qualidade, de dois pés de espessura, onde havia 2.000 barris de pólvora inglesa que não estavam em condições de proteger.
A silhueta do castelo português estava nesta época muito modificada pelas reconstruções e adições indígenas, que datavam certamente do reinado de Moulay Abd el‐Malek (1628). Mas, não há dúvida quanto à origem do velho castelo de Mogador, em que as ruínas só apareceram depois de 1765, na altura dos trabalhos de construção do porto. Sabemos, com efeito, que ele não foi inteiramente destruído depois do seu abandono por Portugal porque, em 1577, as suas ruínas foram visitadas pelo almirante inglês Francis Drake ou, pelo menos, por alguns dos seus companheiros de viagem: "tendo feito aprovisionamento de madeira e visitado um velho forte construído outrora pelo rei de Portugal, mas atualmente arruinado pelo rei de Fez, nós partimos", atesta um relatório anónimo de viagem.
Em janeiro de 1641, o pintor holandês Adriaen Matham, que acompanhava o embaixador holandês Antoine de Liedekerke, permaneceu no ancoradouro de Mogador e desenhou um croquis da costa e do castelo. Este desenho mostrava um recinto flanqueado por bastiões quadrados. Nesta altura, o castelo já tinha sido restaurado por Abd el‐Malek, estando a forma exterior provavelmente alterada. A estrutura fortificada talvez tenha sido semelhante aos castelos de Souira Kdima ou de Aguz.
A localização do Castelo Real permanece "lendária" para a população de Essaouira, bem como para os visitantes. Isto acontece porque já não é visível qualquer vestígio do castelo. Os seus restos são, muitas vezes, referidos em relação à ruína de um bastião do século XVIII que o mar vai destruindo nas dunas da praia.

Francisco Sousa Lobo

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