Enfermaria Mista

Enfermaria Mista

Bafatá, Guiné-Bissau | Golfo da Guiné | São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau

Equipamentos e infraestruturas

O projeto da Enfermaria mista para Bafatá (atual hospital regional) foi realizado por João Simões em 1946, durante a sua passagem pelo GUC. Integrado numa política de intervenção e de promoção pública promovida pelo governo central, o programa é um símbolo das políticas de desenvolvimento do Estado Novo, coincidindo com as celebrações a propósito do IV centenário da presença portuguesa no território.

Segundo o Decreto nº 34 173 de 1944, o GUC, formado ainda durante a Segunda Guerra Mundial por Marcelo Caetano enquanto ministro das Colónias, além de ter como função a produção de planos urbanísticos, também se ocuparia dos "estudos […] dos problemas da habitação nas regiões tropicais e dos edifícios hospitalares”. Neste sentido, o programa dos equipamentos de saúde foi um tema particularmente tratado e desenvolvido ao longo da primeira fase deste Gabinete, tendo sido projetadas várias tipologias: dispensários, postos de saúde, maternidades, hospitais e pavilhões para isolamento.

Neste contexto, realça-se a produção dos equipamentos no campo da saúde atribuídos a João Simões, entre os quais se encontram os projetos-tipo dos postos sanitários a integrar em regiões quentes e húmidas e regiões planálticas e litorais, onde se verifica uma preocupação com a adequação ao clima – nas primeiras o embasamento do edifício seria vazado, nas segundas, seria encerrado.

O bloco da enfermaria mista seria implantado numa área destinada ao centro de saúde. A sua localização, numa área urbana protegida e arborizada e junto ao principal equipamento escolar, estava já prevista no Plano Geral de Urbanização da cidade realizado por João Aguiar. O plano previa, no entanto, um programa mais complexo integrando outros equipamentos (bloco operatório, maternidade, pavilhão de isolamento, lavandarias, casa mortuária, etc.). A sua localização é próxima da antiga Avenida do Império (atual Avenida Bissau), avistando-se a antiga sede da PIDE, a rua das casas dos funcionários coloniais e as torres da igreja matriz.

Apesar do pragmatismo que atravessa os elementos escritos do projeto, a arquitetura remete para uma expressão de portugalidade com inspiração direta na tradição alentejana do Sul de Portugal, convenientemente adaptada aos trópicos.

A proposta passa pela remodelação e ampliação de um edifício já existente. O projecto é composto por várias alas formando um “I”, disposição justificada por aspetos funcionais, e contemplava um total de 72 camas, separadas por raças e sexos. Exteriormente, trata-se de uma construção térrea, com telhado em telha lusa e beirais sobre cimalhas de betão, conforme descrito por Simões na memória descritiva. Na composição dos volumes evidencia-se o corpo central, destacado também por um frontão triangular, ladeado por duas varandas cobertas, com acesso direto do exterior, naturalmente diferenciado para europeus e indígenas.

No corpo principal (ala A) localizam-se os serviços gerais, na ala B a hospitalização de europeus, assimilados e indígenas (homens); a hospitalização de mulheres, crianças e lactantes indígenas na ala C e o bloco operatório e de urgência no corpo mais a poente (ala D), situado no eixo transversal da ala B. Além deste edifício, conforme descrito na memória descritiva, “o plano geral (...) implica a existência dos pavilhões de cozinha, lavandaria, etc.”. Por falta de fundos, o “I” foi quebrado ao meio, ficando a ala B por terminar e tendo sido lançadas as fundações do bloco operatório.

Relativamente à materialidade, João Simões deixa em aberto algumas opções construtivas, de modo a encontrar a melhor solução durante a construção. São definidos detalhes fundamentais ao bom funcionamento da unidade, como por exemplo: os lambris em azulejo ou marmorite com 1,5m de altura (salas de tratamento, sala de consultas, sanitários, galerias e laboratório); tetos lisos evitando materiais que exigissem juntas; e o arredondamento de todas as superfícies que se intersectam, caso das paredes, tetos e pavimentos. Deste modo, a memória descritiva e justificativa reserva um espaço significativo para as normas construtivas, escusando-se a quaisquer comentários de ordem estética.

Em 2011, o edifício encontrava-se em utilização, ainda que evidenciando fragilidades ao nível do estado de conservação. O centro de saúde tem sido alvo de diferentes intervenções, tendo sido recentemente construído um pavilhão para cirurgia. 

Ana Vaz Milheiro

(projeto GCU, FCT ref.ª PTDC/AUR-AQI/104964/2008)

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