Castelos e Fortificações

Castelos e Fortificações

Tânger, Norte de África, Marrocos

Arquitetura militar

O edifício construído mais importante foi, sem dúvida, um novo castelo de aparência tardo‐medieval sobre a kasbah islâmica: um edifício alto, compacto e torreado, em grande parte cego no estrato inferior mas rasgado no superior, com cobertura telhada, que controlava Tânger desde o seu ponto mais elevado. A direção da obra é de difícil atribuição, embora Rodrigo Anes, nomeado mestre das obras dos lugares de África em 1473, apareça cronologicamente bem posicionado. O paço de Tânger ocupava o ângulo sudeste da cerca do complexo acastelado. Seria pontuado por torreões circulares, cujas reminiscências podem ainda ser observadas na malha do atual bairro da kasbah, sob a forma de uma torre transformada no forno público Hadj Tahar. Ainda no século XV, durante o reinado de D. João II, outro castelo foi construído sobre o porto, chamado Castelo Novo, como que em oposição ao mais antigo, existente no cimo da colina citadina. O edifício situava-se a uma cota baixa da cidade, no setor nordeste desta, emergindo como uma estrutura defensiva e pragmática que assegurava, no limite, a proteção aos abastecimentos em caso de cerco. A torre de menagem assemelha‐se tipologicamente à de Arzila. Tratava‐se de uma torre quadrangular, coroada por um balcão com guaritas hemicirculares nos ângulos, sobre o qual assentava uma estrutura de madeira em duas águas, coberta por telha. O interior surgia subdividido em, pelo menos, dois estratos assinalados por janelões. Dominado pela torre, o castelo articulava uma série de panos amuralhados, cujas intersecções angulares apareciam resolvidas por torreões redondos. Abrigava outras dependências, coroadas por telhados e chaminés de carácter civil. Da base da torre de menagem descia até à água uma couraça, em cuja extremidade se erguia um torreão circular, que se afirmava mais como bateria horizontal. O Castelo Novo desenhava uma planta pentagonal, secundada por fosso, com quatro dos cunhais marcados por torreões circulares e o quinto coincidente com a torre de menagem. A fachada marítima voltada para o porto encontrava‐se acompanhada por uma barbacã de altimetria menos elevada. O seu prolongamento para sul era interrompido por uma torrela com passagem através de dois portais opostos, apresentando aduelas chanfradas nos seus arcos de volta perfeita. Os vestígios ainda detectáveis são: marcas do perímetro amuralhado encontradas nas paredes exteriores dos edifícios voltados ao mar; torrela atravessada por passagem inferior e encimada por outra torre; torre circular atualmente rodeada por habitações entre as ruas Amsrak e Sania, no bairro de Dar Baroud; torre aparentemente circular, saliente em canto da Rue Amsrak; portal existente na Rue Dar Baroud. Seria a partir deste portal, remodelado por André Rodrigues já em 1546, que se lançava a ponte levadiça que atravessava a cava. Junto ao castelo erigido por D. João II abria‐se um amplo espaço livre, que ganharia a designação de Chouriço, um terreiro público para paradas militares, reunião da população ou ainda cantina aberta para os marinheiros chegados à Ribeira.
Seguindo a lógica de renovação das fortificações das praças portuguesas no Magrebe, chegou de Portugal o mestre biscainho Francisco Danzilho, em 1511. O que se conhece dessas obras foi medido por mestre Boytac e Bastião Luiz a partir de 18 de julho de 1514. Os trabalhos incidiram sobre duas zonas em concreto: o Castelo Novo e a Ribeira. Aqui, toda a operação em torno dos sectores sul e sudeste da cidade implicou uma renovação mais profunda da arquitetura militar. O projeto global previa o arranque de um novo baluarte da Ribeira, dentado em ângulos de noventa graus, para que das suas inflexões se defendesse a cidade e o porto de aproximações marítimas de sudeste e leste, e cujo desenho se faz ainda hoje sentir no arranjo urbanístico. A mesma lógica de cortina serrada foi imposta à reconstrução da muralha sul, reforçada por dois dentes, por um robusto alambor que se fundeava no fosso seco e interrompida por um torreão semicircular, hoje perdido. Atualmente, estes vestígios podem ser admirados ao longo da Rue du Portugal.
Em 1549, D. João III decidiu enviar Miguel de Arruda à cidade, que padecia de estagnação no avanço do programa de modernização das fortificações. Meia década de regência de D. Catarina ficaria marcada pela presença de uma junta de arquitetos/engenheiros régios, composta por Diogo Telles e Isidoro de Almeida, a trabalhar em conjunto com o mestre das obras da cidade, André Rodrigues. É deste a sugestão e projeto de obras de grande envergadura no Castelo Velho. Enquanto o projeto de maior fôlego não avançava, vistoriava obras no Cubelo do Bispo, hoje conhecido por Tour des Irlandais, baluarte que aspirava a uma nova concepção formal moderna. Haveria de ser com Lourenço Pires de Távora no governo da cidade que, em 1565, Tânger ficaria finalmente dotada de uma cidadela moderna que rebentava com a escala da cidade, introduzindo uma nova dimensão militar através das suas muralhas articuladas por baluartes em cunha.
A nova construção, de perfil baixo e horizontal, repousava sobre a acrópole, envolvendo o castelo afonsino com uma cortina de muralhas espessas que, através de três robustos baluartes munidos de orelhões, definiam um ângulo reto e asseguravam o encaixe com os limites da cidade. Sobranceiro à escarpa, projetava‐se outro baluarte semelhante, sem orelhões, enquanto para terra apontavam dois baluartes mais pequenos, dispostos em tenaz, unidos por uma plataforma para artilharia e denominados dos Fidalgos. Sobrevivem traços desta fortificação a nascente, perfurada por portas de acesso à kasbah, Bab Haha e Bab el Assa, e a poente, entre casas, onde os seus vestígios adiantam a caracterização da sua secção: de um peitoril para colocação das peças de artilharia descia um segmento curto e vertical, separado do grande talude inclinado por um cordão.
Como se referiu, a cidade, entre 1581 e 1643, esteve governada por nomes já designados pelos reis de Espanha, que cingiam a coroa portuguesa. Foi com Jorge Tavares na condução das obras da cidade que ocorreu uma sugestão bastante relevante no ano de 1610: a execução de um novo atalho que cortasse a cidade da Porta do Campo à Porta do Mar, seguindo uma linha decalcada sobre a então Rua Direita. Esta proposta acabaria por ser indeferida pelo rei.

Jorge Correia

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