Cisterna

Cisterna

El Jadida [Mazagão], Norte de África, Marrocos

Arquitetura militar

Em 1541, durante os árduos trabalhos de construção da nova fortaleza, o castelo serviu de apoio ao grande número de soldados e pedreiros que se encontrava na praça, fazendo parte de um sistema de proteção que incluía os meios navais estacionados frente à vila. Após o encerramento do perímetro abaluartado, já sem função defensiva, o castelo foi completamente reformulado e adaptado a novas funções. Terão sido demolidas as construções existentes no seu interior e aprofundada a escavação do maciço rochoso que constituía o solo, para a construção da Cisterna; uma extraordinária sala abobadada, aproximadamente quadrada, com cerca de trinta e quatro metros de lado, limitada pelos muros da antiga muralha. O sistema de abóbadas assenta numa malha de pilares de pedra aparelhada, composta por filas de pilares retangulares e filas de colunas de secção circular. De cada capitel partem oito nervuras, que se entrelaçam no alto de cada arco. A estrutura de pilares retangulares define um retângulo, no centro do qual, inserida na abóbada central, se abre a boca da Cisterna, um círculo com cerca de três metros e meio de diâmetro. No terraço, através desta boca, era retirada a água para consumo e provavelmente recolhida a água das chuvas. Segundo a Planta de 1611, de origem, a alimentação da Cisterna era realizada através de um cano proveniente do exterior do perímetro abaluartado, que atravessava o fosso junto ao Baluarte de Santo António, demolido durante o cerco de 1562. Analisando a planta do interior da Cisterna, e tendo em conta a erudição da obra, a estrutura composta pelos robustos pilares de secção quadrada parece ter sido concebida de modo a relacionar‐se com uma estrutura regular do terraço que seria construído sobre ela. Um terraço cujos limites deveriam coincidir com os alinhamentos das colunas de secção quadrada, localizando‐se a boca da Cisterna rigorosamente no seu centro geométrico. No entanto, o pátio que foi construído ocupa a área correspondente a todo o perímetro da Cisterna, sem relação direta com esta estrutura. Tal parece indicar que, no decorrer da obra, após a construção da Cisterna o projeto seguido terá sofrido alterações, o que pode estar relacionado com a alteração do arquiteto responsável.
Junto às quatro faces exteriores das cortinas, no espaço entre os torreões cilíndricos, foram realizadas novas construções. No conjunto sudoeste, instalou‐se a Casa da Misericórdia, com o seu Hospital e Igreja. Nos conjuntos sudeste, nordeste e noroeste instalaram‐se diversas funções, como celeiros, armazéns e prisão. Portas e janelas foram realizadas com robustas cantarias de pedra calcária aparelhada. No interior, ao nível do piso térreo, foram construídas salas abobadadas com nervuras e escudos em pedra - algumas das quais ainda existem. As torres transformaram‐se em celeiros e depósitos de pólvora. O acesso de serviço ao interior da Cisterna passou a realizar‐se através de uma porta aberta no muro sudoeste, a eixo com a boca da Cisterna. No interior, a porta era servida pela escada, ainda hoje existente. A pedra utilizada na construção dos elementos aparelhados é um calcário de boa qualidade, semelhante ao utilizado nos elementos de pedra aparelhada da fortificação abaluartada, que será proveniente de pedreira que existia na proximidade.
Após a retirada dos portugueses, a praça permaneceu encerrada durante algumas décadas. Cerca de cinquenta anos depois, por volta de 1821, os marroquinos iniciaram os trabalhos de reconstrução. Sob as ordens de Sidi Mohammed Ben Ettayeb foram realizadas obras de reconstrução da muralha e dos edifícios da vila. Ao longo dos séculos XIX e XX, o conjunto Castelo e Cisterna sofreu intervenções de diversos tipos, que vão transformar em grande parte as estruturas construídas pelos portugueses. À exceção do interior da Cisterna, todo o conjunto foi alvo de grandes trans‐ formações. O facto de a sala da Cisterna ter servido como depósito do esgoto das habitações durante várias décadas contribuiu para evitar a sua destruição. A Torre da Boreja terá sido demolida por volta de 1914, para a construção de um edifício de habitação. Anos mais tarde, provavelmente ainda durante o período do protetorado francês, terá sido construído o corpo cilíndrico que simula a antiga torre, onde hoje funciona o posto da polícia. A Torre do Rebate foi parcialmente destruída, alterada e adaptada a minarete da mesquita por volta de 1879. As torres das Cegonhas e da Cadeia conservam parte da estrutura da construção que se seguiu a 1541, como é o caso de parte das escadas exteriores. Ao longo dos anos, os edifícios construídos nas quatro faces, entre torreões, sofrem transformações e sucessivas adaptações. Durante a primeira metade do século XX são demolidas as construções frente à cortina sudoeste, correspondentes ao antigo edifício da Misericórdia, com a respectiva Igreja e Hospital. Nesta altura, terá sido reaberta a antiga porta do Castelo, através da qual se realiza hoje o acesso à Cisterna. Nas últimas décadas, foi aplicada sobre o conjunto uma espessa camada uniforme de reboco cimentício acastanhado, com acabamento rugoso. As muitas obras populares de adaptação sofridas durante os séculos XIX e XX, assim como algumas intervenções de recuperação sem clara orientação arquitetónica nem estratégia global, conduziram ao aspecto desolador que caracteriza hoje o conjunto. No entanto, no seu interior, o espaço da Cisterna - eleito por Orson Wells para a filmagem de Othello - mantém um excecional encanto e continua a constituir um testemunho de rara beleza de arquitetura do Renascimento construída durante a expansão portuguesa. Longe da sua antiga função, a Cisterna é hoje uma sala com um ambiente único e surpreendente, marcado pela qualidade do seu espaço e a solidez da sua construção. Um espaço de concepção erudita, onde adquirem forte intensidade alguns dos elementos mais essenciais da arquitetura de todos os tempos: a matéria, a luz, o som, o tempo.

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