Arquitetura Militar

Arquitetura Militar

Agadir [Santa Cruz do Cabo de Guer], Norte de África, Marrocos

Arquitetura militar

O corpo principal de conhecimento sobre Santa Cruz do Cabo de Guer, atual Agadir, foi reunido por Joaquim Figanier, com base na troca de correspondência coeva, nas crónicas portuguesas e árabes da época e, sobretudo, na narrativa anónima publicada por Pierre de Cénival nas primeiras linhas da qual se lê "Este he o origem e começo e cabo da villa de Sta Cruz do Cabo de Gué dagoa de Narba (...)". Os escassos vestígios da presença física portuguesa neste ponto meridional da costa marroquina, que à data da publicação se poderiam ainda encontrar, foram definitivamente varridos pelo violento sismo de 1960.
Foi a construção de um castelo por João Lopes de Sequeira nesse local, em 1505, que coloca Santa Cruz irreversivelmente na rota da história das fundações portuguesas nesta costa. O castelo encontrava‐se junto ao aduar dos Aite Funti, com acesso direto ao mar, e encerrava uma nascente de água. Colocada entre os reinos de Sus e de Marrocos, Santa Cruz assumia‐se como peça importante no jogo de influências que se travava com Castela, daí a iniciativa privada de Sequeira contar com a autorização secreta de D. Manuel I.
No final desse ano de 1505, instalou‐se uma "villa de madeira" pré‐fabricada. Nos sete anos seguintes, a estrutura provisória foi sendo gradualmente cercada por uma edificação pétrea que a preservou, bem como a nascente de água doce no seu interior. O castelo de madeira surgia ainda no rol de construções que D. Manuel I comprou a Sequeira em 1513. Existia um castelo defendido por uma cerca baixa pontuada por torrelas do lado de terra. Ainda assim, do castelo saia um cubelo sobre a água, em jeito de couraça, unido por muro baixo. Um esboço de cava reforçava o perímetro amuralhado. No interior, quer as casas adossadas à cerca quer a igreja não possuíam cobertura. Com a passagem para a coroa portuguesa, urgia o reforço das estruturas militares, civis e religiosas de Santa Cruz herdadas do tempo de Sequeira.
As campanhas de obras reais concentraram‐se essencialmente em dois períodos, o primeiro dos quais teve início imediato com a capitania de D. Francisco de Castro. No verão de 1516, D. Manuel I mandava erguer trinta casas para moradores. A vila estendia‐se ao lado do castelo, onde se destacava a Torre de Menagem. Iconografia coeva ilustra a proeminência do donjon cilíndrico e telhado. Encerrava a vila uma muralha interrompida por sete cubelos ou baluartes, acompanhada por cava seca.
O segundo momento importante de investimento construtivo dá‐se com a chegada de Luís de Loureiro à praça, em 1534. Empreende a edificação de um forte baluarte, cheio de terra e munido de artilharia grossa. Esta nova estrutura constituía a tímida iniciativa com que Santa Cruz respondia às hipóteses de despejo da praça face ao movimento crescente dos sádidas na região.
A forma da praça desenharia uma superfície alongada ao longo da linha costeira, tal como a mancha amuralhada representada em cartografia posterior (1852‐1860), onde são ainda detectáveis seis cubelos ou baluartes: cubelo de Tamaraque, que coincide com a atual direção de Tamrhakht; o Facho, sólido baluarte voltado para o pico, à sombra do qual foi construído o atual santuário de Sidi Bou Qnadel; "belluarte de S. Simão", cubelo debaixo dos fornos de cal, voltado para nordeste; "cubelo da banda da mouraria, fortemente batido pelo mar", no canto sudeste, na direção da atual praia da cidade de Agadir e do outrora aduar mouro; cubelo do castelo, reconstruído por Luís de Loureiro em 1533, reforçava uma ligeira inflexão da cortina meridional; cubelinho sobre igreja do castelo ou Torre do Sino.
Depois da ocupação física do pico por parte do xerife do Sus, foram em vão os esforços lusitanos de manutenção da praça, traduzidos numa humilhante perda para a coroa portuguesa, em 1541. Hoje, é impossível o seu reconhecimento físico.

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